O mundo Árabe é conhecido pela profusão e disseminação do saber e do conhecimento. Para tanto, eles são conhecidos por suas grandes universidades, claro que eles não são os criadores das primeiras universidades, mas com certeza, são os grandes influenciadores delas.
As primeiras universidades que temos notícias vem da Suméria, quando as E-Dubas ou Casas das Tabuletas, desde daquele período já eram centros universitários riquíssimos em pesquisas e pela disseminação do saber e do conhecimento, temos depois as grandes universidades Persas e Chinesas e, para resumir a história, temos os grandes centros universitários do mundo Árabe.
As Universidades do Mundo Árabe
As primeiras universidades do mundo árabe, muitas vezes chamadas de Madrasas, surgiram séculos antes das europeias como centros de estudos superiores. Para se ter uma ideia do atraso do ensino europeu, a Universidade de Bolonha que é a primeira universidade da Europa, só aparece no ano de 1088, inicialmente focada no estudo do Direito. Isso nos dá 229 anos de diferença da primeira universidade do mundo Árabe que aparece no ano de 859.
►Universidade Al-Quaraouiyine (Al-Karaouine) - Fez, Marrocos (859 d.C.): A mais notável, a primeira universidade do mundo Árabe, fundada por Fatima al-Fihri. Ela é considerada pela UNESCO e pelo Guinness World Records a universidade mais antiga em funcionamento contínuo do mundo.
►Universidade Ez-Zitouna - Túnis, Tunísia (c. 737 d.C.): Reconhecida como uma das mais antigas, fundada como madrasa e evoluindo para universidade, sendo um farol de conhecimento no norte da África.
►Universidade Al-Azhar - Cairo, Egito (970-972 d.C.): Criada inicialmente como um centro para estudos teológicos e jurídicos islâmicos, expandindo-se para se tornar uma universidade de abrangência mundial.
Dinastia Omíada 661-750 d.C.
A duração da Dinastia Omíada durou 89 anos. Foi a primeira grande dinastia do califado islâmico, estabelecida por Moauia I com capital em Damasco. Transformaram o califado em um império hereditário, expandindo o território desde a Península Ibérica até o Paquistão. Conhecidos pela centralização política e importantes construções, foram derrubados pelos Abássidas em 750, mas continuaram na Península Ibérica (Córdova) até 1031.
Após a primeira "Fitna" (guerra civil), Moauia I, governador da Síria, assumiu o poder em 661, transferindo a capital de Kufa para Damasco. Sob o comando de califas como Valid I, a dinastia alcançou sua extensão máxima, conquistando o norte da África, partes do Império Bizantino e a Península Ibérica (a partir de 711).
Abdelmalique (685-705) centralizou o governo, arabizou a administração e criou a moeda oficial. A arquitetura destacou-se com a Grande Mesquita de Damasco e a Cúpula da Rocha em Jerusalém.
Discriminação
Essa dinastia fazia uma clara distinção entre árabes e não árabes, estruturando seu império com base na supremacia árabe, o que gerou grandes tensões sociais e políticas. Durante este período, o califado funcionou mais como um império árabe do que como uma comunidade universal de muçulmanos.
♣Mawali (Convertidos não árabes): Muçulmanos não árabes (chamados de mawali, como persas, berberes e outros) eram frequentemente tratados como cidadãos de segunda classe, mesmo após a conversão ao Islã. Eles enfrentavam discriminação social, exclusão de cargos administrativos elevados e, em alguns casos, continuavam a pagar impostos exigidos de não muçulmanos (jizya). Para se integrar plenamente à sociedade omíada, não bastava converter-se; era necessário adotar o idioma árabe e ser adotado em uma linhagem tribal árabe como cliente (mawla).
♣Queda: A aristocracia árabe detinha o poder político, militar e a maior parte da riqueza, enquanto os povos conquistados formavam a base tributária.
Esse sistema discriminatório criou descontentamento generalizado entre os muçulmanos não árabes, que acabaram apoiando a Revolução Abássida, que derrubou os Omíadas em 750 d.C. com a promessa de igualdade entre todos os muçulmanos.
Embora a política geral fosse discriminatória, alguns califas, como Omar II (Umar ibn al-Aziz), tentaram reformar o sistema, isentando os mawali da jizya e promovendo maior igualdade, mas essas políticas foram revertidas por seus sucessores.
A dinastia enfrentou revoltas internas (como xiitas e berberes) e a crescente oposição dos Abássidas, resultando na Batalha do Rio Zab em 750, onde foram derrotados.
Um sobrevivente omíada, Abderramão I, fugiu para a Península Ibérica, estabelecendo um emirado independente em 756, que mais tarde se tornou o Califado de Córdova.
Dinastia Abássida 750-1258
A duração da Dinastia Abássida durou 508 anos. Foi a terceira dinastia islâmica, fundada pelos descendentes de Abbas, tio de Maomé. Com capital em Bagdá, o império viveu a "Era de Ouro do Islã", marcada por avanços científicos, culturais e econômicos, prometendo um governo mais inclusivo para não árabes (como os persas) e xiitas Chegou ao fim após o declínio político e a invasão mongol.
O califa Al-Mansur transferiu a capital de Damasco para Bagdá, construindo uma cidade estratégica que se tornou um grande centro intelectual e comercial. Durante o auge, particularmente sob Harun al-Rashid, houve grande prosperidade cultural, avanços na medicina, matemática e astronomia, e tradução de textos clássicos.
A dinastia foi uma civilização árabe com forte influência persa na administração, valorizando a ciência e o comércio. O período é frequentemente lembrado como o auge da civilização islâmica medieval em termos de desenvolvimento intelectual e esplendor urbano.
Patronos da Cultura e a Era de Ouro do Islã
A Dinastia Abássida é amplamente reconhecida como a "Era de Ouro do Islã", um período em que os califas agiram como grandes mecenas — patrocinadores e incentivadores — da cultura, ciência, arte e literatura. Ao estabelecerem Bagdá como sua capital, transformaram a cidade em um centro mundial de conhecimento, onde o saber persa, grego, indiano e árabe se misturaram.
Califas como Harun al-Rashid e Al-Ma'mun incentivaram fortemente os estudos de astronomia, matemática, medicina e poesia, conferindo status e recursos a estudiosos. Adotaram e espalharam a tecnologia chinesa de fabricação de papel, o que tornou os livros mais acessíveis e estimulou a produção literária e científica.
O apoio financeiro estatal permitiu progressos monumentais em áreas como astronomia, medicina, matemática e química. Bagdá atraiu intelectuais de todo o império, criando um ambiente de troca cultural sem precedentes.
A introdução da fabricação de papel (técnica aprendida com os chineses) sob o domínio abássida revolucionou a cultura, tornando os livros mais acessíveis e impulsionando a alfabetização e a produção literária. Diferente de dinastias anteriores, os Abássidas promoveram uma sociedade inclusiva, onde persas, judeus e cristãos ocupavam cargos importantes e contribuíam ativamente para o florescimento intelectual da corte.
Califas que se Destacaram como Mecenas
►Al-Mansur: O fundador de Bagdá, que iniciou o movimento de valorização das ciências.
►Harun al-Rashid: Imortalizado em As Mil e Uma Noites, seu reinado marcou o auge do luxo e do patrocínio às artes e ciências.
►Al-Mamun: O maior entusiasta da Casa da Sabedoria, que transformou a tradução de textos gregos em uma missão de estado.
Cidade de Bagdá
A cidade de Bagdá foi fundada em 30 de julho de 762 d.C. pelo califa Al-Mansur (segundo califa abássida), da dinastia Abássida. A nova capital foi construída às margens do rio Tigre com um design circular estratégico, tornando-se um grande centro intelectual, comercial e cultural, conhecido como a "Cidade da Paz".
Objetivo, criar uma nova sede para o Califado Abássida, substituindo a antiga capital, referida como Madinat al-Salam ("Cidade da Paz"). Bagdá prosperou rapidamente, tornando-se um dos maiores centros urbanos do mundo, com foco na ciência e sabedoria, especialmente com a criação da Casa da Sabedoria (Bayt al-Hikma).
Ao transferirem a capital para Bagdá, os califas abássidas transformaram a cidade no maior centro intelectual do mundo, financiando estudiosos, tradutores e artistas de diversas origens.
Bayt al-Hikma a Casa da Sabedoria
A Casa da Sabedoria (Bayt al-Hikma) atingiu o seu apogeu sob o governo de Al-Ma'mun. Embora tenha sido fundada por seu pai, Harun al-Rashid, foi Al-Ma'mun quem a transformou de uma biblioteca privada em um centro formal de pesquisa científica e tradução que mudaria o curso da história.
Al-Ma'mun enviou emissários a lugares distantes, como o Império Bizantino, para coletar manuscritos gregos raros. Ele pagava aos tradutores o peso das obras traduzidas em ouro, incentivando a conversão de textos de Aristóteles, Ptolomeu e Hipócrates para o árabe.
A "Visão" de Aristóteles: Diz a lenda que Al-Ma'mun decidiu investir tanto em filosofia após um sonho em que conversava com Aristóteles. O filósofo teria lhe dito que a razão humana e a revelação divina não eram contraditórias.
Foi dentro da Casa da Sabedoria e sob o patrocínio de Al-Ma'mun que tivemos alguns dos grandiosos pensadores do mundo árabe.
Reunião de Sábios
A Casa da Sabedoria reuniu as mentes mais brilhantes da época, vindas de diferentes origens (árabes, persas, cristãos e judeus), trabalhando juntas sob o patrocínio dos califas.
►Al-Khwarizmi: O pai da Álgebra. Ele escreveu o Kitab al-Jabr, que deu nome à disciplina, e introduziu o sistema de numeração decimal e o conceito do zero no mundo islâmico.
►Os Irmãos Banu Musa (Jafar, Ahmad e al-Hasan): Três irmãos especializados em engenharia e astronomia. Ficaram famosos pelo "Livro de Dispositivos Engenhosos", que descrevia cerca de 100 máquinas e autômatos (robôs primitivos).
►Hunayn ibn Ishaq: O maior tradutor da instituição. Médico cristão que traduziu quase todo o cânone de Galeno e Hipócrates do grego para o árabe, padronizando a terminologia médica.
►Al-Kindi: Conhecido como "O Filósofo dos Árabes". Foi o primeiro a tentar reconciliar a filosofia grega (Aristóteles e Platão) com a teologia islâmica.
►Al-Battani: Astrônomo que refinou as medições de Ptolomeu e calculou a duração do ano solar com uma precisão incrível para o século IX.
►Thabit ibn Qurra: Matemático e astrônomo que trabalhou com geometria não euclidiana e traduziu obras fundamentais de Arquimedes e Apolônio.
►Qusta ibn Luqa: Tradutor e cientista que traduziu obras gregas de matemática e medicina.
►Al-Hajjaj ibn Yusuf ibn Matar: Um dos primeiros tradutores dos Elementos de Euclides.
A Queda e o Fim da Era de Ouro do Mundo Árabe
O fim da Era de Ouro do Mundo Árabe foi causada por uma combinação de invasões externas catastróficas, instabilidade política interna e uma mudança no pensamento intelectual.
O golpe mais simbólico e devastador foi a invasão estrangeira que destruiu os principais centros de conhecimento da época.
♣Invasão Mongol (1258): O cerco e a queda de Bagdá pelas tropas de Hulagu Khan são frequentemente citados como o marco final dessa era. A destruição da Casa da Sabedoria e das bibliotecas públicas resultou na perda de inúmeros manuscritos científicos e filosóficos.
♣As Cruzadas: As guerras religiosas no Levante desestabilizaram as rotas comerciais e desviaram recursos que antes eram investidos em ciência e cultura para o esforço de guerra.
♣Guerra de Reconquista: Na Península Ibérica, a queda de centros como Córdoba e, por fim, Granada (1492) para os reinos cristãos marcou o fim do florescimento cultural islâmico no Ocidente.
Al-Ghazali e a Luta Contra a Filosofia
Al-Ghazali via a filosofia de inspiração grega como uma ameaça à teologia islâmica, particularmente em temas sobre a essência de Deus e a criação. Al-Ghazali foi contra certos filósofos, especialmente Avicena e Al-Farabi, porque acreditava que a dependência excessiva da filosofia grega (aristotélica) levava à heresia e contradizia dogmas essenciais do Islã. Em sua obra A Incoerência dos Filósofos, ele argumentou que a metafísica deles não tinha base racional sólida e rejeitou a ideia de causalidade necessária, defendendo que tudo ocorre por vontade divina.
Ele argumentou que, embora a lógica e a matemática fossem úteis, os filósofos falhavam quando tentavam aplicar a razão humana a questões metafísicas que exigiam revelação (revelação igual acontece no mundo evangélico).
Al-Ghazali rejeitou a ideia de que causas materiais produzem efeitos necessários (ex: fogo queima). Para ele, as conexões são criadas diretamente por Deus, e não por uma necessidade lógica.
Tahāfut al-Falāsifa - A Incoerência dos Filósofos
Em sua obra-prima, "A Incoerência dos Filósofos" Tahāfut al-Falāsifa de 1095 que é um marco na teologia islâmica, ele ataca a filosofia grega ensinada na cultura árabe.
O livro em si, não é um manifesto "anticiência", mas um ataque ao que ele via como a arrogância dos filósofos em tentar provar Deus e a criação apenas pela razão, sem a revelação, a revelação aqui, é a mesma revelação que acontece no mundo evangélico.
Al-Ghazali, junto com sua obra Tahāfut al-Falāsifa - A Incoerência dos Filósofos foram mais um dos fatores que incentivaram a queda da Era de Ouro do mundo Árabe.
O Califado Abássida, que unificava o império, começou a perder força muito antes de sua queda total, gerando a Fragmentação Política e Crise Econômica.
Perda de Controle Territorial: Governantes locais em regiões como o Egito e o Norte da África começaram a declarar independência, fragmentando o poder central.
Decadência das Instituições: Conflitos internos entre facções religiosas e políticas enfraqueceram a estabilidade necessária para o progresso intelectual.
Peste Negra: No século XIV, a peste bubônica devastou a população do Oriente Médio, dificultando qualquer tentativa de recuperação econômica e social após as invasões mongóis.

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