O surgimento dos Habiru ou 'Apiru, remonta o final de três mil anos a. C. no Crescente Fértil, abrangendo Mesopotâmia, Síria, Canaã e Egito. Não eram um grupo unificado, como dizem ser os Hebreus, mas sim, um fenômeno social e econômico, caracterizando pessoas marginalizadas que operavam fora da estrutura formal das cidades-estados da época.
Definição do Termo
O termo ʿApiru aparece em várias formas ortográficas em línguas antigas do Oriente Próximo, refletindo adaptações fonéticas e convenções específicas de escrita em diferentes contextos culturais.
Habiru ou 'Apiru encontrado em documentos Acádios, Assírios, Amoritas ḫa-bi-ru/ḫa-pi-ru.
Em Egípcio (Khemet) ʿPr.w ou ʿApiru, nas cartas de Amarna 1360–1332 a.C.
Hititas e Hurritas de contextos anatólios empregam variantes como Hapiri.
Em Ugarítico e Cananeu Aprm ou Habiri encontradas na escrita cuneiforme alfabética
Em Sumério SA. GAZ 𒊓𒄤 "saqueador", "salteador" ou "vagabundo" "trabalhadores vinculados ou tropas irregulares" O logograma é composto pelos sinais SA (corda/rede) e GAZ (esmagar/matar).
Os primeiros atestados dessas formas datam do século XVIII a.C. em textos Mari, onde Habiru surge pela primeira vez, seguido por ʿApiru em fontes egípcias por volta do século XIV a.C.
Fontes Históricas
Os primeiros atestados dos ʿApiru, grafados como ḫabiru em textos cuneiformes acádios, aparecem em documentos do século XVIII a.C. dos sítios de Mari e Alalakh, no norte da Mesopotâmia, onde são descritos como grupos organizados que atuavam como mercenários ou trabalhadores. Nos arquivos de Mari, que compreendem mais de 20.000 tabletes.
◄Mari foi uma antiga cidade-estado semita e um importante reino localizado no leste da atual Síria (Tell Hariri), na margem oeste do rio Eufrates. É particularmente famosa por seu último período de florescimento sob uma dinastia amorita, antes de ser destruída por Hamurabi da Babilônia por volta de 1759 a.C.
◄Alalakh é atual Tell Atchana, foi uma importante cidade-estado da Idade do Bronze, localizada no vale do rio Orontes, na atual província de Hatay, no sudeste da Turquia. Embora situada na periferia da Mesopotâmia propriamente dita, ela manteve laços culturais, políticos e econômicos profundos com as civilizações mesopotâmicas ao longo de milênios.
Os ʿApiru são frequentemente mencionados em correspondências reais como guerreiros estrangeiros ou trabalhadores migrantes integrados às forças locais, como um contingente relatado de aproximadamente 2.000 soldados ʿApiru envolvidos em um ataque à cidade de Yahmumun. Esses textos os retratam como forasteiros móveis que podiam ser recrutados para campanhas militares ou obrigados a servir, muitas vezes sob a supervisão de governantes locais.
A cidade de Yahmumun os 'Apiru foi brevemente perdida, mas os registros indicam que ela retornou rapidamente ao controle de Hāya-sūmû, um governante local aliado ou vassalo na esfera de influência de Mari.
Fontes babilônicas antigas do início do segundo milênio a.C. ilustram ainda mais o envolvimento dos ʿApiru nas esferas jurídica e econômica, particularmente por meio de contratos que documentavam a escravidão por dívida ou o serviço militar obrigatório. Nos arquivos de Larsa, registros administrativos detalham transações em que indivíduos ou famílias ʿApiru eram dados como garantia para empréstimos ou contratados para tarefas que exigiam muito trabalho braçal, refletindo sua posição social precária como dependentes em busca de patrocínio. O logograma sumério SA. GAZ 𒊓𒄤, amplamente interpretado como denotando ʿApiru nesses contextos, aparece em tais documentos para significar esses trabalhadores vinculados ou tropas irregulares.
Durante o período assírio médio (séculos XIV a XII a.C.), textos cuneiformes de Assur e regiões vizinhas descrevem os ʿApiru como saqueadores e ladrões seminômades ou pessoas deslocadas atuando em zonas fronteiriças, frequentemente entrando em conflito com comunidades sedentárias ou servindo como forças auxiliares (mercenários). Listas administrativas dessa época catalogam os ʿApiru como cativos capturados em escaramuças de fronteira ou como grupos aliados em listas militares, ressaltando seu papel como elementos transitórios na expansão assíria. O termo 𒊓𒄤 SA.GAZ reaparece em inscrições reais, como as de Samsi-Adad I c. 1808–1776 a.C., para rotular agitadores estrangeiros ou disruptores foras da leis e forasteiros nômades que ameaçavam o controle territorial. Nos registros mesopotâmicos, os ʿApiru recebem mais de 210 menções no total, com aparições particularmente frequentes — na casa das dezenas — apenas em cartas de Mari, onde aparecem em inventários de cativos, recrutas ou aliados temporários.
Quem eram os 'Apiru?
Os Habiru ou 'Apiru eram a ralé e a gentalha da sociedade. Eles surgiram da instabilidade social. Eram frequentemente camponeses que fugiam de dívidas, servidão, altos impostos ou conflitos nas cidades-estados cananeias e mesopotâmicas. Refere-se a nômades, mercenários, ladrões, bandidos, escravos, prostitutas(os), criminosos ou pessoas que abandonaram a sociedade urbana. Literalmente, a raiz pode estar ligada a "poeira" "sujeira" "chiqueiro" "impuro" "excremento", indicando status de despossuídos, empobrecidos, miseráveis, desvalidos, indigentes.
Carol Redmount que escreveu Bitter Lives: Israel in and out of Egypt (Vidas Amargas: Israel dentro e fora do Egito), em The Oxford History of the Biblical World (A História de Oxford do Mundo Bíblico) concluiu que o termo "Habiru" não teria nenhuma afiliação étnica comum, que não falam uma língua comum, e que geralmente tinham uma existência marginal e às vezes ilegal nas margens da sociedade. Ela define os vários Apiru/Habiru como uma "classe social mais baixa, mal definida, composta por elementos de mudança e a pessoas sem vínculos seguros para as comunidades assentadas" em que se refere como "foras da lei, mercenários e escravos" nos textos antigos. Nesse sentido, Habirus são mais uma designação social que étnica ou tribal.
Cartas de Amarna
As cartas de Amarna c. 1360–1332 a.C., correspondência diplomática Egípcia em Acádico, descrevem os Apiru/Habiru como grupos renegados, nômades ou mercenários que causavam instabilidade, tomavam cidades-estados e atacavam vassalos egípcios em Canaã, gerando pedidos desesperados de socorro por governadores locais.
As Cartas de Amarna são tabuletas cuneiformes que relatam a crise no Levante sob domínio egípcio, frequentemente mencionando os Apiru/Habiru (ou Habiru) como grupos rebeldes, saqueadores ou mercenários que desestabilizavam as cidades-estado cananeias. Governadores vassalos imploravam ao Faraó Amenófis III e IV por tropas para conter a ameaça Apiru.
Cartas como (EA 286-290) de Abdi-Heba de Jerusalém descrevem os Apiru atacando cidades, tomando terras e alinhando-se com governantes locais rebeldes, como Labaya de Siquém.
O período demonstra instabilidade, com os Apiru agindo como um elemento de disrupção, forçando os governantes leais ao Egito a pedir ajuda desesperadamente contra a "terra de Jerusalém" e outras regiões dominadas por eles.
As cartas de Amarna, cerca de 300, numeradas até EA 382, são uma correspondência de meados do século XIV a.C., aproximadamente de 1350 a.C. a 1375 a. C.
O conjunto inicial de cartas foi encontrado na cidade de Akhenaton , no piso do Escritório de Correspondência do Faraó; outras foram encontradas posteriormente, ampliando o acervo.
Eram Hebreus?
Embora o termo seja frequentemente debatido em relação aos Hebreus bíblicos, os Apiru nas cartas de Amarna são uma categoria sociológica de marginalizados fora da lei, sem pátria em vez de um grupo étnico único.
Os 'Apiru não são Hebreus, embora Habiru pareça filologicamente similar a "Hebreu" ‘Ibri, o termo Habiru é uma designação de classe social, e não de etnia. No entanto os Hebreus bíblicos tenham sido, em um dado momento histórico, parte desse grupo social mais amplo de nômades marginalizados, os Hebreus no sentido de origem étnica única, não vieram estritamente dos Apiru como povo. Os Hebreus, como todos os povos, nasceram de um ajuntamento de vários povos, na quele período específico, da grande massa de Cananeus, povos nômades diversos e povos vizinhos e também da grande massa dos 'Apiru.
Sua presença é mais fortemente registrada entre 1800 a.C. e 1200 a.C..
Em suma, os Habiru surgiram da desagregação social da Idade do Bronze, formando grupos diversos sem identidade étnica única, conhecidos por sua vida nômade e, muitas vezes, por serem trabalhadores braçais ou mercenários no Egito e Canaã.
Eram Cananeus?
Os Apiru ou Habiru/Hapiru não eram um grupo étnico, como os Cananeus, mas sim um termo descritivo usado no antigo Oriente Próximo para um grupo social ou classe de pessoas marginalizadas, sem pátria fixa.
Embora muitos Apiru vivessem na região de Canaã durante o período das Cartas de Amarna (século XIV a.C.) e atuassem na área, eles não eram etnicamente cananeus, mas um grupo diverso de nômades de várias etnias, mercenários, escravos e rebeldes que operavam à margem da sociedade sedentária, vindos de várias nacionalidades.
Nas cartas de Amarna, reis Cananeus reclamavam ao Faraó que os Apiru estavam atacando suas cidades e desestabilizando o controle egípcio na região. No entanto, os registros mostram que os Apiru eram uma mistura de pessoas, incluindo Semitas de toda sorte, Indo-Europeus, Hurritas, Cassitas, Mitanos, etc.
Portanto, os Apiru na Canaã bíblica eram um fenômeno social de marginalização, e não uma tribo cananeia específica.

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