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terça-feira, 6 de janeiro de 2026

DEUSES ETERNOS ALÉM DO DEUS DA BÍBLIA

 




A ideia central em muitas religiões monoteístas (Cristianismo, Islamismo, Judaísmo) é que Deus nunca nasceu, Ele é eterno, existindo antes do tempo e do espaço, sendo a causa primeira de tudo o que existe, não tendo começo nem fim, e estando além das limitações humanas como nascer, morrer ou ser criado. Textos sagrados descrevem Deus como "Eu Sou", o Alfa e o Ômega, que não foi gerado nem criou-se a si mesmo, mas sempre existiu. 

Mas e se eu te dissesse que a ideia da eternidade de Deus não é original e exclusiva do Cristianismo, Islamismo e Judaísmo? Povos muito mais antigos (mais antigos mesmo) já tinham seus Deuses ou Deus como uma divindade verdadeira e eterna.


Nammu

A Deusa Nammu é a própria criação em si, ela personifica a eternidade, o que a torna a figura materna suprema nos mitos da Mesopotâmia antiga. Ela também é conhecida pelo nome Engur.

Nammu era a deusa primordial suméria do mar primordial, considerada a "Mãe de Tudo", que deu à luz espontaneamente o cosmos, incluindo o céu (An) e a terra (Ki), e os primeiros deuses, representando as águas férteis e vivificantes (Apsu) sob a terra, e também ajudou a criar a humanidade com seu filho, Enki.

Seu nome está ligado à palavra suméria para água, simbolizando a vida, a fertilidade e o potencial ilimitado e eterno do cosmos.

Embora ela fosse uma Deusa que sempre existiu, nunca nasceu ou surgiu, somente existe, seu papel diminuiu à medida que Enki e, posteriormente, Marduk assumiram responsabilidades de criação mais proeminentes, embora ela tenha permanecido importante o suficiente para que Ur-Nammu se nomeasse em sua homenagem. 

Em essência, Nammu é a entidade ancestral e atemporal da qual tudo, incluindo deuses e humanos, se origina, uma verdadeira "Deusa Mãe" do princípio.


Ninhursag

Ninhursag, a Deusa Mãe sumeriana, é fundamental no nascimento da humanidade, atuando como parteira e criadora, moldando humanos de argila misturada com a carne de um deus sacrificado, em um processo descrito no mito da criação, para aliviar os deuses do trabalho pesado, simbolizando fertilidade, maternidade e a própria vida. Ela também é conhecida por diversos nomes como Ninmah, Mami e Nintu (Senhora do Nascimento) e tem representações icônicas como o útero (Ômega) com uma faca de corte de cordão umbilical. Seu nome foi mudado de Ninmah para Ninhursag por seu filho Ninurta.

Ela criou a humanidade após a invenção da enxada por Enki, que “descobriu” a necessidade de seres para o trabalho agrícola. Frequentemente representada pelo símbolo grego ômega com uma faca, simbolizando o útero e o corte do cordão umbilical.

Ninhursag não nasceu, sempre existiu, ela é a Mãe original, criadora da humanidade, sendo uma Deusa eternal, ela não tem começo de tempo, não tem início de vida e nem começo de existência. Ela não tem início de dias, ela é a Mãe eterna e longeva da humanidade. 

É retratada como uma criadora primordial, que molda a vida a partir do barro e da água, e é central nos mitos sumérios sobre as origens da vida e o mundo natural, simbolizando o cuidado e a própria terra. 


Tiamat

Na mitologia babilônica, Tiamat não teve um "nascimento" no sentido convencional, pois era uma das duas divindades primordiais que existiam no início de tudo, antes mesmo de os deuses mais jovens serem criados.

Sendo assim, Tiamat era uma deidade eterna, sempre existindo, sem uma origem ou nascimento, pois, sendo uma Deusa primordial, ela somente existe, ela é a própria personificação da existência eterna.  Tiamat personificava o mar salgado e o caos (origem) primordial.

Isso a torna uma das primeiras entidades eternas nos mitos de criação babilônicos (o Enuma Elish ), mãe dos primeiros deuses e, posteriormente, uma encarnação monstruosa do caos que lutou contra seus próprios filhos, sendo finalmente morta pelo deus Marduk, que usou seu corpo para formar os céus e a terra. Ela simboliza o oceano caótico e indomável e é uma figura importante na mitologia mesopotâmica antiga, aparecendo também na fantasia moderna como uma poderosa deusa dragão. 

Seu nome vem da palavra acádia para "mar" (tiamtum ou tamtum). Ela sempre existiu, isso quer dizer que ela somente personifica tanto a criação (como o mar primordial) quanto o caos (como o oponente monstruoso).


Vishnu

O Senhor Vishnu, como o Deus Supremo eterno no Hinduísmo, é considerado não nascido, não criado,  ele é simplesmente eterno, existindo além do ciclo de nascimento e morte, a fonte de toda a criação. O próprio Vishnu não tem um nascimento tradicional. Ele aparece em diferentes formas (avatares), como Krishna ou Rama, para manter a ordem cósmica, e esses avatares nascem de pais humanos, sendo o nascimento de Krishna a partir de Devaki um exemplo famoso em que Vishnu se manifestou brevemente antes de se tornar um bebê. 

O Senhor Vishnu é a suprema consciência divina (Param Brahman) e não está sujeito ao nascimento ou à morte; Ele é a causa de todas as causas, sendo por si só, eterno, sempre existindo pela eternidade. Mas quando o equilíbrio cósmico é ameaçado, Vishnu desce à Terra em várias formas (avatares) para defender o dharma (retidão).

No caso de Krishna (um avatar de Vishnu), Ele apareceu a Devaki e Vasudeva em Sua forma de Vishnu com quatro braços antes de se transformar em um bebê, cumprindo uma bênção para eles. Vishnu, como Maha Vishnu, é a fonte da qual os universos emergem, expandindo-se a partir de Seu sopro, e Ele é responsável por sua preservação. 

Assim, Vishnu não nasce como os mortais; em vez disso, Ele aparece ou se manifesta no mundo, muitas vezes nascendo como um avatar para cumprir propósitos divinos, pois ele sempre existiu, ele é a própria eternidade em si mesmo.


Shiva

Shiva não "nasceu" no sentido humano, pois é considerado Swayambhu,  é uma divindade sem começo nem fim, uma energia cósmica que transcende o tempo e o espaço, por isso não tem um nascimento, simplesmente existe desde sempre. A palavra Swayambhu: Significa que ele se manifestou por conta própria, não vindo de pais.

Shiva é considerado Swayambhu (autoexistente, sem criador) e eterno, existindo antes e depois da criação do universo, sendo conhecido como Aadi (o começo) e Ananth (o fim). Embora algumas tradições o vejam como originado da raiva de Vishnu ou nascido do pensamento de Brahma, mas a crença comum é que ele sempre foi e sempre é, além de ser uma energia infinita, sem um nascimento mortal ou data de morte, sendo o "Destruidor" e transformador na Trindade Hindu. 

Shiva teve várias encarnações na Terra, como o Avatar Piplaad, nascido de um sábio, mas estas são manifestações, não seu nascimento original. 

Em essência, Shiva é a própria realidade eterna, existindo como o princípio e o fim, além da necessidade de ter nascido. 


Shang Ti 

Shang Ti  ou Shang Di é a  divindade suprema na antiga religião chinesa, a natureza de Shang Ti é vista como transcendente, eterna e criadora, o que implica que essa entidade não teve um começo, ou nascimento, e existe perpetuamente. Shang Ti não nasceu, sempre existiu, ele é a representação da própria eternidade contida em sua existência eternal. 

Shang-Ti (ou Shangdi), significa "Senhor Supremo", particularmente reverenciado pela elite governante da Dinastia Shang (c. 1600–1046 a.C.) ele era o Deus do destino, das colheitas e das batalhas, mas era considerado distante demais para ser adorado diretamente pelo povo. Não era uma figura histórica, mas um conceito poderoso, que evoluiu do culto aos ancestrais para a figura de um ser divino supremo, sendo eventualmente associado a Tian (Céu) durante a Dinastia Zhou e, posteriormente, adotado por missionários cristãos como um nome para Deus. Contudo, todas as dinastias que vieram depois da Dinastia Shang. O tinham como o ser não somente primordial, mas eterno, sempre existindo, dando a alusão também da eternidade da Dinastia Shang. A família real Shang o considerava seu ancestral divino, o que lhes permitia atuar como intermediários para o povo. Ele determinava o sucesso das colheitas, a vitória na guerra e o destino do reino. 

Ele não possuía um culto direto devido à sua natureza suprema e distante, com a adoração fluindo através de seus ancestrais reais. Em essência, Shang-Ti era um conceito teológico fundamental que representava um poder divino supremo e eterno no pensamento chinês antigo, e não um indivíduo histórico. 


Kök Tengri

É o Deus dos antigos Turcos e Mongóis Tengri é o Deus do Céu, seu nome completo é Kök Tengri, que quer dizer Céu Azul. Ele é a divindade suprema do céu na antiga religião xamânica e animista dos povos Kök Tengri

É o Deus dos antigos Turcos e Mongóis Tengri é o Deus do Céu, seu nome completo é Kök Tengri, que quer dizer Céu Azul. Ele é a divindade suprema do céu na antiga religião xamânica e animista dos povos Turcos e Mongóis, sendo o deus principal do Tengrismo, que adora os Tengris (deuses do céu) e a Mãe Terra (Umay Ana). Ele controla o firmamento, é visto como o criador do cosmos, e os governantes turcos eram considerados seus representantes na Terra, recebendo títulos como "filhos de Tengri". A crença em Kök Tengri, ou Gök Tanrı, envolve adoração de ancestrais, xamanismo e rituais dedicados ao céu, montanhas e rios, com sacrifícios de animais e oferendas de leite e chá. 

Kök Tengri é o chefe do panteão, frequentemente associado ao "Tian" chinês e ao conceito indo-europeu de Dyeus, o deus do céu, governa o céu e, em algumas tradições, é pai do Sol (Koyash) e da Lua (Ay Tanrı).

Em diversas tradições, Tengri é considerado "autocriado" (Möngke Tngri). Ele é frequentemente identificado com o próprio céu azul infinito, incognoscível e atemporal, e é a fonte de toda a existência. Sendo portanto, eterno, sempre existindo, sendo o próprio tempo, ele é o começo e o fim de tudo, sua eternidade não tem começo e nem fim de dias, anos ou eras. A eternidade é encarnada no próprio Kök Tengri, sendo esta divindade tão antiga, que o próprio tempo se encarrega de ser ele mesmo em sua essência, assim como o céu é infinito, Kök Tengri é portanto o próprio céu, eterno, atemporal e existindo desde sempre.

Um importante mito da criação turco descreve Tengri na forma de um ganso branco puro voando sobre uma imensidão de água (representando o tempo). Incitado por Ak Ana ("Mãe Branca"), ele iniciou o processo de criação para superar sua solidão. Esse ganso em questão continua sendo o próprio Tengri, que, além de ser eterno, pode se manifestar de várias formas e maneiras para os mortais que habitam em suas posses, pois tudo que está debaixo dos céus pertence a Tengri, e este pode se manifestar em qualquer objeto, animal ou humano, pois tudo na terra está abaixo do alto céu azul, sendo o próprio Deus.

Embora o próprio deus não nasça, pois ele próprio nunca nasceu e nunca morreu, governantes históricos (Chágans) como Genghis Khan e Bilge Kaghan alegavam ser "nascidos de Tengri" ou ter um "destino dado por Tengri". Isso estabelecia seu direito divino de governar como seus representantes na Terra.

Sendo o deus principal do Tengrismo, que adora os Tengris (deuses do céu) e a Mãe Terra (Umay Ana). Ele controla o firmamento, é visto como o criador do cosmos, e os governantes turcos eram considerados seus representantes na Terra, recebendo títulos como "filhos de Tengri". A crença em Kök Tengri, ou Gök Tanrı, envolve adoração de ancestrais, xamanismo e rituais dedicados ao céu, montanhas e rios, com sacrifícios de animais e oferendas de leite e chá. 

Kök Tengri é o chefe do panteão, frequentemente associado ao "Tian" chinês e ao conceito indo-europeu de Dyeus, o deus do céu, governa o céu e, em algumas tradições, é pai do Sol (Koyash) e da Lua (Ay Tanrı).

Em diversas tradições, Tengri é considerado "autocriado" (Möngke Tngri). Ele é frequentemente identificado com o próprio céu azul infinito, incognoscível e atemporal, e é a fonte de toda a existência. Sendo portanto, eterno, sempre existindo, sendo o próprio tempo, ele é o começo e o fim de tudo, sua eternidade não tem começo e nem fim de dias, anos ou eras. A eternidade é encarnada no próprio Kök Tengri, sendo esta divindade tão antiga, que o próprio tempo se encarrega de ser ele mesmo em sua essência, assim como o céu é infinito, Kök Tengri é portanto o próprio céu, eterno, atemporal e existindo desde sempre.

Um importante mito da criação turco descreve Tengri na forma de um ganso branco puro voando sobre uma imensidão de água (representando o tempo). Incitado por Ak Ana ("Mãe Branca"), ele iniciou o processo de criação para superar sua solidão. Esse ganso em questão continua sendo o próprio Tengri, que, além de ser eterno, pode se manifestar de várias formas e maneiras para os mortais que habitam em suas posses, pois tudo que está debaixo dos céus pertence a Tengri, e este pode se manifestar em qualquer objeto, animal ou humano, pois tudo na terra está abaixo do alto céu azul, sendo o próprio Deus.

Embora o próprio deus não nasça, pois ele próprio nunca nasceu e nunca morreu, governantes históricos (Chágans) como Genghis Khan e Bilge Kaghan alegavam ser "nascidos de Tengri" ou ter um "destino dado por Tengri". Isso estabelecia seu direito divino de governar como seus representantes na Terra.


Todas estas divindades são muito mais velhas do que o Deus bíblico, muito antes de existir o povo Cananeu (pois os Hebreus são Cananeus), as religiões destas nações, são milhares de anos mais velhas que a própria existência do povo canaanita hebraica.


terça-feira, 30 de dezembro de 2025

A XVIII DINASITIA DO KEMET - EGITO

 


A XVIII dinastia egípcia foi criada após a expulsão dos Hicsos, povos de origem asiática, e que comandaram o Egito por quase duzentos anos e é talvez a mais bem conhecida dinastia do Antigo Egito.

Tradicionalmente diz-se que a XVIII dinastia egípcia reinou entre 1550 ou 1557 a.C. e 1295 a.C., totalizando 255 ou 262 anos de duração/ foi a era em que o antigo Egito atingiu o auge de seu poder.

A Décima Oitava Dinastia é única entre as dinastias egípcias nativas por ter tido duas rainhas reinantes que governaram como faraós: Hatshepsut e Neferneferuaten, geralmente identificada como Nefertiti.

A Décima Oitava Dinastia é renomada por suas realizações artísticas, incluindo a construção de templos monumentais como os de Luxor e Karnak, bem como o desenvolvimento do Período de Amarna sob o reinado de Akhenaton.

Os faraós da Décima Oitava Dinastia, particularmente Tutmés I, Tutmés III e Amenófis II, conduziram ambiciosas campanhas militares que expandiram as fronteiras do Egito ao máximo. Tutmés III, frequentemente chamado de "Napoleão do Antigo Egito", é especialmente renomado por suas numerosas e bem-sucedidas campanhas militares na Síria, Núbia e no Levante, que colocaram vastos territórios sob o controle egípcio.

A Décima Oitava Dinastia testemunhou conquistas culturais e arquitetônicas notáveis. Faraós como Hatshepsut, Akhenaton e Tutancâmon deixaram uma marca significativa na história egípcia. Hatshepsut, uma das faraós mais famosas, iniciou projetos de construção ambiciosos, incluindo a construção de seu templo mortuário em Deir el-Bahari. Akhenaton, conhecido por suas reformas religiosas e pelo estabelecimento de um culto monoteísta centrado no deus sol Aton, construiu uma nova capital chamada Akhetaton (atual Amarna). Tutancâmon, embora seu reinado tenha sido relativamente curto, é famoso pela descoberta de seu túmulo intacto no Vale dos Reis, que proporcionou um vislumbre extraordinário da riqueza e do requinte artístico da época.

A Décima Oitava Dinastia testemunhou desenvolvimentos religiosos significativos, particularmente durante o reinado de Akhenaton, que tentou mudar o foco religioso do Egito do panteão tradicional de deuses para o culto a Áton, o disco solar. Esse período de convulsão religiosa, conhecido como Período de Amarna, teve um profundo impacto na arte, arquitetura e sociedade egípcias.

A Décima Oitava Dinastia começou a declinar em seus últimos anos devido a conflitos internos, instabilidade política e ameaças externas. O reinado de Amenófis IV (Akhenaton) e seus sucessores testemunhou desafios às práticas religiosas tradicionais e um enfraquecimento da autoridade central. A dinastia acabou cedendo lugar à Décima Nona Dinastia após o reinado de Horemheb, que restaurou a estabilidade no Egito.

De modo geral, a Décima Oitava Dinastia do Egito representa um período de imenso poder, florescimento cultural e conquistas militares, deixando um legado duradouro na história e civilização egípcias.

A ordem dos governadores do Egito da XVII Dinastia. Há muitas divergências quanto as datas. É importante notar que a ordem cronológica dos faraós é um tema em constante evolução e, portanto, deve ser tratada com certa cautela. À medida que novas pesquisas são realizadas, a ordem pode estar sujeita a alterações, o que é um princípio fundamental que se aplica a todas as dinastias egípcias.


Amósis I, (Nebpehti-re[1]) – 1550-1525 a.C.

Amenófis I, (Djeserka-re) – 1525-1504 a.C.

Tutemés I, (Akhperenre) – 1504-1492 a.C.

Tutemés II, (Akhperenre) – 1492-1479 a.C.

Hatexepsute, (Maatka-re) – 1479-1457 a.C.

Tutemés III, (Menkheperu-re) – 1457-1425 a.C.

Amenófis II, (Akheper-re) – 1425-1400 a.C.

Tutemés IV, (Menkhperu-re) – 1400-1390 a.C.

Amenófis III, (Nebmaat-re) – 1390-1352 a.C.

Aquenáton, (Neferkheperu-re-waenre) – 1352-1338 a.C.

Semencaré, (Ankhkeperu-re) – 1338-1336 a.C.

Tutancâmon, (Nebkheperu-re) – 1336-1327 a.C.

Aí, (Kheperkheperu-re) – 1327-1323 a.C.

Horemebe (Djeserkheperu-re) – 1323-1295 a.C.


O auge do Egito Antigo, como um todo, ocorreu durante o período conhecido como Novo Império (aproximadamente entre 1550 a.C. e 1070 a.C.). Esta fase é frequentemente chamada de "Era de Ouro" da civilização egípcia devido ao seu extremo poder militar, prosperidade econômica e esplendor cultural.


DESTINO MANIFESTO

 


O termo Destino Manifesto (Manifest Destiny) foi criado em 1845 pelo jornalista John Louis O'Sullivan, refletindo a crença de que os EUA estavam destinados por Deus a se expandir por toda a América do Norte, do Atlântico ao Pacífico, levando democracia e sua civilização, um conceito que justificou a expansão territorial dos EUA no século XIX, como a anexação do Texas e a Guerra com o México.  

O jornalista  John Louis O'Sullivan promovia visões de supremacia racial e noções de superioridade anglo-saxã (raça branca), que eram precursoras de ideologias racistas e, em alguns casos, da eugenia. Em seu "Destino Manifesto" de 1845, ele defendia a expansão territorial dos EUA como uma missão divina para espalhar a democracia e a civilização. A sua ideologia de expansão estava intrinsecamente ligada à crença na superioridade da "raça anglo-saxã" (raça branca) sobre outras raças, como a mexicana e a nativa americana. Ele chegou a escrever que a "raça mexicana deve ser perdida, no vigor superior da raça anglo-saxã, ou deve perecer completamente".

As crenças de O'Sullivan eram profundamente arraigadas no racismo e na hierarquia racial, justificando a conquista territorial com base em uma suposta superioridade racial e cultural. Embora não fosse um eugenista no sentido científico ou formal, suas ideias de superioridade racial contribuíram para o clima intelectual que, mais tarde, alimentaria o movimento eugênico nos EUA e em outros lugares.

O Destino Manifesto é uma ideologia de política de direita americana, eles também fazem o uso da religião, pois dizem que eles têm a "missão, dever, obrigação e responsabilidade" de levar a palavra de Deus e a civilização para os povos atrasados. Mas o que vemos é o ideal europeu de raça pura e o racismo sendo disseminado mais uma vez, em detrimento dos outros povos e culturas.

Infelizmente, temos o Darwinismo Social americanizado servindo de molde para a subcultura esdrúxula da tal "raça superior" para justificar o colonialismo, racismo e a escravidão. A subjugação dos povos pelo racismo é um processo sistêmico e histórico de dominação que utiliza a crença em uma hierarquia de raças para justificar a exploração, exclusão e opressão de grupos racializados, garantindo privilégios para o grupo dominante. Esse processo vai além de atitudes individuais e se manifesta em estruturas sociais, instituições e relações cotidianas. 


Início

O ideal da supremacia branca para escravizar os outros povos era velho, desde 1500. Os motivos para isso são vários, como:

• A Descoberta do Continente Americano

• As Grandes Navegações

• Renascimento Europeu

• Escravidão do Povo Africano

• Escravidão e depois Assassinato dos Índios

Os Europeus diziam que eles tinham o dever divino de espalhar o cristianismo para as outras nações. Uma vez vindos aqui no continente, eles fizeram valer seus ideais.


Compra do Gigantesco Estado da Louisiana

Quando os americanos conseguiram sua independência da Inglaterra em 1776, o ideal racista europeu estava mais que enraizado nas treze colônias americanas. No ano de 1803, ou 27 anos depois da independência da Inglaterra, eles compraram o Estado da Louisiana da França, que estava sob o poder de Napoleão Bonaparte, por 15 milhões de dólares, em valores corrigidos, seriam cerca de 400 milhões de dólares.

A compra, negociada por Thomas Jefferson, mais do que dobrou o território dos EUA, expandindo-o para o oeste até as Montanhas Rochosas e garantindo o controle estratégico do Rio Mississippi. O nome Louisiana era em homenagem ao Rei Luiz XIV da França.

Após a compra do Estado da Louisiana, os EUA partem em direção ao oeste, com os ideais supremacistas brancos de orientação política de direita e conservadora, os americanos partem para conquista e expansão.


Doutrina Monroe

A Doutrina Monroe, proclamada pelo presidente James Monroe em 1823, foi uma política externa dos EUA que estabeleceu o lema "América para os americanos", declarando que o continente americano estava fechado para futuras colonizações europeias e que os EUA não interfeririam nos assuntos europeus, mas alertavam que qualquer tentativa de recolonização seria vista como um ato hostil. Inicialmente defensiva, a doutrina foi reinterpretada ao longo do tempo, servindo de base para o expansionismo e intervenções dos EUA na América Latina, especialmente a partir do Corolário Roosevelt (1904). 

A doutrina surgiu após as guerras de independência na América Latina, onde potências europeias (como Espanha, França e Grã-Bretanha) tentavam restabelecer influência. Os EUA, recém-independentes, buscavam proteger suas fronteiras e consolidar sua esfera de influência, aliando-se ideologicamente às novas nações. 

Da Doutrina Monroe de 1823, temos a seguir, o Destino Manifesto, justificando o expansionismo territorial e a hegemonia dos EUA, de onde temos o famoso "Corolário Roosevelt."


Corolário Roosevelt 

Foi um adendo à Doutrina Monroe, formalizado pelo presidente Theodore Roosevelt em 1904, que autorizava os Estados Unidos a intervir militarmente na América Latina como "polícia internacional" para garantir que nações da região cumprissem suas obrigações com credores estrangeiros e mantivessem a ordem interna, justificando intervenções em países como Cuba, Nicarágua e Haiti para proteger interesses americanos e evitar a intervenção europeia, associado à política do Big Stick (Grande Porrete).


Big Stick

O "Big Stick" (Grande Porrete) foi a política externa dos EUA, sob Theodore Roosevelt (1901-1909), baseada no provérbio "fale manso e carregue um grande porrete", usando diplomacia cordial com a ameaça implícita de força militar (o "porrete") para garantir os interesses americanos, especialmente na América Latina, resultando em intervenções no Panamá (Canal), Cuba (Emenda Platt) e Nicarágua, consolidando a hegemonia dos EUA no hemisfério. 

Esta política mansa agressiva visava negociações pacíficas, mas com o poderio militar (Marinha) pronto para intervir, se necessário, estabeleceu os EUA como potência hegemônica e "polícia" regional, intervindo para corrigir "irregularidades crônicas" e protegia o comércio e investimentos dos EUA.


Donald Trump

Donald Trump fez referência ao conceito de "Destino Manifesto" em seu discurso de posse como o 47º presidente dos Estados Unidos, em janeiro de 2025. A citação gerou controvérsia, pois o termo remete a uma ideologia histórica e expansionista dos EUA. 

Em seu discurso, Trump declarou: "Vamos perseguir o nosso destino manifesto até as estrelas, lançando astronautas americanos para fincar as estrelas e listras (da bandeira americana) no planeta Marte".

Historicamente, a ideologia é criticada por legitimar invasões, ofensivas militares e o extermínio de populações nativas. 

Ao usar o termo, Trump o atualizou para um contexto de exploração espacial (Marte), mas também fez outras menções que sugerem uma política externa mais assertiva e potencialmente expansionista, como a possibilidade de renomear o Golfo do México para "Golfo da América" ou assumir o controle do Canal do Panamá. Analistas e críticos interpretaram a fala de Trump como um sinal de que sua administração adotará uma postura de busca por maior domínio global e de reafirmação do excepcionalismo americano, tanto na Terra quanto no espaço. 



quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

RACISMO ESTRUTURAL

 


Racismo estrutural é um sistema em que a discriminação racial está embutida na organização da sociedade, nas instituições, leis, políticas e cultura, favorecendo o grupo branco e desfavorecendo negros e indígenas, não como atos isolados, mas como o funcionamento "normal" da estrutura social, perpetuando desigualdades históricas, como acesso à educação, saúde, trabalho e justiça. 

Para ser mais exato, o racismo estrutural está impregnado nas instituições governamentais, nas empresas privadas, no sistema judiciário, no entretenimento, programas de rádio e televisão, nas religiões de matriz cristã (católicas e evangélicas afins), na polícia e todo escopo cultural brasileiro.

Ou seja, racismo estrutural é quando o preconceito e a discriminação racial estão consolidados na organização da sociedade, privilegiando determinada raça ou etnia em detrimento de outra.

O simples fato de o Brasil ser um país racista não assumido dificulta a discussão sobre este assunto tão latente. Brasileiro vê racismo, mas não se considera racista.

O termo “racismo institucional” foi usado pela primeira vez no livro Black power: Politics of liberation in America, de Charles V. Hamilton e Kwame Ture, publicado em 1967.

Já sob essa perspectiva, que, segundo o autor, foi um importante avanço teórico para o estudo das relações sociais, o racismo não se resume a comportamentos individuais. 

Seria, portanto, o resultado do funcionamento das instituições – tanto públicas (o legislativo, o judiciário, o ministério público, reitorias de universidades etc.) quanto privadas (diretorias de empresas e organizações).

A origem da desigualdade racial, sob esse olhar, não seria uma simples consequência da ação isolada de indivíduos ou grupos racistas.

As instituições estariam dominadas por grupos sociais que utilizam seus mecanismos para impor e manter seus interesses políticos e econômicos. O racismo seria uma forma de dominação.

Na visão de Silvio Almeida, porém, todo racismo é estrutural. 

Como escreve em seu livro, “o racismo é uma decorrência da própria estrutura social, ou seja, do modo ‘normal’ com que se constituem as relações políticas, econômicas e até familiares, não sendo uma patologia social e nem um desarranjo estrutural.”

Comportamentos individuais e processos institucionais têm, dessa forma, origem em uma sociedade em que “racismo é a regra e não exceção”.


Mas por que o mito de que não existe racismo no Brasil persiste?

Persiste por conta de uma parte da elite que não quer admitir que pessoas pretas ainda sofrem os resultados da escravidão, ainda nos dias atuais. 

A ideia de que o Brasil não é um país racista por não ter leis de segregação como as americanas ou por causa de sua história de miscigenação é incorreta, mas persistente. O sociólogo Gilberto Freyre (1900-1987) é creditado como o primeiro autor a popularizar a ideia de que o país seria uma “harmonia racial”, mas a teoria é hoje encarada primordialmente como um mito.

O próprio Jair Bolsonaro, em diversas ocasiões, negou a existência de racismo no país, chegando a dizer que "aqui no Brasil não existe isso de racismo". 29/06/2018. Ele já foi condenado a pagar indenização por falas racistas.

O ex-vice-presidente da República, Hamilton Mourão, afirmou que não existe racismo no Brasil. "Lamentável, né? Lamentável isso aí. Isso é lamentável. Em princípio, é segurança totalmente despreparada para a atividade que ele tem que fazer [...] Para mim, no Brasil não existe racismo. Isso é uma coisa que querem importar aqui para o Brasil. Isso não existe aqui", afirmou Mourão. Brasília 20/11/2020 

Sérgio Camargo (bolsonarista fanático), que presidiu a Fundação Cultural Palmares entre 2019 e 2022, fez diversas declarações polêmicas negando ou minimizando a existência de racismo no Brasil. 

O racismo começa quando não admitimos sua existência, isto é uma herança que vem desde o século XVI e persiste até hoje. 

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

RACISMO NO TRABALHO

 


O racismo empresarial é forte nos dias atuais. O pensamento de que profissionais negros não são tão capazes de gerir equipes, por exemplo, como outros profissionais, ainda é uma questão presente. 

Em uma entrevista ao Roda Viva, Cristina Junqueira, cofundadora do Nubank, afirmou que não dá para contratar profissionais negros para trabalhar no banco, pois o nível de exigência da empresa é alto. Contratando esses profissionais, o nível da empresa irá baixar.

Quando esses profissionais são contratados, eles não são considerados da mesma forma que profissionais brancos. Uma pesquisa realizada pela Iniciativa Empresarial pela Igualdade Racial aponta que profissionais negros ocupam apenas 6,3% dos cargos de gerência em 23 grandes empresas nacionais e multinacionais.

No entanto, nos cargos de aprendizes, estagiários e trainee, encontra-se uma maioria negra. De acordo com o IBGE, negros ganham 39,2% menos que brancos no trabalho. Profissionais negros enfrentam muitas dificuldades para crescer em empresas.

Além dessa diferenciação, quando um negro possui o mesmo cargo que um colega branco, ele ganha menos. A diferença salarial entre negros e brancos é de 48%. Para as mulheres negras, pode chegar a uma diferença de até 70% para o mesmo cargo e função.

O racismo não é sobre se esforçar ou se dedicar menos, é sobre direitos negados e portas fechadas. Para mudar esse cenário, as empresas precisam adotar medidas combativas. 

Tudo isso está ligado ao racismo estrutural. Entender o racismo estrutural é essencial para ver as raízes das desigualdades em nossa sociedade. Esse conceito mostra um sistema que perpetua discriminação e exclusão. É crucial saber como ele se manifesta no trabalho. O racismo estrutural é um sistema que exclui grupos minoritários, especialmente negros. Ele vem da história de injustiças, como a escravidão. Essas práticas ainda afetam a sociedade, criando disparidades raciais.

O racismo estrutural afeta as empresas de várias maneiras. Ele impacta a cultura da empresa e como os colaboradores se sentem. É crucial entender como esses efeitos se manifestam em desafios reais para as empresas. As empresas com culturas fechadas têm dificuldade para atrair e manter talentos. 

Pessoas negras no Brasil enfrentam uma realidade de maior vulnerabilidade e sub-representação no mercado de trabalho, concentrando-se em subempregos, informalidade e trabalhos de baixa remuneração, com salários significativamente menores que os de pessoas brancas, apesar de avanços pontuais na educação; essa situação acentua desigualdades sociais e restringe a ascensão profissional, sendo as mulheres negras as mais afetadas. Rendimentos médios de negros são inferiores aos de brancos, mesmo com níveis de escolaridade semelhantes, havendo uma diferença abissal em todas as posições. 

A concentração em subempregos perpetua a desigualdade, afetando o acesso à educação, moradia e segurança, gerando um ciclo de vulnerabilidade social para a população negra. 

Trabalhadores negros e negras ocupam cargos piores, recebem salários menores, têm mais dificuldade para conseguir empregos e estão em trabalhos precarizados, conhecidos como subempregos.

A discriminação racial acontece primeiramente na maior dificuldade de inserção

dos negros no mercado de trabalho. A taxa de desemprego dos negros é sistematicamente superior à dos demais trabalhadores.

A escravidão deixou um legado de exclusão, que ainda impacta a inserção e valorização da população negra no mercado de trabalho.



EUGENIA MODERNA



A busca pela “raça pura” não é só coisa de nazista: foi uma aparência mundial. E o seu fantasma ainda ronda a sociedade.

Algo cheirava mal na Inglaterra da rainha Vitória. Após três surtos de cólera e um episódio de calor intenso no verão de 1858, batizado de Grande Fedor (em guardas, mesmo), despejar todo o cocô de Londres no Rio Tâmisa não parecia mais uma boa ideia.

Saneamento básico e saúde pública foram tão planejados no fim do século 19 quanto a corrupção em Brasília é hoje. A Revolução Industrial criou uma pobreza inédita, diferente do camponês que plantava por subsistência. Os operários da indústria têxtil e da construção naval se empilhavam em cortiços, sem acesso à água tratada. Frequentavam bares e bordéis, eram desnutridos, alcoólatras e tinham filhos – muitos filhos.

Francis Galton, rico herdeiro de uma família tradicional, viu na periferia de Londres um problema darwinista. Ao pé da letra: ele era primo de Charles Darwin, e havia lido (ou melhor, devorado) a Origem das Espécies logo após o lançamento, em 1859.

O que Darwin afirmou, grosso modo, foi o seguinte: filhotes de uma ninhada nascem com diferenças sutis. Os que são mais aptos – graças aos dentes refinados, tímpanos aguçados ou músculos de contração mais rápidos – fornecem mais água, alimento e sexo. Assim, eles têm mais filhotes, e seus traços hereditários vantajosos prevalecem na população. Evolução por seleção natural.

Darwin não menciona o ser humano uma única vez no livro; mesmo assim, acendeu uma lâmpada na cabeça de Galton. Ele não só notou que a sobrevivência dos bem adaptados se aplicava ao Homo sapiens como concluiu que só havia um jeito de salvar a “raça europeia”: acelerar artificialmente, (por decreto, até) a atuação da seleção natural.

Para Galton, era necessário estimular o coito entre humanos que uma elite econômica via como vira-latas e incentivar os humanos de raça, com pedigree. Empreender um aperfeiçoamento autodirigido, para o bem do próprio povo. Em 1883, Galton deu à estratégia um nome: eugenia. Vem do grego: eu significa “bom”, gene significa “linhagem”, “raça”, “parentesco”.

“Estamos muito necessitados de uma palavra breve para a ciência de melhorar a estirpe”, afirmou Galton. “Para dar às raças ou linhagens de sangue mais adequado uma chance melhor de prevalecer depressa sobre as menos adequadas.”

Para Galton, a tendência à miséria, ao vício e à doença era tão hereditária quanto à altura ou ao cor dos cabelos. Se os filhos dos inaptos já iam morrer pela mão cruel da seleção natural, era melhor que não nascessem: “O que a natureza faz às cegas (…) o homem pode fazer com previdência, rapidez e segurança”.

Ele se tornou uma máquina de coleta de dados. Tirava as medidas corporais de famílias inteiras em busca de uma explicação para a aparência da hereditariedade (lembre-se: a genética de Mendel ainda estava escondida na gaveta). Em 1877, numa espécie de Minority Report do século 19, ele esquadrinhou os rostos de condenados tentando tentar um tipo de crime a cada fisionomia. Galton queria transformar a humanidade em uma imensa planilha de Excel. E deletar as colunas incômodas.

Essas ideias foram recebidas como vanguarda da ciência. No início do século 20, Londres sediaria o primeiro congresso internacional de eugenia. A Inglaterra não chegou a colocar em prática as ideias de Galton. Dezenas de outras nações, porém, as abraçaram. A mais dedicada delas, nas primeiras décadas, não foi a Alemanha – e sim os EUA.

Em 1907, o Estado de Indiana introduziu a primeira lei de esterilização compulsória do mundo. Entre 1907 e a década de 1960, mais de 64 milhões de americanos considerados “inaptos” foram evolutivamente castrados com anuência das autoridades. Eram alcoólatras, esquizofrênicos, epiléticos, criminosos, prostitutas… Essa modalidade de eugenia era chamada de negativa. Um relatório sobre o resultado da prática na Califórnia – recordista de esterilização entre os 32 Estados que a adotaram – serviu de inspiração para os oficiais nazistas que implantaram a prática do outro lado do Atlântico.

Também havia a eugenia positiva: educação a reprodução dos aptos. Tornaram-se comuns as Feiras da Família Fitter (“feiras de famílias mais aptas”, em português), em que casais com genes realizados bons eram sorteados em pódios e ganhavam medalhas.

Um dos símbolos da eugenia americana foi Charles Davenport, mandachuva do Eugenics Record Office (ERO) – o centro de pesquisa em Cold Spring Harbor, Nova York, que encabeçou os esforços de higienização genética. Ele era contra casamentos inter-raciais (comentaremos a relação da eugenia com o racismo nos próximos parágrafos) e via a entrada de imigrantes do sul da Europa e da Ásia como um risco à boa estirpe americana.

Davenport, de bobo, não tinha nada. Aplicando a lógica de transmissão de características hereditárias descobertas por Mendel em seus experimentos com ervilhas, acordos corretamente que a doença de Huntington era um traço dominante, e o albinismo, recessivo. O problema é que ele extrapolou a lógica: começou a inventar genes para tudo – até uma das famílias de construtores de barcos. Não havia espaço para o óbvio: que um filho tende a seguir o ofício do pai. Tudo era herdado.

No porto de Ellis Island, também em Nova York, imigrantes recém-chegados da Itália, da Grécia e dos países do bloco comunista foram submetidos a testes de QI. “O propósito de aplicar a escala de medição mental em Ellis Island é filtrar os imigrantes que podem (…) se tornar um fardo para o Estado ou produzir prole que vai exigir vagas em prisões ou asilos”, afirmou em 1915 o médico Howard Knox. Xingamentos como “idiota” e “imbecil” eram termos técnicos, aplicados na classificação de pessoas em relatórios oficiais.

Embora hoje eugenia esteja associada ao racismo no imaginário popular, Galton e Davenport não tinham nada a ver com os escravocratas retrógrados do sul dos EUA, associados à Ku Klux Klan. Foi um tipo de racismo diferente que escolheu o bonde da eugenia. Se fosse possível isolar (e eliminar) os indesejáveis ​​dentre os membros de uma raça, por que não seria possível hierarquizar como raças próprias? Pior: por que não fazer isso à maneira Excel, comparando narizes, testas e o volume de cérebros e crânios de negros, brancos e índios?

No livro A Falsa Medida do Homem, publicado em 1980, o biólogo Stephen Jay Gould, de Harvard, cita o caso de Robert Bean – um médico que em 1906 publicou um longo artigo comparando as medidas de várias partes dos cérebros de negros e brancos. Uma das áreas comprovadas foi o corpo caloso – que conecta o hemisfério direito ao esquerdo. O corpo caloso é dividido em dois trechos, o joelho e o esplênio, e Bean percebeu algo, em sua opinião, fantástico: o joelho e o esplênio de negros eram muito menores que os dos brancos [veja o gráfico à esquerda].

Era racista demais para ser verdade. Tanto que Franklin Mall, orientador de Bean na Universidade Johns Hopkins, suspeitou. Ele refez o estudo – dessa vez, medindo 106 cérebros sem saber, de antemão, a etnia dos indivíduos a que pertenceram. Resultado? Seus gráficos saíram neutros. O desejo de comprovar teses pré-concebidas era tão grande que os pesquisadores manipulavam os próprios dados deliberadamente.

No Brasil, eugenia e racismo andaram de mãos dadas – o ranço aparece disfarçado até hoje: “Meu neto é um cara bonito, viu? Branqueamento da raça”, disse o vice-presidente Hamilton Mourão em outubro de 2018.

Quem concordou foi Renato Kehl – ​​o farmacêutico que, lá na década de 1920, liderou os esforços de limpeza genética no Brasil: “A nacionalidade brasileira só embranquecerá à custa de muito sabão de coco ariano”. Kehl se tornou o bode expiatório dos livros didáticos, mas não trabalhou sozinho: muito sujeito que hoje é nome de rua participou.

“Vital Brazil foi membro da Sociedade Eugênica de São Paulo, assim como Arnaldo Vieirade Carvalho – o da Avenida Dr. Arnaldo, em São Paulo, fundador da Faculdade de Medicina da USP”, diz a historiadora Pietra Diwan, autora do livro Raça Pura. Monteiro Lobato e Roquette-Pinto, também.

Ou seja: a eugenia foi uma invenção inglesa, aperfeiçoada nos EUA e divulgada por todo o Ocidente no entreguerras. O Holocausto foi apenas a sua manifestação mais conhecida, mas todas as atrocidades ordenadas por Hitler (e rechaçadas pelos Aliados após a 2ª Guerra Mundial) tiveram precursores entre os próprios Aliados. A descoberta dos campos de concentração desencadeou um surto de peso na consciência que culminou com a publicação, em 1950, de um documento da Unesco intitulado A Questão da Raça . A ciência pedia desculpas, e a palavra eugenia virava tabu.

A mesma genética que justificou a eugenia hoje dá armas para combatê-la. Para começar a conversa, a maioria esmagadora de nossas características é determinada por itens de genes, que interagem entre si e com o ambiente numa dança bioquímica complicada. Se na década de 1920 parecia óbvio que há um gene para famílias construtoras de barcos, hoje a única certeza é que não há muitas certezas.

“Os geneticistas não veem preto e branco, mas tons de cinza”, explica o geneticista Alysson Muotri, da Universidade da Califórnia em San Diego (UCSD). Muotri lida diariamente com esses tons: seu laboratório busca tratamentos para formas graves de autismo – enquanto representa a parte mais leve do espectrom que o autismo é só parte de sua personalidade, e não uma doença.

“Isso acontece em outros casos – como o dos surdos nos EUA”, diz Muotri. "Alguns se recusam a ser rotulados como deficientes, e preferem passar a vida sem auxílio médico. Outros surdos optam por tratamentos para voltar a ouvir. É preciso respeitar a opinião de cada um."

A ideia de raça, por sua vez, simplesmente não tem validade biológica. Um estu Ido da Universidade Stanford analisou 1.056 indivíduos de 52 grupos étnicos distantes entre si geograficamente. A ideia era verificar se uma quantidade razoável de genes poderia ser encontrada na população de um lugar, mas não de outro – o que evidenciaria a existência de raças.

Algo entre 93% e 95% da variação genética foi verificado entre indivíduos do mesmo grupo. As diferenças entre grupos foram irrisórias – entre 3% e 5%. 47% dos genes desenvolvidos apareciam em populações dos cinco continentes. Moral da história: a diversidade humana é um degradante sutil; é impossível dividir-la em caixinhas. A ideia de raça é apenas uma forma de dar ares científicos ao preconceito.

DNA é algo mais revelador que um prontuário médico. Logo, será possível julgar alguém com base nele com a mesma naturalidade com que os imigrantes foram julgados por QI em Ellis Island.

"No futuro, todos teremos nosso genoma sequenciado. É decisivo", diz Muotri. "Por um lado, essa informação vai nos ajudar a prevenir e tratar doenças com mais eficiência [como já se faz com o gene BRCA1, associado ao câncer de mama]. Por outro lado, seu uso pelos planos de saúde deve ser controlado. Cobrar mensalidades de acordo com a susceptibilidade a doenças não só é possível como já acontece, quando se cobra mais caro de um idoso que de um jovem."


Artigo da Revista Super Interessante

https://super.abril.com.br/ciencia/a-longa-historia-da-eugenia/


EUGENIA - A CIÊNCIA A SERVIÇO DO RACISMO

 


Carl Von Linée 1707 - 1778), Suécia, foi um botânico, zoólogo e médico sueco e um dos fundadores da Academia Real das Ciências da Suécia. É ainda o cientista da área das ciências naturais mais famoso da Suécia e a sua figura esteve presente nas notas suecas de 100 coroas entre 1985 e 2016.

Em sua obra "Systema Naturae" publicada em 1735, ele lançou as bases para a taxonomia moderna. O problema disso é que ele aplica a mesma classificação de seu livro para os seres humanos, classificando-os por raça, cor, etnia, etc. Isso agravou mais o racismo estrutural mundial, deixando a raça branca como superior e as outras raças inferiores. Estas divisões eram:

• Homo Europaeus Albescens - Homem Europeu • Branqueado ou Branco

Homo Americanus Rubescens - Homem Americano Avermelhado

• Homo Asiaticus Fuscus - Homem Asiático Fosco, Amarronzado

• Homo Africanus Niger - Homem Africano Negro

Todos estes povos foram classificados não somente por sua cor e origem, mas sobretudo, por suas aptidões morais, seguindo a ótica eugenista europeia. 

A raça branca, por exemplo, Carl Von Linée classificou como sendo um povo: amoroso, sanguíneo, robusto, cabelos bonitos e variados, indo do loiro ao ruivo, olhos azuis, verdes e castanhos abundantes, grupo alfa, perspicaz, inventivo, inteligente e criativo.

Já a raça dos Africanos era negra, escura, fleumática (emocionalmente frio), laxa (sem vigor), cabelos negros e enrolados (pixaim, duro, crespo), nariz chato, lábios volumosos (beição). As mulheres, ele dizia que eram sem pudores? (vai saber o que ele quis dizer) mamas (seios) abundantes (exagerados), dizia também que elas eram atrasadas em relação às outras sub-raças.


Johan Friedrich Blumenbach 1752 - 1840 foi um antropólogo e zoólogo alemão, que também classificou o ser humano em raças.

Ele é considerado o pai da antropologia, classificou a humanidade em cinco variedades humanas baseadas em crânios: Caucasiana (branca), Mongólica (amarela), Etíope (negra), Americana (vermelha) e Malaia (parda/parda), considerando a caucasiana o tipo "original" e as outras "degenerações" ambientais, embora também notasse a transição gradual e a unidade da espécie humana, uma ideia que influenciou o conceito moderno de raça, como vemos nos dias atuais.


As 5 Variedades de Blumenbach

Caucasiana (Branca): Europeus, Oriente Médio e Sul da Ásia, considerada por ele o tipo mais belo e original.

Mongólica (Amarela): Asiáticos orientais.

Etíope (Negra): Africanos subsaarianos.

Americana (Vermelha): Nativos americanos.

Malaia (Parda): Povos do Sudeste Asiático e Ilhas do Pacífico. 


Para Johan Friedrich Blumenbach a raça caucasiana era a única raça que se aproximava do ideal de beleza, desde os tempos antigos (tempos bíblicos), pois se aproximaria de Adão e Eva. Para ele, a forma de um crânio supostamente originário da região do Cáucaso, é o modelo de perfeição, pois se aproxima do ideal da beleza branca.

Foi ele quem cunhou a expressão "Caucasiano". 

O livro de Johann Friedrich Blumenbach sobre as variedades humanas intitula-se, em português, "Sobre as Variedades Naturais do Gênero Humano". 

O título original em latim é De Generis Humani Varietate Nativa, publicado pela primeira vez em 1775 como sua dissertação inaugural, e subsequentemente em edições expandidas, notavelmente em 1795. 

Nesta obra, Blumenbach utilizou a pesquisa craniana para dividir a humanidade em cinco "raças" (variedades): caucasiana (branca), mongol (amarela), malaia (parda), etíope (negra) e americana (vermelha). Ele foi o primeiro a usar o termo "caucasiano" para se referir aos europeus. Embora seu trabalho tenha sido influente na fundação da antropologia física, suas classificações de raças são hoje consideradas pseudociência e construções sociais sem base biológica válida.


Samuel George Morton 1799-1851 médico americano, eugenista de visão política de direita, escreve o livro Crania Americana, lançado no ano de 1839.

Morton, um médico da Filadélfia e um dos maiores craniologistas de sua época, baseou seu trabalho na medição do volume de aproximadamente mil crânios humanos. Ele usou esses dados para argumentar que as diferentes "raças" (ou espécies, na sua visão poligênica) poderiam ser classificadas em uma escala de inteligência, com base no tamanho do cérebro supostamente indicado pelo volume craniano.

O livro Crania Americana de Samuel George Morton, publicado em 1839, é uma obra histórica notória por ser um dos pilares do racismo científico e da craniometria, que buscava justificar a superioridade racial branca mediante supostas evidências biológicas.

O livro apresenta uma "visão comparativa dos crânios de várias nações aborígenes da América do Norte e do Sul", ilustrada por 78 placas de litografia, e é precedido por um ensaio sobre as variedades da espécie humana.

Morton concluiu que a estrutura mental dos nativos americanos era diferente da do homem branco e que eles não poderiam se integrar na sociedade industrial moderna. Crânios africanos, por sua vez, recebiam pouca atenção e eram retratados como pequenos, uma afirmação que servia aos interesses dos proprietários de escravos da época.

Embora a tiragem original tenha sido de apenas 500 cópias, o livro teve grande influência nos Estados Unidos e na Europa, fornecendo uma suposta "base científica" para o racismo e a desigualdade racial.

A metodologia e as conclusões de Morton foram posteriormente refutadas pela ciência moderna, que demonstrou que seus estudos foram falhos e tendenciosos, com dados seletivos para apoiar preconceitos existentes. A coleção craniana de Morton, hoje no Penn Museum, é um lembrete tangível desse período e da relação da antropologia com a supremacia branca e o colonialismo. Pamela Geller, em seu livro Becoming Object, usa uma abordagem bio-histórica para examinar o trabalho de Morton e seu legado sociopolítico, destacando como ele ajudou a racionalizar a morte e a coleta de indivíduos marginalizados.


Arthur de Gobineau ou Conde de Gobineau 1816-1882 é um dos pais do Racismo Científico e fortemente apoiador da supremacia da raça branca.

Em sua obra mais influente, Ensayo sobre a Desigualdade das Raças Humanas (1853-1855), ele dividiu a humanidade em três raças (branca, amarela e negra), alegando que a raça branca (especialmente a "ariana") seria biologicamente superior às outras.

Gobineau popularizou o termo "ariano" para descrever um grupo racial superior cujos traços seriam preservados apenas pela aristocracia e por povos germânicos. Ele defendia que a mistura entre raças (miscigenação) levava inevitavelmente à degeneração das civilizações e à perda da vitalidade dos genes superiores.  Acreditava que o destino das nações não dependia de fatores políticos ou religiosos, mas sim da composição racial de sua população.

Gobineau serviu como diplomata no Brasil entre 1869 e 1870, tornando-se amigo próximo de Dom Pedro II. Suas impressões sobre o país foram extremamente negativas; ele previu a extinção do povo brasileiro devido à intensa miscigenação, que via como um processo de degradação genética irreversível.

Foi por meio de Gobineau que o Brasil republicano começou a investir no branqueamento do povo brasileiro. A elite brasileira da época começou a colocar o racismo eugenista em política pública para valer, e vemos os efeitos disso até hoje.

A imigração europeia para eliminar o elemento negro do Brasil começou desde então, e todo o branco estrangeiro e até os asiáticos, quando vinham ao Brasil, tinham incentivos fiscais, facilitações para obter terras e propriedades, como também todo um conjunto de benesses governamentais e sociais, em detrimento da raça preta, jogada na lata do lixo, deixada à própria sorte e largada a esmo.

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

A CRIAÇÃO DA RAÇA BRANCA

 


A criação das raças humanas começa com os europeus do século XV, na era do Renascimento e das Grandes Navegações, justamente quando começa a escravidão sistemática: social, religiosa e estrutura do povo africano negro. Nesse momento, os europeus começaram a se identificar como raça branca, da maneira como conhecemos hoje. 

Antes disso, todos os europeus sem exceção, não se identificavam como povo branco ou como raça branca, este conceito não existia na sociedade europeia ocidental. 

Eles se definiam como Cristãos (Anglicanos, Protestantes ou Católicos), súditos de reis ou reinos, godos, anglos, saxões, francos, lombardos, burgúndios, nobres, plebeus, etc., mas não se identificavam como povo branco ou povo de pele branca ou povo de raça branca, este conceito era totalmente inexistente.

Pelo lado sociológico, os europeus, em tese, não nasceram brancos, eles se tornaram brancos para justificar a escravidão de africanos e a colonização de povos não europeus, como os índios, aborígenes, chineses, japoneses, etc.

Quem diz isso é a pesquisadora Neil Evantin em seu livro "A História das Pessoas Brancas". E no mesmo livro, a escritora Neil Ebantin diz que "Raça é uma ideia e não um fato." e ela está totalmente correta nesta afirmação.

Bom, se nasceu o conceito de raça branca, obviamente que iria nascer o conceito de raça negra. 

O nascimento da categoria do negro como raça se tornou sinônimo de escravo, escravizado, subraça ou raça inferior. 

Mas isso nem sempre foi assim. A palavra negro nasceu por conta do rio Niger, um rio muito importante no continente africano. Sendo o principal curso de água da África Ocidental e o terceiro mais longo do continente africano, superado apenas pelo Nilo e pelo Congo. Com aproximadamente 4.180 km de extensão, ele é vital para a economia e subsistência de milhões de pessoas na região.

Ele nasce nas montanhas de Futa Jallon, na Guiné, a apenas 240 km do Oceano Atlântico e deságua no Golfo da Guiné através de um vasto delta na Nigéria.

O nome do rio Niger é uma expressão Tuaregue que quer dizer Rio dos Rios, já a palavra negro vem do latim niger, que significa "preto" ou "escuro", e os exploradores europeus associaram essa palavra ao rio africano (Níger) e aos povos de pele escura que lá viviam.

A nomenclatura Negro ou Niger foi usada pela primeira vez pelos romanos para se referir aos povos que viviam às margens do rio Níger. E eles chamaram estes povos de Nigris, ou seja, da cor da noite, de acordo com a raiz indoeuropeia desta palavra, a palavra negro era apenas uma palavra para descrever a característica de uma cor como a cor da noite. 

Quando se dizia ou se usava a palavra Negro, Niger ou Nigris, não se pensava em racismo, raça, racismo, desigualdade pela cor da pele, segregação racial, preconceito racial, discriminação de cor de pele, intolerância racial e qualquer coisa que o valha. Isto começou a surgir de fato no ano de 1444, com o escritor Eanes de Zurara, um português que escreveu uma crônica em seu livro "Descobrimento da Guiné". É a partir de Zurara que, pela primeira vez neste período, há uma fusão fatal de cor, condição e destino, ou seja, ele diz em suas crônicas que os africanos capturados eram negros e a terra dos negros era fonte legítima de escravizados.  

Do adjetivo pele escura, ele cria o substantivo, o negro. E do substantivo, ele cria a categoria social, o escravo negro. Sem isso, não haveria privilégio branco, mas como eu escrevi acima, a categoria branco foi inventada.

Porque não existe branco antes do encontro colonial. A categoria só faz sentido quando há um outro ser racializado. Precisou haver o preto para ver o branco e o branco para ver o preto. O branco só existe ao lado do preto. 

Não existe a raça branca antes da colonização, isso é invenção europeia, o primeiro registro do termo pessoas brancas como raça aparece no ano de 1613, na peça "Os Triunfos da Verdade" do dramaturgo Thomas Middleton, bem no auge da escravidão africana e do renascimento europeu. 

Juntando os principais expoentes da cultura humana, para fazer valer toda a construção da existência da raça branca, foi feita a integração da Religião, Arte e Ciência. 

No caso da Religião, temos o Catolicismo Romano 

Religiões Protestantes: Igreja Anglicana, Anabatista ou Batista, Igreja Adventista do Sétimo Dia, Igreja Presbiteriana, Testemunhas de Jeová, Igreja Puritana, Igreja Luterana, Igreja Calvinista, etc. Sem contar com a Teologia e Mitologia que surgiram no processo.

Nas Artes: Pintura, Escultura, Teatro, Música, Desenho, Livros e todo entretenimento de massa.

Na Ciência: Filosofia, Geografia, Sociologia, Psicologia, Psicanálise, Medicina, Antropologia.

A esse processo sistemático de nascimento das raças branca e preta como povos e nações, foi criado um termo técnico, chamado de Eugenia.

Isso cria dois mundos, dois sistemas estruturais basilares, impossíveis de se quebrar, que é o Privilégio do Branco (seja este rico ou pobre) e o Desprivilégio do Negro. O Privilégio Branco é um conjunto sistemático de vários benefícios estruturais que congratula socialmente todos os indivíduos identificados como brancos. 

E quem diz isso não sou eu, e sim a pesquisadora e escritora americana Peggy McIntosh 1934 que descreve em seu livro, lançado em 1988, "White privilege and male privilege: A personal account of coming to see correspondences through work in women's studies. Working paper No. 189. Wellesley, Massachusetts: Wellesley Center for Research on Women." (Privilégio branco e privilégio masculino: um relato pessoal de como chegou a perceber as correspondências por meio do trabalho em estudos feministas. Documento de trabalho nº 189. Wellesley, Massachusetts: Centro de Pesquisa sobre Mulheres de Wellesley).

Nesta citação em seu livro, ela diz:"O privilégio branco é um pacote invisível de ativos não merecidos com os quais posso contar todos os dias"

Ser um pobre branco, não é o mesmo que ser um pobre negro. 


segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

DESERTO DE NEFUD

 


Uma fascinante descoberta arqueológica na Arábia Saudita trouxe à luz arte rupestre de cerca de 12.000 anos, com esculturas detalhadas de camelos e gazelas, feitas por antigos habitantes do deserto de Nefud. A equipe liderada por Maria Guagnin, do Instituto Max Planck de Geoantropologia, na Alemanha, destacou não apenas a habilidade técnica dos escultores, mas também o impacto profundo desse achado na compreensão da história humana na Península Arábica.

A identificação dessas figuras esculpidas evidencia que populações estabelecidas já ocupavam o deserto de Nefud há milênios, desafiando ideias anteriores sobre a inabitabilidade da região. O grau de sofisticação artística e as técnicas empregadas sugerem uma capacidade avançada de adaptação social e tecnológica.

Esse contexto arqueológico contribui para repensar as rotas migratórias e a evolução cultural no Oriente Médio. Evidências ambientais apontam que a região podia ser mais úmida no passado, favorecendo a presença de vida e cultura humana permanente.

Desvendar os segredos históricos do deserto de Nefud tem exigido trabalho intenso sob condições extremamente áridas e difíceis. A topografia desafiadora e o isolamento tornam tanto a logística das escavações quanto a realização de pesquisas detalhadas complexas para as equipes científicas.

Para superar esses desafios, os pesquisadores vêm adotando métodos inovadores. Destacam-se, por exemplo:

Uso de drones para mapeamento aéreo e localização de sítios arqueológicos;

Aplicação de fotogrametria para registrar e preservar digitalmente as esculturas;

Emprego de técnicas modernas de datação por luminescência, que confirmam a antiguidade das obras.

As gravuras descobertas vão além dos camelos e gazelas, incluindo representações de espécies extintas como o auroque, um tipo de bovino que não existe mais. Ao analisar essas figuras, os pesquisadores obtêm insights valiosos sobre a fauna local e suas relações com os antigos habitantes.

Essas esculturas revelam que os artistas do passado tinham amplo conhecimento sobre a vida animal do deserto, refletindo o papel fundamental dos animais na sobrevivência e cultura dessas sociedades arcaicas.

A arte rupestre da Arábia Saudita oferece uma janela única para investigar as sociedades pré-históricas e suas estratégias culturais e de sobrevivência. Sua análise permite explorar práticas religiosas, sociais e econômicas desenvolvidas por nossos ancestrais.


O destaque internacional dessas descobertas impulsiona iniciativas de preservação patrimonial e fomenta novas pesquisas, ressaltando a relevância contínua da arqueologia para a compreensão da trajetória humana no Oriente Médio e além.


A VERDADEIRA REALIDADE DO VELHO OESTE

 



Quando pensamos no passado americano, nossa imaginação recria quase instantaneamente os cenários clássicos de Hollywood, com ruas largas, caubóis destemidos e duelos ao meio-dia. No entanto, a realidade histórica das cidades do Velho Oeste era muito mais crua e bem menos romântica do que os filmes sugerem. Esses locais eram, na verdade, ambientes caóticos, fedorentos e perigosos, onde a vida valia muito pouco e a lei nem sempre estava presente para proteger os cidadãos.

A construção desse mito cinematográfico esconde uma rotina de sobrevivência extrema. As cidades do Velho Oeste não eram palcos de heroísmo constante, mas sim assentamentos improvisados onde doenças podiam matar muito mais rápido do que qualquer arma de fogo. Eram lugares repletos de pessoas que sonhavam com fortuna e liberdade, dispostas a enfrentar condições sanitárias precárias e uma violência brutal que passava longe da honra dos duelos organizados que vemos nas telas.

Diferente das metrópoles planejadas, as cidades naquela fronteira não nasciam de estudos urbanísticos, mas sim de explosões de oportunidade geradas pela descoberta de recursos como ouro, prata ou petróleo. Esses locais eram chamados de “boomtowns”. Um exemplo clássico dessa dinâmica foi Virginia City, em Nevada. Após a descoberta de minérios na região em 1859, o local passou de algumas cabanas improvisadas para uma metrópole com 25.000 habitantes em menos de uma década.

Contudo, a mesma velocidade que trazia o progresso também decretava o fim desses lugares. Assim que as minas se esgotavam, a população partia, deixando para trás estruturas vazias. Estima-se que hoje existam mais de 3.800 cidades fantasmas espalhadas pela região. No auge, esses locais não tinham ruas planejadas, escolas ou tribunais; eram amontoados de tendas e barracões onde a ordem só chegava se a cidade conseguisse sobreviver tempo suficiente.


A sujeira e o verdadeiro cheiro do Oeste

Hollywood costuma retratar a rua principal como um local limpo e pronto para a ação, mas na vida real ela era praticamente intransitável. Durante o verão, a poeira formava nuvens sufocantes, enquanto no inverno a lama chegava a engolir as botas até o joelho. O tráfego constante de cavalos e carroças deixava um rastro de sujeira difícil de controlar. Em grandes centros da época, como Dodge City, acumulavam-se centenas de toneladas de esterco de cavalo por ano.

Essa falta de saneamento básico transformava as cidades do Velho Oeste em focos de atração para ratos e moscas. Embora moradores reclamassem em jornais locais, como o Dodge City Times, a sujeira era parte integrante do cotidiano. O cheiro predominante nessas ruas não era de uísque ou tabaco, mas sim uma mistura forte de poeira, suor, lama e detritos animais.


A lei do mais forte e o mito do xerife

A figura do xerife incorruptível é outra invenção que não correspondia à realidade da maioria desses assentamentos. No início, muitas cidades sequer possuíam polícia e a justiça ficava a cargo de vigilantes, grupos de cidadãos armados que puniam crimes com enforcamentos públicos e julgamentos sumários. Mesmo quando havia um representante da lei, muitos eram tão corruptos quanto os criminosos, estando muitas vezes a serviço dos donos de estabelecimentos locais.


Além disso, os famosos duelos ao meio-dia eram raríssimos. A violência real era traiçoeira, ocorrendo geralmente através de emboscadas, tiros pelas costas ou brigas de bar. Um estudo do historiador Robert Dykstra apontou que, embora a taxa de homicídios em locais como Abilene fosse alta, a violência era apenas mais visível e espetacular do que em grandes cidades do leste, como Nova York.


Saloons, doenças e o perigo constante

O coração social de qualquer uma das cidades do Velho Oeste era o Saloon. Muito mais do que um bar, esse estabelecimento funcionava como hotel, restaurante, casa de jogos e até ponto de correio. O escritor Oscar Wilde, ao visitar a região em 1882, descreveu esses locais como palcos da ganância humana. A rotina fora dali envolvia trabalho exaustivo em minas ou ferrovias, enquanto as mulheres, com poucas opções profissionais, muitas vezes acabavam trabalhando nesses ambientes hostis.

O perigo, porém, não vinha apenas das armas. A falta de água potável e o lixo nas ruas facilitavam epidemias de cólera, varíola e tuberculose. Em Deadwood, os cemitérios cresciam mais rápido do que a própria cidade. O risco de incêndio também era iminente, já que as construções de madeira podiam ser consumidas em poucas horas por uma vela mal apagada. Ainda assim, a esperança de enriquecer ou recomeçar a vida mantinha o fluxo de pessoas que buscavam, acima de tudo, a liberdade de um lugar sem sistemas rígidos de controle.

E pensar que em pleno século XXI, temos cidades e bairros aqui no Brasil que são até piores que o Velho Oeste americano.