A afirmação de que "não houve conquista de Canaã" reflete uma das maiores mudanças de paradigma na arqueologia bíblica e na historiografia moderna. A narrativa tradicional do livro de Josué, que descreve uma invasão militar rápida, brutal e completa de Canaã pelos israelitas, não encontra sustentação nas evidências arqueológicas contemporâneas.
Não houve uma invasão militar súbita e em larga escala como descrita no Livro de Josué.
Escavações em locais estratégicos mencionados no livro de Josué (como Jericó, Ai, Gibeão) mostram que, no final da Idade do Bronze (aprox. 1200 a.C., a época provável da "conquista"), essas cidades não estavam fortificadas e estavam desabitadas.
Não há evidências de uma cultura estrangeira que invadiu e substituiu a cultura cananeia de forma súbita. A cultura material (cerâmica, habitações) dos primeiros assentamentos "israelitas" nas terras altas é, na verdade, uma evolução direta da cultura cananeia local.
Jericó por exemplo, não teve muros em pé no tempo em que a conquista teria ocorrido.
A maioria dos historiadores e arqueólogos atuais (como Israel Finkelstein e Neil Asher Silberman) defende que o surgimento de Israel foi um processo interno e gradual, não uma invasão externa.
Os "israelitas" eram, em sua maioria, cananeus que abandonaram as cidades-estados decadentes nas planícies e se mudaram para as colinas centrais de Canaã, formando novas comunidades agropastoris, os hebreus (israelitas) surgiram de dentro da própria sociedade cananeia, de forma gradual, em vez de serem invasores externos.
O processo de se tornar um povo distinto ("Israel") levou séculos, ocorrendo durante o Período dos Juízes, e não foi uma guerra rápida de 7 anos
A narrativa de Josué é vista como um relato teológico composto séculos depois, provavelmente no reinado de Josias (séc. VII a.C.), para unificar o povo e justificar a reforma religiosa, transformando um processo lento de ocupação em uma história de "guerra santa" divina.
Embora não tenha havido uma conquista unificada, arqueólogos não descartam que tenham ocorrido conflitos locais e isolados, mas não na magnitude descrita na Bíblia.
As Cartas de Amarna (séc. XIV a.C.) mencionam grupos chamados Habiru ou Apiru que causavam desordem na região, mas historiadores debatem se eles eram os antepassados dos hebreus ou apenas bandidos/mercenários da época.
A Estela de Merneptah (aprox. 1205 a.C.) é a primeira menção extra-bíblica a "Israel", indicando que eles já eram um povo consolidado na terra, mas não descreve uma conquista.
A arqueologia moderna aponta para um surgimento de Israel como uma comunidade autóctone dentro de Canaã, povo que da qual, eles faziam parte e não uma conquista militar externa de povos vindo do deserto.
O que houve foi um processo de infiltração pacífica ou revolta social interna ao longo de séculos, transformando a estrutura política da região de cidades-estados para uma identidade tribal.
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