A Igreja Católica teve uma relação complexa e contraditória com a escravidão, marcada pela conivência institucional e posse de escravizados, especialmente no Brasil colônia. Embora bulas papais pontuais tenham condenado o tráfico de indígenas e africanos, a hierarquia e ordens religiosas frequentemente utilizaram mão de obra escrava.
No Brasil colonial, a Igreja e o Estado atuaram juntos. A catequização buscava "dominar o corpo para libertar a alma", ensinando aos negros escravizados paciência e resignação, enquanto a instituição sacralizava a estrutura do engenho. Embora tenha havido vozes isoladas contra a escravidão, como o Padre Bartolomeu de las Casas, a estrutura institucional utilizou a religião para justificar o trabalho escravo forçado.
Por um longo período, que durou mais de 300 anos, mosteiros e conventos possuíam escravizados, conhecidos como "escravos da religião", e a Igreja sustentou-se com essa mão de obra.
Bulas papais como Dum Diversas (1452) e Romanus Pontifex (1454) autorizaram reis portugueses a submeter pagãos (negros) à escravidão, criando um arcabouço jurídico para o tráfico.
A expressão Dum Diversas provém do latim e é o incipit (as primeiras palavras) da bula papal emitida pelo Papa Nicolau V em 18 de junho de 1452, traduzida como "enquanto diferentes" ou "enquanto diversas [considerações/ações]".
Dum: Significa "enquanto", "enquanto que" ou "quando".
Diversas: Vem de diversus, indicando "diferentes", "diversos", ou no contexto, "diversas ações" ou "diferentes considerações".
A expressão Romanus Pontifex vem do latim e significa literalmente "Pontífice Romano". O termo é usado para se referir ao Papa como o Bispo de Roma.
Por meio da Ordem de Cristo, da qual o Papa era o soberano, a Igreja financiou expedições de captura de africanos.
A escravidão era frequentemente apresentada como um "mal necessário" para a evangelização ou como uma forma de castigo pelos pecados (como a maldição de Cam).
Havia padres que atuavam diretamente no comércio de pessoas ou que puniam escravizados que tentavam fugir, chegando a negar a eucaristia a quem facilitava fugas.
A Igreja lutou mais cedo e com mais vigor contra a escravização de povos indígenas (nativos), defendendo que eram "livres por natureza", o que paradoxalmente incentivou o aumento do tráfico de africanos.
Iniciativas contra a escravidão foram tardias, focando mais na evangelização e "humanização" do trato do que na abolição.

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