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sexta-feira, 30 de outubro de 2026

SEMELHANÇAS ENTRE O FASCISMO NAZISMO E O BOLSONARISMO



Historicamente, a ciência política e a historiografia classificam o fascismo e o nazismo como manifestações radicais de extrema-direita. Embora a extrema-direita contemporânea opere dentro de um contexto global e tecnológico diferente, existem de fato, continuidades ideológicas e retóricas significativas entre os movimentos atuais e os regimes do início do século XX.


Ultranacionalismo e Identidade Excludente

♦Fascismo Nazismo: O fascismo italiano e o nazismo alemão baseavam-se no ultranacionalismo exacerbado e no mito de uma "idade de ouro" ou pureza nacional que precisava ser resgatada. No nazismo, isso ganhou contornos de racismo científico e antissemitismo.

♦A Direita Atual: A extrema-direita atual adota o "soberanismo" e discursos de "a nação primeiro", o tal do Deus, Pátria e Família por exemplo. O sentimento de exclusão se manifesta fortemente na xenofobia, no preconceito contra imigrantes, refugiados e minorias éticas ou religiosas.

♦Bolsonarismo: Deseja resgatar os valores patrióticos de um Brasil mítico e hipotético que nunca existiu, exaltando a Ditadura Militar.

 

Discurso Anticorrupção e Antissistema

♦Fascismo Nazismo: Ambos os regimes ascenderam explorando crises econômicas e institucionais, apresentando a democracia liberal e o parlamentarismo como sistemas fracos, corrompidos e incapazes de proteger o povo.

♦A Direita Atual: Movimentos de extrema-direita focam em ataques sistemáticos às instituições democráticas, ao Poder Judiciário, à imprensa tradicional e à lisura dos sistemas eleitorais, promovendo uma retórica de "povo contra a elite corrompida".

♦Bolsonarismo: É contra o STF e tivemos o ataque em Brasília no dia 08 de Janeiro de 2023 e a crítica ácida contra às Urnas Eletrônicas e desconfiança do processo Eleitoral.


Culto ao Líder e a Lógica "Amigo vs. Inimigo"

♦Fascismo Nazismo: Centralização na figura do homem forte, infalível e salvador da pátria (o Duce ou o Führer). A sociedade era dividida rigidamente entre os "patriotas" e os "traidores da pátria".

♦A Direita Atual: Forte personalismo e lideranças populistas carismáticas. Há uma constante criação de inimigos imaginários ou internos para manter a base social mobilizada (polarização afetiva extrema).

♦Bolsonarismo: Temos a visão do Mito, Jair Bolsonaro que é tido como um líder quase mítico. Os próprios bolsonaristas, chamam Jair Bolsonaro de Mito. 

Nas últimas eleições presidenciais de 2026, o filho mais velho de Jair Bolsonaro, o Senador da República, Flávio Bolsonaro, quando disputava às eleições presidenciais, foi muitas vezes, chamado de Mito, pelos bolsonaristas, onde ele teve 56.104.503 votos no primeiro turno e obteve 59.826.041 votos no segundo turno, é bastante expressivo.


Anticomunismo de Matriz Conspiratória

♦Fascismo Nazismo: O medo do avanço do socialismo soviético foi um motor central para que as elites econômicas e classes médias apoiassem o fascismo e o nazismo. O nazismo criou a teoria conspiratória do "judaico-bolchevismo".

♦A Direita Atual: O anticomunismo continua sendo um forte pilar de coesão, muitas vezes atualizado em teorias conspiratórias modernas, como o "marxismo cultural" ou conspirações globais contra os valores tradicionais e a família.

♦Bolsonarismo: Temos o forte medo, ojeriza, repulsa e aversão a tudo que seja ligado ao Comunismo. A menor versão sobre algum conceito vindo do comunismo ou socialismo, já é alvo de críticas ácidas por parte dos integrantes desse movimento.


Conservadorismo Moral e Apelo à Tradição

♦Fascismo Nazismo: Defesa de hierarquias sociais rígidas, papéis tradicionais de gênero e controle moral da sociedade. 

♦A Direita Atual: Alinhamento com pautas religiosas conservadoras, pautas de igualdade de gênero e movimentos feministas, enxergando essas transformações culturais como ameaças civilizatórias.

♦Bolsonarismo: A visão ultra religiosa conservadora dogmática, leva seus adeptos ao fanatismo religioso a tal ponto, de figuras míticas como Jesus, se misturam à imagem do líder político e religioso, onde o que um desses falar, é lei vinda do próprio deus.


O Militarismo Exacerbado

♦Fascismo Nazismo: O militarismo foi um dos pilares centrais e estruturantes dos regimes nazista (na Alemanha, de 1933 a 1945) e fascista (na Itália, de 1922 a 1945). Ambos os movimentos transformaram a sociedade em uma espécie de "quartel a céu aberto", onde a guerra, a disciplina e a força eram vistas como virtudes supremas.

♦Bolsonarismo: O militarismo é um dos pilares ideológicos e de sustentação do bolsonarismo, caracterizando-se pela forte presença de membros das Forças Armadas e auxiliares na política, pela exaltação de símbolos castrenses e pela defesa de valores hierárquicos e autoritários.


Xenofobia

♦Fascismo: Populações na Africanas da Líbia e na Etiópia foram submetidas a massacres massivos, uso de armas químicas e campos de concentração, baseados na ideia de que os africanos eram "inferiores" e precisavam ser dominados.

♦Nazismo: Leis de Nuremberg de 1935 retiraram a cidadania dos judeus alemães e proibiram casamentos ou relações sexuais entre judeus e pessoas de "sangue alemão". • A propaganda estatal retratava estrangeiros e minorias (especialmente judeus) como parasitas ou doenças que ameaçavam o corpo da nação alemã.

♦Bolsonarismo: Prega o preconceito regional ou xenofobia interna, perseguindo os moradores das regiões norte e do nordeste. 


A Classe Trabalhadora

♦Fascismo Nazismo: Assim que assumiram o poder, Benito Mussolini (1922) e Adolf Hitler (1933) baniram os sindicatos livres, socialistas, comunistas e anarquistas.

O direito à greve foi extinto. Paralisar o trabalho passou a ser considerado um crime contra o Estado.

Os sindicatos independentes foram substituídos por órgãos corporativistas estatais (como a Confederação das Corporações na Itália e a Frente Alemã do Trabalho - DAF, na Alemanha), cujo objetivo não era defender o trabalhador, mas impor a disciplina produtiva e os interesses do regime e do grande capital.

Com o fim da livre negociação e a eliminação da oposição sindical, os salários reais foram comprimidos ou congelados, enquanto as jornadas de trabalho frequentemente aumentaram para atender aos planos de militarização e reindustrialização pesada.

♦Bolsonarismo: Adota uma postura de combate às entidades de representação coletiva (Sindicatos), 

enfraquecimento do imposto sindical e estimulando a negociação direta e individual entre o trabalhador e o empregador (patrão).

A defesa da livre negociação individual entre o trabalhador e o patrão como uma forma de dar autonomia ao cidadão perante o patrão e perante o sindicato, sendo contra a Escala 6X1.


LISTA DE POVOS CONQUISTADOS POR JÚLIO CÉZAR



Nas Guerras Gálicas (58 a.C. – 50 a.C.), Júlio César não derrotou uma única "civilização" unificada, mas sim uma vasta confederação de mais de 60 povos e tribos independentes que habitavam a região da Gália (atuais França, Bélgica, Suíça e partes da Alemanha). A nível arqueológico e cultural, esses povos compartilhavam a chamada Cultura de La Tène.

César dividiu estes povos em quatro grandes grupos geográficos e culturais.

Os Gauleses Celtas (Gália Central), Belgas (Gália do Norte), Armoricanos (Gália Ocidental / Litoral Atlântico) e os  Aquitanos (Gália Sudoeste).


Gauleses Celtas - Gália Central

Era o maior grupo e o coração da resistência que mais tarde se unificou sob o comando de Vercingetórix na histórica Batalha de Alésia (52 a.C.).

• Arvernos: A tribo de Vercingetórix, líder da grande revolta unificada.

• Éduos (Héduos): Inicialmente aliados de Roma, mas rebelaram-se no final da guerra.

• Sequanos: Vizinhos dos Éduos envolvidos nos gatilhos iniciais da guerra.

• Carnutes: Tribo onde começou a grande rebelião de 52 a.C. com o massacre de cidadãos romanos.

• Bituriges: Teve sua capital, Avarico (Avaricum), brutalmente saqueada por César.

• Senones e Parisios: Tribos da região da atual Paris, derrotadas pelo general de César, Labieno.

• Mandúbios: Habitantes da cidade fortificada de Alésia.

• Ambarros, Alóbroges, rácates, lícates e segusiavos.


Belgas - Gália do Norte

César os descreveu como "os mais ferozes de todos os povos da Gália". Foram subjugados em campanhas sangrentas no norte.

• Nérvios: Quase aniquilaram as legiões de César na terrível Batalha do Sabis (57 a.C.).

• Suessiones e Belóvacos: Tribos belgas poderosas que lideraram as primeiras coalizões do norte.

• Eburões: Liderados por Ambíorix, destruíram uma legião romana inteira antes de César caçá-los até a quase extinção.

• Atrébates, Morinos e Menápio: Controlavam as regiões costeiras próximas ao Canal da Mancha.

• Viromânduos, Remos (que se aliaram a Roma), Condrusos e Pemânios.


Armoricanos - Gália Ocidental / Litoral Atlântico

Povos eminentemente marítimos que dominavam o comércio naval no Atlântico.

• Vênetos: Famosos por seus imensos navios de carvalho, derrotados em uma batalha naval inovadora no Golfo de Morbihan (56 a.C.).

• Osísmio, Lexóvios, Namnetes, Coriosolistas e Unelos.


Aquitanos - Gália Sudoeste

Povos que habitavam a região próxima aos Pireneus, culturalmente mais próximos dos ibéricos. Foram derrotados em grande parte pelo legado de César, Públio Crasso.

• Vocates e Tarusates.

• Tarbelos, Bigerriões, Precios, Vocasates, Elusates e Garunnos.


Outros Povos Invasores/Aliados na Gália

Durante as campanhas, César também enfrentou e expulsou povos de fora do eixo gálico que cruzaram as fronteiras:

• Helvécios: Tribo celta da atual Suíça cuja migração em massa iniciou a guerra em 58 a.C. na Batalha de Bibracte.

• Suevos, Menápios e Usípetes / Tencterose: Liderados por Ariovisto, haviam invadido a Gália e foram jogados de volta para o outro lado do Reno por César.


A Conquista da Germânia (Alemanha)

Ao contrário do que muitos pensam, Júlio César não conquistou o território que hoje corresponde à Alemanha. Em vez disso, ele estabeleceu o rio Reno como a fronteira natural definitiva entre o mundo romano e as tribos germânicas.

Durante as Guerras Gálicas (58–50 a.C.), César conquistou territórios que englobam a atual França, Bélgica, Suíça e apenas uma pequena faixa da Alemanha ocidental (a margem esquerda do rio Reno).

Em 55 a.C., para demonstrar o poder de engenharia e a força militar de Roma, César construiu uma ponte colossal sobre o Reno em apenas dez dias. Ele atravessou o rio com suas legiões, realizou incursões punitivas contra as tribos germânicas (como os suevos e sugambros), mas retornou 18 dias depois e destruiu a ponte, sem a intenção de ocupar ou colonizar aquela margem.

César considerava as tribos além do Reno muito bárbaras, perigosas e economicamente desinteressantes para justificar os custos de uma ocupação permanente.


Teutoburgo

Anos mais tarde, no governo do imperador Augusto (sobrinho-neto de César), Roma tentou avançar e anexar a Germânia. Contudo, após o massacre de três legiões romanas na famosa Batalha da Floresta de Teutoburgo (ano 9 d.C.), o império desistiu definitivamente de conquistar o coração da atual Alemanha.

quinta-feira, 29 de outubro de 2026

CUSTO BRASIL



O Custo Brasil é a expressão usada para descrever o conjunto de dificuldades estruturais, burocráticas, trabalhistas, tributárias e de infraestrutura. Ele torna a produção nacional mais cara, prejudica os investimentos e diminui a competitividade das empresas brasileiras no mercado internacional. Em termos simples, é o "preço extra" que se paga para produzir ou empreender no Brasil em comparação com outros países.


Origem do Custo Brasil

O termo surgiu oficialmente em 1995, logo após o lançamento do Plano Real, em 1994. 

Embora os problemas estruturais do país (como burocracia e falta de ferrovias) existam desde o período colonial, o custo de fazer negócios no país só ganhou esse nome e virou um debate nacional quando a economia brasileira passou por duas transformações profundas:

♦A Abertura Comercial - Anos 1990: O Brasil reduziu drasticamente as barreiras e tarifas de importação. Pela primeira vez, os produtos nacionais tiveram que competir diretamente com os importados.

♦O Plano Real 1994: O fim da hiperinflação trouxe estabilidade de preços, mas também acabou com uma "falsa ilusão de lucro". Antes do Real, as empresas brasileiras disfarçavam suas ineficiências e custos operacionais absurdos aplicando o dinheiro no mercado financeiro da noite para o dia (ganhando com a ciranda financeira).


Os Principais Componentes do Custo Brasil

O custo elevado do ambiente de negócios brasileiro é alimentado por vários fatores organizados em grandes grupos:

♦Incentivos e Burocracia: Processos excessivamente lentos para abertura, regularização e fechamento de empresas, além de insegurança jurídica que gera litígios frequentes.

♦Sistema Tributário Complexo: Um sistema de impostos historicamente cumulativo, de difícil interpretação, que exige gastos elevados das empresas apenas para manter a conformidade fiscal.

♦Infraestrutura Deficiente: Rodovias mal conservadas, ferrovias escassas, portos e aeroportos com processos lentos e energia elétrica cara, elevando drasticamente o custo do frete e da logística.

♦Custo de Capital Elevado: Taxas de juros historicamente altas e dificuldade de acesso a crédito competitivo para investimentos de longo prazo.

♦Encargos Trabalhistas: Complexidade da legislação trabalhista e o peso dos encargos sobre a folha de pagamento, o que eleva o custo real de contratação para o empregador.


O Impacto no Dia a Dia

De acordo com estudos do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), estima-se que o Custo Brasil custe cerca de R$ 1,7 trilhão por ano às empresas, o que equivale a quase 20% do PIB nacional.

Como consequência Direta:

♦ Os Preços Sobem: Os custos extras são repassados ao consumidor final, tornando produtos nacionais mais caros do que os importados.

♦Menos Empregos são Gerados: Empresas estrangeiras evitam investir no país, e as locais reduzem suas margens de expansão.

♦Desindustrialização: Setores industriais perdem força por não conseguirem competir de igual para igual com o mercado externo.


A Evolução do Problema Custo Brasil

A percepção e a mensuração desse custo extra passaram por transformações profundas ao longo das últimas décadas:

♦Anos 1990 A Descoberta do Problema: Com o fim da hiperinflação e a abertura comercial, o Brasil expôs sua infraestrutura sucateada. O foco inicial do termo estava quase todo voltado para o gargalo dos portos ineficientes e das estradas de terra que encareciam o escoamento.

♦Anos 2000 O Boom de Commodities e o Nó Tributário: A economia brasileira cresceu aceleradamente puxada pela exportação de matérias-primas. No entanto, a proliferação de novas regras fiscais estaduais (Guerra do ICMS) e a criação de contribuições federais cumulativas transferiram o foco do Custo Brasil para o manicômio tributário.

♦ Anos 2010 A Década Perdida e a Crise de Produtividade: O país enfrentou recessões técnicas profundas. Ficou evidente que o baixo crescimento não era apenas cíclico, mas estrutural: a produtividade do trabalhador brasileiro estagnou devido à falta de inovação e ao excesso de litígios jurídicos e trabalhistas.

♦Anos 2020 A Mensuração Oficial: O problema deixou de ser um conceito abstrato. Estudos unificados entre o Movimento Brasil Competitivo (MBC) e o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) precificaram formalmente o rombo: ele saltou de R$ 1,5 trilhão (2018) para R$ 1,7 trilhão anuais. Atualmente, embora represente um valor nominal maior, sua participação relativa oscila em torno de 19,5% a 20% do PIB nacional devido ao crescimento da economia.


A Reforma Tributária e o Custo Brasil

A Reforma Tributária do Consumo ataca diretamente o componente mais complexo do Custo Brasil: o sistema de impostos. Com início de transição em 2026/2027 e consolidação até 2033, ela substitui cinco tributos (PIS, Cofins, IPI, ICMS e ISS) pelo modelo de IVA Dual (composto pela CBS federal e pelo IBS estadual/municipal).

Esse novo modelo gera impactos profundos na redução do Custo Brasil por meio de três frentes:

♦Fim do Efeito Cascata - Não Cumulatividade Plena: No sistema antigo, as empresas pagavam imposto sobre imposto ao longo da cadeia produtiva. Agora, as empresas podem recuperar integralmente o imposto pago nas etapas anteriores (geração de créditos fiscais), barateando o custo real de produção.

♦Drástica Redução da Burocracia: As empresas brasileiras gastavam historicamente mais de 1.500 horas por ano apenas para calcular e pagar impostos. A unificação das regras simplifica os departamentos fiscais, permitindo realocar esse investimento em inovação e operação.

♦Desoneração de Exportações e Investimentos: Máquinas, equipamentos industriais e insumos voltados para a exportação passam a ser totalmente desonerados no novo formato. Isso eleva o poder de competição dos produtos brasileiros no exterior.

Embora a Reforma Tributária solucione grandes nós do Custo Brasil, especialistas apontam que ela não reduz os gastos públicos, atuando prioritariamente na simplificação estrutural


Os Gatos Públicos e o Custo Brasil

A relação entre o Custo Brasil e os gastos públicos é direta e umbilical. O tamanho, a eficiência e o custo de manutenção do Estado brasileiro alimentam diretamente os gargalos que asfixiam o setor produtivo.

A máquina pública impacta o Custo Brasil em duas vias: exigindo uma carga tributária elevada para se sustentar e gerando pouca contrapartida em investimentos estruturais.


O Custo de Financiamento do Estado - Arrecadação vs. Gasto

Para que o governo consiga pagar suas despesas correntes (salários do funcionalismo, previdência, custeio da máquina), ele precisa retirar dinheiro da sociedade. Isso gera impactos claros:

♦Alta Carga Tributária: O Brasil possui uma carga tributária que gira em torno de 33% do PIB, patamar muito superior à média dos países em desenvolvimento. O imposto cobrado é alto porque o gasto do governo é alto.

♦Complexidade Fiscal: Para garantir uma arrecadação massiva, o Estado criou um emaranhado de regras fiscais tributárias. Isso força as empresas a gastarem fortunas apenas para manter equipes contábeis gigantescas, encarecendo a burocracia do negócio.


Despesas Obrigatórias e o Efeito Sufocamento - Crowding-Out

O grande problema do orçamento público brasileiro é a rigidez. Cerca de 90% dos gastos federais são compostos por despesas obrigatórias (como benefícios previdenciários e despesas com pessoal).

♦Falta Espaço para Investimento: Com a maior parte da arrecadação carimbada para pagar o funcionamento da máquina e a previdência, sobra pouquíssimo dinheiro público para o que realmente reduziria o Custo Brasil: infraestrutura (rodovias, ferrovias, saneamento, portos).

♦Investimento Irrisório: Enquanto países desenvolvidos ou concorrentes diretos investem pesado em modernização, o investimento público no Brasil historicamente patina em patamares baixíssimos (muitas vezes abaixo de 2% do PIB), o que perpetua os gargalos logísticos.


O Impacto dos Juros e da Dívida Pública

Quando o gasto público cresce de forma contínua e as contas entram em desequilíbrio fiscal estrutural, o governo é obrigado a pegar dinheiro emprestado no mercado emitindo títulos da dívida pública.

♦Taxa Básica de Juros - Selic Elevada: Para atrair investidores para a sua dívida e conter pressões inflacionárias de uma economia desajustada, o Banco Central mantém os juros reais em patamares elevados.

♦Encarecimento do Crédito Privado: Segundo a métrica oficial do Observatório do Custo Brasil, o eixo de Financiamento (Acesso a Capital) custa entre R$ 220 bilhões e R$ 260 bilhões por ano adicionais às empresas. O juro balizador do governo se torna o juro do banco na ponta, encarecendo empréstimos para que empresários expandam fábricas ou comprem equipamentos.


Ineficiência dos Serviços Públicos e Judicialização

O setor produtivo também paga pela lentidão da própria máquina do Estado. No levantamento do Movimento Brasil Competitivo (MBC), o mau funcionamento de Serviços Públicos adiciona de R$ 40 bilhões a R$ 70 bilhões anuais de custo extra às corporações.

Processos de licenciamento ambiental que demoram anos para sair, alfândegas portuárias lentas e a lentidão do Poder Judiciário (que gera insegurança jurídica e custos de litígio) são reflexos diretos de uma máquina dispendiosa, mas pouco digitalizada e focada em resultados práticos.


Tentativas de Redução pelos Governos

Nenhum governo ignorou o problema, mas a maioria tentou atacá-lo de forma fragmentada, gerando resultados mistos:

♦Lei de Responsabilidade Fiscal e Agências Reguladoras - Governo FHC: A primeira grande resposta estrutural focou em dar previsibilidade jurídica e estabilidade macroeconômica. A criação de agências (como a ANTT e a ANATEL) visava atrair capital privado para modernizar a infraestrutura de transportes e telecomunicações.

♦PAC e Desonerações Seletivas - Governos Lula e Dilma: O Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) tentou injetar dinheiro público diretamente em obras logísticas. Posteriormente, o governo apostou em desonerações fiscais temporárias para setores específicos (como a folha de pagamento da indústria e o IPI de automóveis). No entanto, as desonerações geraram forte deficit fiscal sem resolver o problema tributário estrutural.

♦Reforma Trabalhista e Teto de Gastos - Governo Temer: Mudou a estratégia para reformas microeconômicas de flexibilização. A Reforma Trabalhista de 2017 buscou reduzir o custo da contratação e frear o volume absurdo de processos judiciais trabalhistas, um dos eixos mais pesados do custo operacional de recursos humanos.

♦Lei da Liberdade Econômica e Novo Marco do Saneamento - Governo Bolsonaro: Focou na desburocratização na largada de empresas, eliminando alvarás para atividades de baixo risco. O Novo Marco do Saneamento e o Marco Legal das Ferrovias tentaram reabrir as portas para concessões privadas de infraestrutura de longo prazo.

♦Nova Indústria Brasil e Agenda de Competitividade - Governo Lula - Atualidade: O foco se dividiu em duas frentes. Na frente fiscal, o governo avançou com a aprovação e posterior regulamentação da Reforma Tributária. Na frente operacional, o MDIC lançou uma Agenda de Competitividade focada em projetos de melhoria regulatória e transformação digital, visando cortar até R$ 341,6 bilhões ao ano em burocracias desnecessárias para as empresas.


Problema Sem Solução

As tentativas do passado falharam em resolver o Custo Brasil por completo porque focavam em remendos temporários (subsídios e isenções para setores favoritos) em vez de focar em reformas de base (simplificação tributária ampla e segurança jurídica permanente). A consolidação das reformas regulatórias em andamento ditará se o Brasil conseguirá finalmente se aproximar do custo de produção dos países desenvolvidos.

O gasto público ineficiente atua como o motor oculto do Custo Brasil. Ele obriga o país a ter juros altos para financiar sua dívida e impostos pesados para cobrir o déficit, ao mesmo tempo em que deixa as estradas e portos abandonados por falta de capacidade financeira de investimento.



segunda-feira, 26 de outubro de 2026

A REAL LISTA DOS REIS SUMÉRIOS



A Lista de Reis Sumérios ainda intriga os historiadores depois de mais de um século de pesquisas pelo meio acadêmico. Fora dos muitos artefatos incríveis que já foram recuperados a partir de sítios arqueológicos no Iraque, onde florescentes cidades sumérias (antiga Mesopotâmia) existiram uma vez, poucos têm sido mais intrigante que a Lista dos Reis da Suméria, um antigo manuscrito originalmente gravado na rocha no antigo idioma sumério, listando os reis da Suméria (antigo centro sul do Iraque) e dinastias vizinhas, a suposta duração de cada reinado e os locais onde habitaram essa realeza “oficial”.
O que torna este artefato tão único é o fato de que a lista combina os governantes pré-dinásticos aparentemente míticos com governantes históricos que são conhecidos por terem existido comprovadamente. 
O primeiro fragmento deste texto raro e único, uma tábua cuneiforme com cerca de 4.000 anos de idade, foi encontrado no início de 1900 pelo estudioso alemão-americano Hermann Hilprecht no local onde a antiga Nippur foi erguida e o achado foi publicado em 1906. Desde a descoberta de Hilprecht, pelo menos 18 outros exemplos de lista dos reis da região foram encontradas, a maioria delas datam da segunda metade da dinastia Isin (cerca de 2017-1794 a.C.).
Não existem dois destes documentos idênticos em seus dados registrados. No entanto, existe material bastante comum entre todas as versões dessas listas de reis sumérios para deixar claro que eles são derivados de um único registro, muito mais antigo com os dados históricos “real” da história suméria. 

Prisma de Weld-Blundell
Entre todos os exemplos encontrados das Listas de Reis Sumérios, o prisma Weld-Blundell da coleção cuneiforme do Ashmolean Museum, em Oxford representa a versão mais extensa, bem como a cópia mais completa da lista de reis. A 20 centímetros de altura do prisma contém quatro lados, com duas colunas escritas de cada lado.
Acredita-se que inicialmente tinha um eixo de madeira que atravessava o seu centro de modo a que pudesse ser rodado para ser lido em todos os quatro lados. Essa lista de reis enumera os governantes de “Dinastias Antediluvianas” (reis de antes do dilúvio”) até o governante da XIV dinastia Isin (cerca de 1763-1753 aC), ou seja um período que envolve muitos milênios da passagem do tempo naquela região.
A lista é de imenso valor, pois reflete tradições muito antigas e, ao mesmo tempo, proporciona um importante quadro cronológico relativo aos diferentes períodos de reinados dos reis na Suméria.

As Cidades
Cada uma das cidades-estado sumeriana era composta por uma cidade murada e com as suas aldeias e terras agricultáves, e cada uma adorando a sua própria divindade, cujo templo (Zigurate) era a estrutura central da cidade. O poder político pertencia originalmente aos cidadãos, mas, como a rivalidade entre as várias cidades-estado foi aumentado (devido a rivalidade entre os “deuses”), cada uma delas adotou (aconselhados pelos “deuses”) a instituição da  realeza . 
A Lista de Reis Sumérios,  registra que oito reis reinaram durante um longo período antes de que uma grande inundação (o dilúvio) acontecesse e destruisse tudo. Após o Dilúvio, várias cidades-estado e suas dinastias de reis ganhou temporariamente o poder sobre outras cidades. 

Passado Mítico
A Lista de Reis Sumérios começa com a própria origem da realeza, que é vista e narrada como sendo uma instituição divina: “a realeza desceu do céu”. Os governantes nas primeiras dinastias são representados como reinando fantasticamente por longos períodos:
“Após a realeza descer do céu, o reino estava em Eridu. Em Eridu, Alulim tornou-se rei; ele governou por 28.800 anos. Alaljar governou por 36.000 anos. Foram 2 reis; que governaram por  64.800 anos”.
Alguns dos governantes mencionados na lista no início, como Etana, Lugal-Banda e Gilgamesh, são “figuras míticas ou lendárias” cujas façanhas heroicas são temas de uma série de contos sumérios e composições narrativas babilônicas.
Os nomes da lista dos primeiros oito reis são apresentados governando durante um período total de 241.200 anos (67 Shars *1 [Shar = 3.600, Era o valor matemático exato do sinal šár. Ele representava a multiplicação de 60 × 60.] - šár  {órbitas} de Nibiru) de reinado desde o momento em que a realeza “desceu dos céus” para o momento em que “o dilúvio” varreu (em 10.986 a.C., portanto a exatos 13 mil anos) a terra e mais uma vez quando “a realeza foi baixada dos céus à Terra” depois do Dilúvio.

Interpretação dos Longos Períodos de Reinado dos Reis Antigos
Os períodos de mandato incrivelmente longo dos primeiros oito reis provocou muitas tentativas de interpretação pelos “eruditos e acadêmicos“. Em um extremo existe a recusa completa das grandes figuras (oito reis mais antigos) astronomicamente  como “completamente artificial” e a visão de que eles são indignos de consideração séria pelos “estudiosos”. No outro extremo, está a crença de que os números têm uma base na realidade e que os primeiros reis eram de fato deuses (de Nibiru) que eram capazes de viver muito mais tempo do que os seres humanos comuns.
Entre os dois extremos esta a hipótese de que os números representam o poder relativo, triunfo ou importância. Por exemplo, no antigo Egito, a frase “ele morreu com 110” se refere a alguém que viveu a vida ao máximo e que ofereceu uma importante contribuição para a sociedade. Da mesma forma, os longos períodos de reinado dos primeiros reis podem representar quão incrivelmente importante eles foram percebidos como sendo aos olhos do povo. Isso não explica, no entanto, por que os períodos de mandato mais tarde mudou para períodos de tempo realistas.
Relacionado com este ponto de vista existe a crença de que, embora os primeiros reis não sejam historicamente atestados como existentes, isso não impede a sua possível correspondência com governantes históricos que mais tarde foram mitificados.
Finalmente, alguns “estudiosos” têm procurado explicar os números através de uma investigação e interpretação matemática, por exemplo, Harrison, desde 1993.

Relação com o Livro Bíblico Genesis
Alguns estudiosos ( Wood, 2003) chamaram a atenção para o fato de que há semelhanças notáveis entre a lista dos nomes dos Reis sumérios e a história contada em Gênesis. Por exemplo, Gênesis narra a história de “a grande inundação” e os esforços de Noé para salvar todas as espécies de animais na Terra da destruição total pela água. Da mesma forma, na Lista de Reis Sumérios, há discussão de um grande dilúvio: “o dilúvio varreu a terra.”
A Lista de Reis Sumérios fornece uma lista de oito reis (algumas versões tem 10) que reinaram por longos e (para nós) imensos períodos de tempo antes do dilúvio, que variam de 18.600 a 43.200 anos CADA UM. Isto é semelhante ao Gênesis 5, onde as gerações dos seres humanos, desde a criação até o dilúvio estão gravadas. Curiosamente, entre Adão e Noé há também oito gerações, assim como há oito reis entre o início da realeza e a inundação da Terra na Lista de Reis Sumérios.
Depois do dilúvio, a Lista de Reis registra reis que governaram por períodos muito mais curtos de tempo. Assim, a Lista de Reis Sumérios não só documenta uma grande enchente no início da história do homem, mas também reflete o mesmo padrão de diminuir a longevidade como encontrada na Bíblia – os homens (os seres humanos) tinham uma vida útil extremamente longa se estendendo antes do dilúvio e de vida muito mais curta após o dilúvio (Wood, 2003).

Relação com a Bíblia ou Imitação?
Devemos lembrar que o livro de Gênesis foi escrito por volta dos séculos século VII a.C. e século VI a.C., respectivamente. Que é chamado de Exílio na Babilônia, que ocorreu entre 605 a.C. e 538 a.C. Foi justamente nesse período e nos anos logo após o retorno (século V a.C.) que o livro de Gênesis tomou a sua forma final e definitiva.
Isso aconteceu por conta do povo hebreu estar longe de sua terra e sob o risco de desaparecerem como povo, os sacerdotes e escribas judeus reuniram, organizaram e editaram seus textos sagrados e tradições orais.
No exílio, os judeus tiveram contato direto com os mitos de criação da Babilônia (como o Enuma Elish e a Epopeia de Gilgamesh). Os primeiros capítulos de Gênesis (a Criação e o Dilúvio) foram estruturados para contrapor esses mitos, afirmando que o mundo foi criado por um único Deus soberano, e não por divindades guerreiras pagãs.
Grande parte do vocabulário, das genealogias detalhadas e das leis sobre a aliança (como a circuncisão e a guarda do sábado) reflete a chamada "Fonte Sacerdotal", escrita exatamente por sacerdotes que viviam no exílio ou que retornaram dele para reconstruir Jerusalém, mas não temos nada de Fonte Sacerdotal legítimo, mas sim uma compilação totalmente plagiada de contos antigos.
Resumindo toda essa ópera, embora Gênesis contenha histórias e tradições orais muito mais antigas, foi durante e logo após o cativeiro na Babilônia que o livro foi compilado e editado tal como o conhecemos hoje.

Referências
The Sumerian King List – University of Oxford
Great Discoveries in Biblical Archaeology: The Sumerian King List – by Bryant G. Wood
The Sumerian king list: translation – The Electronic Text Corpus of Sumerian Literature
The Sumerian King List – by L.C. Geerts
Reinvestigating the Antediluvian Sumerian King List – by R. K. Harrison
The Sumerian King List – by Thorkild Jacobsen (The Oriental Institute of the University of California)



sábado, 24 de outubro de 2026

REINO HURRITA



Os Hurritas eram um povo que habitava o antigo Oriente Próximo durante a Idade do Bronze. Eles falavam a língua hurrita e viviam em todo o norte da Síria, alta Mesopotâmia e sudeste da Anatólia.
Os hurritas chamavam a si próprios pelo termo endônimo Ḫurili, Ḫurla, Ḫurri, já os vizinhos, os chamavam de Subartu ou Subartianos, Horeus.
Em hebraico, Ḫōrîm, termo que também foi associado popularmente à palavra para "caverna" Ḫōr.
Textos bíblicos posteriores parecem se referir a ramificações desse povo como Horeus.

Documentação
Os hurritas foram documentados pela primeira vez na cidade de Urkesh, onde construíram seu primeiro reino. O maior e mais influente reino Hurrita foi Mitanni. A população do Império Hitita na Anatólia incluía uma grande população de Hurritas, e há uma influência Hurrita significativa na mitologia hitita. No início da Idade do Ferro, os Hurritas já haviam sido assimilados por outros povos. O estado de Urartu posteriormente abrangeu parte da mesma área. Um povo relacionado aos Hurritas são os Urarteanos.

Origens
Acredita-se que os Hurritas tenham se originado nas terras altas armênias ou no Cáucaso , de onde migraram posteriormente para o sul, em direção ao Crescente Fértil , mas não temos certeza.
Possivelmente, os Hurritas eram um dos povos mais antigos da Mesopotâmia e conectaram as culturas pré-históricas de Tell Halaf c.  6100-5100 a.C. ou Samarra ( c. 5500-4800 a.C. ) com a população proto-hurrita, mas se tem certeza sobre isso. 

Período do Bronze Inicial
O vale do rio Khabur, localizado na atual Síria e Turquia, tornou-se o coração das terras hurritas por um milênio. O primeiro reino hurrita conhecido surgiu em torno da cidade de Urkesh (atual Tell Mozan) durante o terceiro milênio a.C. Há evidências de que eles eram inicialmente aliados do Império Acádio da Mesopotâmia , indicando que tinham um domínio firme sobre a área durante o reinado de Naram-Sin de Acádia (c. 2254–2218 a.C.). Um rei de Urkesh com o nome hurrita Tupkish tinha uma rainha com o nome Uqnitum, acádio para "menina de lápis-lazúli". Na Terceira Dinastia de Ur, a presença Hurrita estendia-se das montanhas Zagros a Tur Abdin e de Subartu em direção a Ebla. Essa extensa presença teve um grande impacto na vida política e cultural da Alta Mesopotâmia.

Período do Bronze Médio
Os nomes Hurritas ocorrem esporadicamente no noroeste da Mesopotâmia e na área de Kirkuk, no atual Iraque, na Idade do Bronze Médio. Sua presença foi atestada em Nuzi, Urkesh e outros sítios. Eventualmente, eles ocuparam um amplo arco de terras férteis que se estendia do vale do rio Khabur, a oeste, até as encostas das montanhas Zagros, a leste. Nessa época, durante o período da Babilônia Antiga, no início do segundo milênio a.C., o reino amorita de Mari, ao sul, havia subjugado Urkesh e a transformado em um estado vassalo. Urkesh mais tarde se tornou um centro religioso mitani.
Os Hurritas também migraram mais para oeste nesse período. Por volta de 1725 a.C., eles também são encontrados em partes do norte da Síria, como Alalakh. O reino misto Amorita-Hurrita de Yamhad é registrado como tendo lutado por essa área com o rei hitita Hattusilis I por volta de 1600 a.C. Os Hurritas também se estabeleceram na região costeira de Adaniya, no país de Kizzuwatna , no sul da Anatólia. Yamhad acabou enfraquecendo em relação aos poderosos hititas, mas isso também abriu a Anatólia para influências culturais hurritas. Os hititas foram influenciados por ambas as culturas hurritas ao longo de vários séculos.
A cidade de Shibaniba (Tell Billa) também pode ter desempenhado um papel importante naquela época. Possível ocupação hurrita foi identificada em Tell Billa em meados do segundo milênio a.C. Em 2022, Tell Billa foi proposto como o possível local da cidade de Šimānum (possivelmente conhecida como Asimānum durante o Império Acádio). Šimānum foi importante durante o período Ur III (cerca de 2100 a.C.).

Final da Idade do Bronze
Os hurritas que entraram no norte da Síria no final do século XVII a.C. foram responsáveis ​​por trazer importantes mudanças políticas, estratégicas e culturais para a população da região, eventualmente estabelecendo estados feudais liderados por uma aristocracia de guerreiros de carros. O Império Mitanni foi uma forte potência regional estabelecida pelos hurritas e era limitado pelos hititas ao norte, pelos egípcios ao sudoeste, pelos cassitas ao sudeste e, mais tarde, pelos assírios ao leste. Em sua extensão máxima, Mitanni alcançava a oeste Kizzuwatna, perto das montanhas Taurus, Tunip ao sul, Arraphe ao leste e ao norte até o Lago Van . Sua esfera de influência é demonstrada pela disseminação de topônimos e nomes pessoais hurritas. Eventualmente, após uma crise interna de sucessão, Mitanni caiu para os hititas, para mais tarde ficar sob o controle dos assírios. Os hurritas da Síria continuariam a migrar ainda mais, chegando ao sul até a Palestina. 
A entidade hurrita de Mitanni, que ascendeu ao poder antes de 1550 a.C., foi mencionada pela primeira vez nos registros dos faraós egípcios Tutmés I (1506–1493 a.C.) e Tutmés III (1479–1425 a.C.), este último mais notavelmente associado à Batalha de Megido no 22º ano de seu reinado. Na maior parte do tempo, os egípcios se referiam ao reino como Naharin . Mais tarde, Mitanni e Hanigalbat (o nome assírio para Mitanni) são mencionados nas Cartas de Amarna durante o reinado do faraó Akhenaton (1353–1336 a.C.). No âmbito doméstico, foram encontrados registos de Mitanni em vários locais da região, incluindo vários sítios hititas, bem como Tell Bazi , Alalakh , Nuzi , Mardaman , Kemune e Müslümantepe, entre outros. 
Outro importante centro de influência hurrita foi o reino de Arrapha. Escavações em Yorgan Tepe, antiga Nuzi, provaram ser um dos sítios mais importantes para o nosso conhecimento sobre os hurritas. Reis hurritas como Ithi-Teshup e Ithiya governaram Arrapha, mas em meados do século XV a.C. tornaram-se vassalos do Grande Rei de Mitanni.

Shubria - Shupria
Após a destruição de Mitanni pelos hititas por volta de 1350-1325 a.C., o termo Shubaru (Subartu) foi usado em fontes assírias para se referir aos remanescentes de Mitanni no vale superior do Tigre. O povo Shubaru se revoltou contra os assírios diversas vezes nos últimos séculos do segundo milênio a.C. O termo está relacionado a Shupria , nome de um reino localizado ao norte do vale superior do rio Tigre. Shupria estava localizada entre Urartu e a Assíria e existiu como um reino independente até sua conquista pela Assíria em 673-672 a.C. Os shuprianos cultuavam a divindade hurrita Teshub, e vários nomes shuprianos têm origem hurrita. Os hurritas faziam parte da população shupriana e podem ter sido o grupo predominante. Alguns estudiosos sugeriram que Shupria foi o último remanescente da civilização hurrita, ou mesmo constituiu a pátria original dos hurritas. Karen Radner escreve que Shupria "pode ​​certamente ser descrita como um estado (linguística e culturalmente) hurrita". De acordo com Radner, uma carta do rei de Shupria para um magnata assírio da época de Sargão II foi composta na língua hurrita.

Confederação de Tribos
Os Hurritas estavam divididos em vários clãs e subgrupos, que estabeleceram diversas cidades-estado , reinos e impérios por todo o antigo Oriente Próximo. Amjad Jaimoukha afirmou que os gutianos , hatianos , cassitas, mitanis, mushki e urartianos eram clãs hurritas.

Subarianos
A origem e a identidade precisas dos subarianos que habitavam a terra de Subartu têm sido objeto de debate acadêmico. Assiriólogos como Adolf Leo Oppenheim (1904-1974) e Arthur Ungnad (1879-1947) argumentaram que os subarianos e os hurritas eram o mesmo povo, enquanto Ephraim Speiser (1902-1965) e Ignace Gelb (1907-1985) sustentaram que eram grupos distintos. Em qualquer caso, permanece incerto se o termo "subariano" era simplesmente outro nome para hurritas desde o início, ou se designava a população pré-hurrita.

Turukkaeanos
Os turukeus eram provavelmente uma tribo de hurritas da Idade do Bronze e do Ferro que habitava a região de Turrukum, localizada ao sul do Lago Urmia. Eles podem ter falado a língua hurrita, e frequentemente eram comandados por líderes militares hurritas. A região de Turrukum consistia em vários reinos com uma população predominantemente hurrita, mas também significativamente semita.

Urartianos - Urartu
Os urartianos eram um povo da Idade do Ferro que estabeleceu o reino de Urartu e falava a língua urartiana . Alguns estudiosos consideram os urartianos como um ramo dos hurritas, enquanto outros os consideram distintos dos hurritas, mas intimamente relacionados étnica e linguisticamente, compartilhando um ancestral comum. Gernot Wilhelm afirma que o único elo real entre os hurritas e os urartianos é linguístico; a separação das duas línguas pode ter ocorrido já no terceiro milênio a.C. Albrecht Goetze considerou Urartu como uma reconsolidação de antigos estados hurritas, uma visão amplamente aceita na época, embora também negasse a visão oposta de que Urartu foi estabelecida por um povo recém-chegado. Mas um exame mais detalhado mostra que essa opinião não está de acordo com os dados disponíveis.

Manaeus
Os maneus, que estabeleceram o reino de Manaia no noroeste do Irã , também foram considerados um grupo de hurritas. A população básica de Manaia parece ter sido hurrita, incluindo os chefes maneus. Rainer Michael Boehmer considerou os maneus como um grupo hurrita com uma ligeira mistura cassita. De acordo com Karen Radner, eles atualmente escapam a qualquer classificação cultural, étnica ou linguística. Os nomes dos reis maneus parecem estar em iraniano antigo , enquanto outros são provavelmente de origem hurrita ou urartiana. [ 94 ] Robert H. Dyson Jr. afirmou que eles eram linguisticamente relacionados aos hurritas e urartianos.

Hicsos
Os europeus centrais e os historiadores antigos inicialmente acreditavam que os hicsos , um grupo de governantes semitas ocidentais , eram um povo de componentes hurritas e arianos , mas após a repulsa tanto do antissemitismo quanto do conceito de uma raça superior ariana após a Segunda Guerra Mundial , os estudiosos agora tendem a descartar a possibilidade de elementos hurritas ou indo-europeus entre os hicsos

Religião
A cultura hurrita teve um grande impacto na religião dos hititas. Do centro de culto hurrita em Kummanni, em Kizzuwatna, a religião hurrita se espalhou para o povo hitita. O sincretismo fundiu as antigas religiões hitita e hurrita. A religião hurrita se espalhou para a Síria, onde Baal se tornou o equivalente a Teshub. A religião hurrita, em diferentes formas, influenciou todo o antigo Oriente Próximo , exceto o antigo Egito e o sul da Mesopotâmia.
Embora as línguas hurrita e urartiana sejam relacionadas, há pouca semelhança entre os sistemas de crença correspondentes.

Os principais deuses do panteão hurrita eram:
Teshub, Teshup, o poderoso deus do clima.
Hebat, Hepa, sua esposa, a deusa mãe, mais tarde equiparada à principal deusa solar dos hititas.
Sarruma, Šarruma, seu filho, um deus da montanha de origem síria.
Kumarbi, deus do grão, o pai de Teshub e um "pai dos deuses" semelhante a Enlil; sua casa, conforme descrito na mitologia, é a cidade de Urkesh.
Shaushka, Šauska, a contraparte hurrita de Ishtar , e uma deusa do amor, da guerra e da cura.
Shimegi, Šimegi, o deus sol.
Kushuh, Kušuh, o deus da lua e guardião dos juramentos. Símbolos do sol e da lua crescente aparecem unidos na iconografia hurrita .
Nergal, uma divindade suméria do submundo, que tinha um templo proeminente em Urkesh no período mais antigo da história hurrita registrada. Possivelmente um substituto para um deus cujo nome hurrita é atualmente desconhecido.
Ea, Hayya, o deus da sabedoria, que também era de origem suméria.
Allani, deusa do submundo.
Ishara, uma deusa de origem síria.
Aštabi, um deus da guerra.
Nupatik, um deus proeminente de função incerta.
Hutena e Hutellura , deusas do destino e do nascimento. 

Fim dos Hurritas
Os hurritas, a partir dos séculos XIV e XIII a.C., começaram a ser conquistados e absorvidos pelos hititas a noroeste e pelos assírios a sudeste, e a sua língua extinguiu-se talvez no século XIII a.C. (ou então alguns séculos mais tarde em regiões mais isoladas), sob pressão de outras línguas e povos. Por volta de 1 200 a.C., a língua hurrita havia desaparecido dos registros cuneiformes. Há alguns autores que referem a possibilidade de tanto o povo como a língua hurrita serem um dos substratos étnicos, linguísticos e culturais do moderno povo curdo, pois habitavam territórios onde atualmente vivem os curdos (um povo descendente de um grupo ocidental dos medos que migrou para oeste, para a cordilheira dos Montes Zagros).
A língua urartiana, parente da hurrita, foi falada até ao século VII a.C., nas regiões do alto Eufrates e do Lago de Vã.


REINO BIAINILI OU URARTU



Biainili (em cuneiforme Urartiano: 𒆳بي𒀀𒄿نيلي) era o endônimo e auto-designação do Reino de Urartu, uma antiga civilização da Idade do Ferro centrada na região do Lago Van, no Planalto Armênio. Enquanto os vizinhos assírios usavam o exônimo Urartu (que deu origem ao bíblico Ararat), os próprios governantes e habitantes chamavam sua terra de Biainili ou Biaini. Não sabemos o significado do nome Biainili,  provavelmente significava "A Terra do Povo Bia".

A a primeira capital foi a cidade de Arzashkun e, posteriormente, Tushpa (atual Van), além de importantes fortalezas como Erebuni (onde hoje fica Erevã, na Armênia).


Idioma

O povo de Biainili (nome nativo do antigo Reino de Urartu) falava o idioma urartiano, também chamado de Urartita ou Vaniano (nome do Lago Van).

O urartiano pertencia à família das línguas hurro-urartianas. Ele não tinha nenhum parentesco com o idioma armênio atual, nem com as línguas indo-europeias ou semíticas que existiam na região. Era uma "ilha linguística" isolada no antigo Oriente Próximo.

O idioma era registrado principalmente através de uma versão adaptada da escrita cuneiforme neoassíria. Os reis de Urartu deixaram centenas de inscrições cuneiformes esculpidas em rochas, estelas de pedra e objetos de bronze para registrar suas campanhas militares e obras públicas.


Confederação de Tribos

O povo Biainili é a crônica de uma confederação de tribos montanhesas que se unificou para resistir à agressão imperialista e acabou se tornando uma das maiores superpotências da Idade do Ferro no Antigo Oriente Próximo.

Antes de se tornar um reino centralizado, a região do Planalto Armênio era habitada por tribos fragmentadas, mencionadas nos registros assírios desde o século XIII a.C. como os povos de Uruatri e Nairi.

Diante das frequentes e violentas incursões do Império Assírio, que buscava cavalos, metais e escravos, essas tribos gradualmente se uniram em uma confederação defensiva.

O primeiro rei unificador mencionado foi Aramu. Contudo, foi o rei Sarduri I quem consolidou o reino por volta de 832 a.C., transferindo a capital para Tushpa (atual Van, na Turquia) e fundando a dinastia real de Biainili.


A Era de Ouro e Expansão Imperial - Séc. VIII a.C. (800 a.C. até o ano 701 a.C.)

Aproveitando um período de temporária fraqueza interna da Assíria, Biainili iniciou uma expansão territorial agressiva sob uma sucessão de reis guerreiros e construtores:

♦Ishpuini e Menua c. 820–785 a.C.: Conquistaram a cidade sagrada de Musasir e estabeleceram o culto ao deus Haldi como o motor ideológico do império. Menua construiu canais de irrigação maciços (alguns usados até hoje) que transformaram o planalto em uma potência agrícola. Sob sua co-regência, o termo oficial nas inscrições nativas mudou definitivamente para Biainili.

♦Argishti I c. 785–763 a.C.: Levou o império ao seu ápice militar. Ele expandiu as fronteiras até o sul do Cáucaso e fundou a fortaleza de Erebuni em 782 a.C., que originou a atual cidade de Yerevan, capital da Armênia. Biainili controlava rotas comerciais vitais, estrangulando o acesso assírio aos metais da Anatólia.


Equilíbrio Entre os Reinos

O rei assírio Sargão II lançou sua famosa "Oitava Campanha" em 714 a.C., invadindo Biainili. Os assírios derrotaram o rei Rusa I, saquearam o riquíssimo templo de Haldi em Musasir e destruíram pomares e plantações. Desonrado, Rusa I cometeu suicídio.

Apesar do golpe devastador, Biainili não colapsou imediatamente. O rei Rusa II (c. 685–645 a.C.) promoveu um renascimento cultural e arquitetônico, erguendo novas e impenetráveis fortalezas e selando a paz com os assírios.


Declínio e Colapso - Séc. VII – VI a.C. (701 a.C. até 501 a.C.)

O fim de Biainili foi provocado por uma combinação de pressões internas e novas ondas de invasores:

Décadas de guerras constantes contra a Assíria esgotaram os recursos do reino.

O território passou a ser fustigado por incursões violentas de cavaleiros nômades, os cimérios e citas.

Fragilizado, o reino sucumbiu gradualmente. A capital e suas fortalezas principais (como Teishebaini) foram queimadas e destruídas. A independência política de Biainili chegou ao fim entre 590 a.C. e meados do século VI a.C., caindo sob o domínio dos Medos e, posteriormente, do Império Aquemênida (Persa).

O urartiano deixou de ser escrito e falado após a queda do reino, por volta do século VI a.C., sendo gradualmente substituído pelo armênio na região.


Legado do Nome

O termo Biainili (que provavelmente significava "a terra do povo Bia") não desapareceu completamente da história. Linguistas e historiadores apontam que a palavra evoluiu foneticamente ao longo dos séculos na transição para a língua armênia, dando origem direta ao nome do Lago Van e da cidade de Van, o coração geográfico daquela civilização.





sexta-feira, 23 de outubro de 2026

O CAOS PRIMORDIAL SUMERIANO



Na mitologia Suméria, o caos primordial é representado pelas águas infinitas e desorganizadas, personificadas pela deusa Nammu, o que seria mais tarde, a Deusa Babilônica Tiamat, que simbolizava o oceano cósmico original antes da criação do universo. Para os sumérios, o caos não era o "vazio absoluto", mas sim uma massa fluida e indiferenciada repleta de potencialidades, a partir da qual os deuses ordenadores emergiram para moldar o Cosmos.


Nammu e Tiamat

Ambas representam as águas primordiais e a origem do cosmos e são consideradas figuras maternas que deram à luz as primeiras gerações de divindades.

Ambas aparecem em mitos associados à criação do mundo e da vida.

Mas as semelhanças acabam aqui.


Deusa Nammu

Seu nome talvez queira dizer: "Senhora do Rio Cósmico"

É vista de forma puramente materna e benevolente na tradição de Eridu, ajudando na criação dos seres humanos sem entrar em guerras contra os deuses.

Na tradição da cidade de Eridu, Nammu é a matriz do universo. Ela existia antes de qualquer outra coisa e criou o mundo sem a necessidade de um consorte masculino (partenogênese).

Antes de o universo tomar forma, só existia o oceano cósmico (Nammu). A partir de si mesma, ela gerou o casal primordial: An - O deus do Céu e Ki - A deusa da Terra.

A união de An e Ki gerou Enlil (o deus do ar), que separou o céu da terra, permitindo que o mundo manifestado existisse.

O papel mais famoso de Nammu na literatura suméria está no tablete conhecido como "Enki e Ninmah" ou "Enki e a Criação do Homem".


O Mito

Os deuses mais jovens estavam exaustos com o trabalho pesado de cavar canais e carregar a terra. Eles começaram a reclamar e a chorar.

Nammu, sendo a mãe compassiva, vai até o seu filho, Enki (o deus da sabedoria e das águas doces), que estava dormindo nas profundezas do Abzu, e diz: "Meu filho, levanta-te do teu leito... Cria substitutos para os deuses, para que eles possam deixar suas ferramentas de trabalho."

Enki acorda e dá as instruções. Nammu modela o primeiro ser humano moldando o argila do oceano primordial (o Abzu), com a ajuda de Ninmah (a deusa mãe/da fertilidade), infundindo a humanidade com a vida para que pudesse servir aos deuses.


Culto

Nammu não possuía templos grandiosos exclusivos como o seu filho Enki ou o neto Enlil, pois ela pertencia a uma era mitológica anterior à organização das grandes cidades-estado. Ela era reverenciada principalmente em Eridu, a cidade mais antiga da Suméria, como a grande ancestral espiritual de toda a existência.


Deusa Tiamat

Tem uma natureza dupla: no início é uma criadora associada às águas salgadas, mas após a morte de seu consorte Apsu, ela se transforma na personificação monstruosa do caos e lidera uma guerra contra os deuses jovens antes de ser derrotada por Marduk.

Para saber sobre os Mitos de Tiamat, leia os artigos: OS FILHOS DE TIAMAT: https://adalbersantos.blogspot.com/2026/10/os-filhos-da-deusa-tiamat.html


A Evolução Babilônica: Apsû e Tiamat

Com a fusão cultural na Mesopotâmia (pelos acádios e amoritas), a história do caos primordial ganha contornos mais dramáticos no célebre Enûma Eliš.


OS FILHOS DA DEUSA TIAMAT



Na mitologia mesopotâmica, no famoso poema épico Enuma Elish, os Onze Filhos de Tiamat são monstros e criaturas divinas criados por Tiamat, Deusa primordial do oceano de água salgada para guerrear contra a geração mais jovem de deuses, liderada por Marduk.

Essas criaturas personificam o caos primordial e forças da natureza. Ao derrotá-los, Marduk os transforma em troféus e constelações, estabelecendo a ordem no cosmos.


Deusa Tiamat

Também conhecida como Tiāmattu ou Tâmtu, que significa "mar" ou "oceano". O nome está ligado a raízes semíticas ocidentais e orientais (como o termo Yam ou Tâmtu para mar/água salgada.

Na antiga Suméria, Tiamat era a deusa primordial das águas salgadas e do caos, personificando o oceano de onde todas as coisas foram criadas.

Ela formava o par inicial com Apsu (o deus das águas doces). As águas doces de Abzu e as águas salgadas de Tiamat se misturaram, gerando a primeira geração de deuses.


O Conflito

Com o passar do tempo, as novas divindades tornaram-se barulhentas e inquietas, perturbando o descanso de Abzu.

Abzu planejou destruir os deuses jovens, mas o deus Ea (Enki) antecipou-se, lançou um feitiço de sono e o matou, transformando seu corpo na base do cosmos.

Arrasada pela morte do companheiro (e inicialmente hesitante), Tiamat assumiu a ira, gerou um exército de monstros e lutou contra as novas divindades. Ela acabou sendo derrotada e morta pelo deus Marduk, que usou seu corpo para criar o céu e a terra.


Kingu - Trabalhador ou Aquele que Trabalha

Após a morte de Apsu (o deus das águas doces), a deusa Tiamat (o oceano primordial de água salgada) decide se vingar dos deuses mais jovens. Ela escolhe Kingu entre os seus filhos para ser seu novo consorte e o comandante supremo do seu exército de monstros.

Para demonstrar sua autoridade máxima, Tiamat entrega a Kingu a Tábua dos Destinos (Dupe Shimati), um artefato de poder supremo que legitimava o governo sobre o universo e garantia que qualquer decreto dele se tornasse realidade. Após derrotar e dividir o corpo de Tiamat para criar a Terra e o Céu, Marduk captura Kingu. Marduk toma a Tábua dos Destinos do peito de Kingu, sela-a com seu próprio anel e a entrega ao deus Anu, consolidando o seu próprio reinado supremo.

Para aliviar os deuses de suas tarefas pesadas (como manter a ordem do universo e produzir comida), Marduk decide criar os seres humanos. Para que isso seja justo, um culpado deve ser sacrificado para pagar pela rebelião.

Os deuses apontam unanimemente Kingu como o verdadeiro instigador da guerra. Ele é executado, e o deus Ea (pai de Marduk) usa o sangue de Kingu misturado com a argila para moldar a humanidade. Portanto, na visão babilônica, os seres humanos carregam em si uma centelha divina, mas que tem origem no sangue de um deus rebelde e caótico.


Bašmu - Serpente Venenosa

Bašmu, a serpente venenosa, assumiu a forma de uma enorme cobra com chifres, antebraços e asas. Nesse monstro, vemos o antecedente direto da Hidra de Lerna da Grécia, sendo ambos representados pela mesma constelação no céu noturno, que é a Constelação de Hydra ou Constelação de Bašmu ou Mul.Dingir.MuŠ(original).

Descrito como um monstro marinho “com sessenta milhas duplas de comprimento” que dá por volta de 193,12 quilômetros de comprimento, seu apetite voraz causou muitos problemas e, eventualmente, o panteão de deuses mais jovens enviou Nergil, um encantador de serpentes, para subjugá-lo. Fundamentalmente, Bašmu parece representar os perigos do mar, um tema comum nos mitos, de Poseidon a Jörmungandr.

 

Ušumgallu - Grande Dragão ou Serpente Venenosa Suprema

Ušumgallu era uma combinação feroz de dragão, leão e demônio, mas evoluiu para algo muito maior nos mitos acádios e, posteriormente, babilônicos. Seu próprio nome passou a ser associado ao divino como um título honorífico, e Marduk, pai dos deuses mesopotâmicos e patrono da própria Babilônia, ficou conhecido como ušumgal kališ parakkī, “governante incomparável de todos os santuários”.

Nisso, vemos um tema comum no destino desses monstros. A maioria foi cooptada para servir ao panteão dos deuses, encontrando um novo significado nos mitos como divindades úteis e patronas de aspectos específicos da divindade.


Mušmaḫḫū - Serpente Exaltada

Outra serpente (há muitas delas nos mitos mesopotâmicos), Mušmaḫḫū também apresenta características de leões e pássaros. Aqui temos outro precursor da Hidra, já que Mušmaḫḫū parece ter tido sete cabeças, assim como o monstro morto por Hércules.

Existe até um paralelo com essa história nos primeiros mitos acádios. Diz-se que Ninurta, um deus guerreiro sumério (literalmente o "Senhor da Cevada"), derrotou uma serpente de sete cabeças, e temos até uma representação disso, esculpida em uma concha.


Mušḫuššu - Dragão Furioso 

O Mušḫuššu, a “serpente furiosa”, é outra combinação de animais, apresentando também características de leão, águia, chifres e crista. Como animal sagrado de Marduk, muitas representações desse monstro sobreviveram e podemos ter uma boa ideia de como os babilônios imaginavam a aparência do Mušḫuššu.

Mušḫuššu é mais famoso por estar representado no Portão de Ishtar, do século VI a.C., que ficava na Babilônia. Este icônico portão azul contém representações de muitos animais, mas Mušḫuššu está incluído como servo de Marduk.


Laḫmu - O Cabeludo

Agora, mudando um pouco o ritmo, temos Laḫmu, "o peludo", que é retratado de forma bastante direta como um homem com uma grande barba. A extensão de sua humanidade e os motivos para ele aparecer como um homem não são claros, mas parece ter resultado na percepção de Laḫmu como uma figura heroica.

Existiam muitos Laḫmu na tradição mesopotâmica antiga, onde eram associados à água e invocados como uma forma de proteção divina. Foi somente na tradição babilônica posterior que Laḫmu se tornou o primogênito de Tiamat e um ser muito mais divino e cosmológico.


Ugallu - Grande Demônio do Clima

Ugallu, a "Grande Besta do Tempo", era um deus com cabeça de leão que encontrou um nicho completamente novo além de seu papel original no panteão babilônico. Muitos amuletos foram descobertos na região, onde Ugallu parece ter funcionado como um talismã contra o perigo.

A ideia era que, se você se encontrasse em perigo e carregasse um desses talismãs, Ugallu apareceria para defendê-lo, pois Ugallu  controlava tempestades e doenças. Dado que Ugallu era um monstro enorme com cabeça de leão, isso presumivelmente poderia ser útil, embora faltem evidências concretas de que isso tenha realmente acontecido.


Uridimmu - Cão Louco, Cão Raivoso ou Leão Furioso

Uridimmu "Cão Louco", era uma figura humanoide com cabeça de cachorro ou leão. Aparentemente, ele está associado a animais raivosos e, em sua aparência, foi concebido para ser retratado como o oposto e a contraparte de Ugallu.

Ele é frequentemente esculpido em portas como um troféu para afastar o mal da casa, uma presença talismânica da mesma forma que Ugallu. Ele também é associado a doenças e enfermidades, e em tempos posteriores parece ter surgido um culto em torno dele, que perdurou até o Império Persa.


Girtablilu - Homem-Escorpião

Seres com torso humano e corpo de escorpião que guardavam os portões do submundo.

Criado inicialmente por Tiamat, assim como Laḫmu, eventualmente surgiram muitos Girtablullû, e, como os outros monstros, eles encontraram um novo papel como servos de Shamash, o antigo deus sol da Mesopotâmia.

Nesse papel eles aparecem na Epopeia de Gilgamesh, onde guardam os portões de Shamash na grande montanha de Mashu, coberta de cedros. Gilgamesh atravessa o portão e o túnel, chegando ao antigo submundo mesopotâmico de Kumugi (Kurnugi) a Erṣet lā târ ou "A Terra do Não Retorno".


Ūmu Dabrūtu - Tempestade Violenta

O monstro das tempestades violentas, nem sequer sabemos qual era a aparência de Umū dabrūtu, pois nada sobreviveu, embora a hipótese mais provável seja a de uma figura composta com leões, águias, touros, serpentes e cães. Contudo, sabemos o destino de Umū dabrūtu: destruído por Marduk, como os outros, este monstro foi forçado a servir a Babilônia.

Esses monstros, uma vez derrotados, tornaram-se símbolos apotropaicos, ou seja, guardiões contra o infortúnio e totalmente benevolentes para os babilônios. Presume-se que a presença de Umū dabrūtu oferecia proteção contra o mau tempo.


Kuli Ana - Kulullû - Peixe do Céu ou Homem Peixe, Mulher Peixe

Kulull, termo genérico para o povo do mar, tanto tritões quanto sereias, seria então um híbrido de homem e peixe, assemelha-se a um tritão e, aparentemente devido à sua associação com boa sorte e prosperidade, tornou-se uma figura duradoura no mito babilônico, com inúmeras representações que sobreviveram até os dias de hoje. De fato, Kulullû é a representação mais antiga de um tritão de que temos conhecimento.

Kulullû aparece em toda parte, em afrescos de palácios e marcos divisórios que delimitavam a antiga Babilônia, com muitas estatuetas do monstro também sobrevivendo até os dias de hoje. Eventualmente, surgem múltiplos Kulullû, e em mitos posteriores, há até mesmo Kuliltu ou mulheres peixe.


Kusarikku - Homem Touro

O Kusarikku, o homem touro, precursor óbvio do Minotauro da mitologia grega. No entanto, esses monstros tinham braços, torso e cabeça de humano, e orelhas, chifres e partes inferiores de touro .

Em mitos posteriores, Kusarikku, após ser destruído por Marduk, passou a ser associado ao deus sol Shamash em seu papel como deus da justiça, sendo um dos dois monstros de Tiamat que servem especificamente a esse deus, juntamente com Girtablullû. Ele é até mesmo mencionado em uma canção criada para acalmar uma criança que chora.