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terça-feira, 7 de abril de 2026

EVANGELHOS EXCLUÍDOS DA BÍBLIA

 


Em 1945, um grupo que escavava o deserto egípcio em busca de fertilizante fez uma descoberta que mudou completamente nosso entendimento sobre o início do Cristianismo.

Tratava-se de vários textos primitivos cristãos, incluindo os evangelhos de Tomé, Filipe e Marcião, alguns dos muitos livros alternativos sobre Jesus que não foram incluídos na Bíblia.

Por retratarem um Jesus Cristo radicalmente diferente daquele presente nos evangelhos do Novo Testamento — Mateus, Marcos, Lucas e João — estes relatos acabaram sendo excluídos pela Igreja de seu texto sagrado quando se chegou a uma versão oficial do cristianismo.


Evangelho de Felipe

Escrito originalmente em grego entre os anos 180 e 250 d.C., embora a versão encontrada em Nag Hammadi esteja traduzida para a língua copta, o evangelho de Filipe,  foi redescoberto em 1945 na Biblioteca de Nag Hammadi, no Egito. Embora leve o nome do apóstolo Filipe, o texto é considerado anônimo. Ele recebeu esse título porque Filipe é o único apóstolo nominalmente mencionado em uma de suas passagens.

O texto mostra, um estreito vínculo entre Jesus e Maria Madalena, é um texto cristão gnóstico que é totalmente diferente dos evangelhos canônicos da Bíblia, ele foca em ensinamentos esotéricos e na autoridade espiritual feminina.

O texto apresenta diálogos entre os discípulos e o Salvador ressuscitado sobre a natureza da matéria e a ascensão da alma.

Maria Madalena é retratada como a discípula que recebeu revelações especiais de Jesus, o que gera tensões e disputas de autoridade com outros apóstolos, especialmente Pedro.

 O texto chegou até nós de forma fragmentada através de manuscritos em grego e copta, sendo o mais famoso o Códice Akhmim.

 

Evangelho de Tomé

O Evangelho de Tomé é um dos textos apócrifos mais importantes do cristianismo primitivo, redescoberto em 1945 na coleção de manuscritos de Nag Hammadi, no Egito. Embora atribuído ao apóstolo Tomé, a maioria dos historiadores data a obra entre os anos 140 e 180 d.C., sendo escrita originalmente em grego e preservada em copta. 

Diferente dos evangelhos canônicos da Bíblia, ele não narra a vida de Jesus, mas consiste em uma lista de 114 ditos (logia) atribuídos a ele.

O texto não apresenta milagres, morte ou ressurreição; foca inteiramente nas palavras e ensinamentos "secretos" que Jesus teria confiado a Tomé, o Dídimo.

Muitos estudiosos associam o conteúdo ao gnosticismo, sugerindo que a salvação vem através do autoconhecimento e da descoberta da centelha divina interior, em vez da fé institucionalizada.

Enquanto os evangelhos tradicionais tratam o Reino de Deus como algo futuro ou externo, o de Tomé enfatiza que o "Reino está dentro de vós e ao vosso redor".

O texto foi excluído do cânone bíblico por ser considerado herético pela Igreja primitiva. Os motivos principais incluem: 

Divergência Teológica: Seus ensinamentos contradizem a mensagem central de redenção através do sacrifício de Cristo.

Data de Escrita: Foi escrito muito tempo após a morte dos apóstolos, o que tirou sua credibilidade como relato direto.

Falta de Narrativa: A ausência da Paixão e Ressurreição desqualificava o texto para as necessidades litúrgicas da época.


Evangelho da Infância de Tomé ou Pseudo-Tomé

Foi escrito originalmente no século II d.C., provavelmente em meados desse século, por volta do ano 150 d.C. a 185 d.C..

É um texto cristão apócrifo que narra a vida de Jesus dos 5 aos 12 anos de idade [18, 4], ele preenche a lacuna deixada pelos evangelhos canônicos sobre o crescimento do "Menino Jesus" 

O texto apresenta um Jesus jovem com poderes sobrenaturais que ele nem sempre controla de forma benevolente, alternando entre milagres de compaixão e atos de punição [4.6, 4.5]: 

Os Pardais de Barro: Jesus molda doze pardais de barro em um sábado. Quando repreendido por trabalhar no dia de descanso, ele bate as mãos e ordena que os pássaros voem, e eles ganham vida [4.1].

Ressurreições: Relata Jesus ressuscitando crianças que morreram em acidentes, como um menino que caiu de um telhado (Zenon) [4.6].

Maldições: Em passagens controversas, Jesus amaldiçoa outras crianças ou adultos que o irritam, fazendo-os definhar ou cair mortos, embora muitas dessas ações sejam revertidas posteriormente [4.6].

Educação e Sabedoria: Descreve Jesus na escola, onde ele confunde seus professores com uma sabedoria que supera o entendimento humano, explicando o significado profundo das letras do alfabeto [4.6, 4.12]

Atribuído a "Tomé, o israelita filósofo", mas não é o apóstolo Tomé que escreveu o famoso Evangelho de Tomé (o "Evangelho dos Ditos") [4.2].

Originalmente escrito em grego, o texto foi amplamente traduzido e expandido ao longo dos séculos, dando origem a versões em latim, siríaco, georgiano e até influenciando o Evangelho Árabe da Infância [4.2, 4.8].

Em 2024, pesquisadores identificaram em Hamburgo o manuscrito mais antigo conhecido deste evangelho, um fragmento de papiro grego datado do século IV ou V [4.11, 4.15].

Este livro foi rejeitado pela Igreja primitiva e excluído do cânone bíblico (tornando-se apócrifo) por vários motivos: 

Datação tardia: Escrito muito depois da morte dos apóstolos [4.21].

Doutrina e Estilo: O comportamento vingativo do menino Jesus em certas passagens contradiz a imagem de Jesus apresentada nos Evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João [4.3, 4.21].

Fins Pedagógicos: Muitos estudiosos acreditam que as histórias funcionavam como "contos populares" ou parábolas para satisfazer a curiosidade dos fiéis sobre os anos ocultos de Jesus [4.5, 4.10]. 


Evangelho de Pedro

Não confunda este evangelho apócrifo com as Epístolas de Pedro (1 e 2 Pedro) da Bíblia, que foram escritas bem antes, por volta dos anos 60 d.C. a 100 d.C.

O Evangelho de Pedro foi escrito, muito provavelmente, entre os anos 100 d.C. e 150 d.C. O texto parece utilizar elementos dos quatro evangelhos da Bíblia (Mateus, Marcos, Lucas e João), o que indica que foi composto após a circulação desses escritos. 

O texto já era conhecido e circulava por volta do ano 190 d.C., quando o bispo Serapião de Antioquia mencionou e proibiu seu uso em igrejas devido ao conteúdo considerado herético. O manuscrito físico mais famoso deste evangelho, encontrado no Egito em 1886, é uma cópia muito mais tardia, datada entre os séculos VIII e IX. A narrativa apresenta um tom mais lendário e antijudaico, características comuns em apócrifos produzidos no século I.


Evangelho da Verdade

Escrito provavelmente entre 140 d.C. e 180 d.C. O Evangelho da Verdade é um dos textos mais importantes da biblioteca de Nag Hammadi, descoberta no Egito em 1945. Diferente de outros apócrifos que narram milagres, este é um sermão teológico e poético sobre a natureza do conhecimento divino.

Muitos estudiosos atribuem a autoria a Valentim, um famoso mestre cristão de Roma que fundou a escola do Valentinianismo. Santo Ireneu de Lyon menciona o título desta obra ao criticar os valentinianos por volta de 180 d.C.

O texto usa metáforas belíssimas sobre luz, perfume e o "Livro dos Viventes". Ele descreve a alegria de retornar ao Pai e a paz de encontrar a verdadeira identidade. Uma seção famosa discute o "Nome do Pai", explorando a relação mística entre Deus e seu Filho

Foi rejeitado pela Igreja primitiva porque sua teologia sugeria que o mundo físico era uma ilusão ou um erro, em vez de uma criação boa de Deus. Além disso, o foco exclusivo na salvação pelo conhecimento (Gnose) afastava-se da doutrina da salvação pelo sacrifício vicário e pela fé, comum nos evangelhos canônicos.

O texto não foca na vida de Jesus, mas em como a humanidade se perdeu de Deus: 

O Erro (Plane): O mundo material e o sofrimento são vistos como frutos do "Erro", que se personifica como uma névoa que cega os seres humanos.

A Ignorância: O pecado não é visto como uma desobediência moral, mas como esquecimento ou falta de conhecimento (Gnosis) de onde viemos.

Jesus como Revelador: Jesus é enviado pelo Pai para trazer a "Palavra" que dissipa a ignorância, funcionando como um despertador para as almas que "estão dormindo" e tendo pesadelos no mundo material.


Evangelho de Judas

Não confunda o Evangelho de Judas (texto apócrifo focado em Judas Iscariotes) com a Epístola de Judas (carta presente no Novo Testamento da Bíblia, atribuída a Judas Tadeu, que adverte contra falsos mestres).Acredita-se que o texto original foi escrito em grego por volta do ano 150 d.C. O manuscrito encontrado é uma cópia em copta (antiga língua egípcia) datada do século III ou IV. Já no ano 180 d.C., o bispo Irineu de Lyon mencionou e condenou este texto em sua obra Contra as Heresias, classificando-o como uma história fictícia inventada por grupos gnósticos.

O Evangelho de Judas é um texto apócrifo de origem gnóstica que apresenta uma perspectiva radicalmente diferente sobre Judas Iscariotes, retratando-o não como o traidor de Jesus, mas como seu discípulo mais fiel e o único que compreendeu sua verdadeira missão divina.

O texto afirma que Jesus pediu pessoalmente a Judas que o entregasse às autoridades. O objetivo seria sacrificar o "corpo físico" de Jesus para que sua essência divina pudesse ser libertada e retornasse ao reino espiritual.

Diferente dos evangelhos canônicos, este manuscrito reflete crenças gnósticas do século II, onde o mundo material é visto como uma criação de um deus inferior e imperfeito, enquanto a salvação vem através do conhecimento secreto (gnosis).

 No relato, Jesus zomba da ignorância dos outros discípulos e revela apenas a Judas os "mistérios do reino", chamando-o de "décimo terceiro espírito" que governaria sobre as outras gerações.

O documento foi encontrado no Egito na década de 1970, mas sua existência só se tornou amplamente conhecida em 2006, após ser autenticado e publicado pela National Geographic.




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