Seguidores

sábado, 31 de janeiro de 2026

CAIM E ABEL NÃO É UM MITO ORIGINAL BÍBLICO

 


O mito bíblico de Caim e Abel não é um conto original como se pensa, na verdade, é uma compilação do conto original sumeriano. Esse conto original da Suméria se chama "Bēl Iki U Palgi" um poema (conto) que fala da história de dois deuses, Dumuzi e Enkimdu, que disputam o amor da deusa Inanna. O texto foi originalmente publicado sob o título "Inanna prefere o agricultor" por Samuel Noah Kramer em 1944. 

O significado do nome Bēl Iki U Palgi é o seguinte:

Bēl ou Bêl: A palavra Suméria Bēlu, significa "Senhor", "Mestre" ou "Dono". É um título de honra aplicado a divindades principais, como Marduk na Babilônia e Enlil em períodos anteriores.

Iki - Ikki - Asku ou Iku: Refere-se a um dique, fosso ou barreira de terra usada para controle de águas, é uma unidade de área (um campo, aproximadamente 3.600 metros quadrados).

O termo "AŠ-IKU" era usado para descrever o Quadrado de Pégaso na astronomia babilônica, que era associado ao deus Enki (o deus da sabedoria, da água doce e da magia).

U: É a conjunção coordenativa acadiana para "e".

Palgi ou Palgu: Significa "canal" ou riacho artificial, essencial para os sistemas de irrigação mesopotâmicos.

O conto "Bēl Iki U Palgi", também é conhecido como "A Disputa entre o Pastor e o Agricultor" ou "A Corte de Inanna", não é o termo original da época sumeriana e, sim, um termo moderno. 

Estes textos foram escritos em tabletes de argila (barro) por volta de 4 mil a.C. (data imprecisa, provavelmente é bem mais antigo), pois estes textos refletem as tensões sociais e econômicas na antiga Mesopotâmia entre os criadores de gado seminômades e os agricultores sedentários. 

No mito, Dumuzi, o pastor, sente-se superior, mas Enkimdu, o agricultor, defende a importância dos seus diques e canais de irrigação. O agricultor propõe amizade e cooperação, oferecendo recursos (trigo, grãos) ao pastor. Inanna escolhe o agricultor, preferindo a estabilidade que ele oferece. 

Inanna prefere inicialmente o agricultor, elogiando sua capacidade de fornecer grãos e linho. Dumuzi a desafia, argumentando que cada presente do agricultor pode ser superado por um produto pastoril (ex: leite em vez de cerveja, lã em vez de linho).

Após uma troca de "insultos" e demonstrações de valor, Inanna é convencida (muitas vezes com a ajuda de seu irmão Utu) a escolher o pastor Dumuzi. Ao final, os rivais se reconciliam e Enkimdu oferece presentes para o banquete de casamento.


Influência Bíblica de Caim e Abel

Os debates refletem os conflitos reais por recursos (terra, água) entre a população nômade que precisava de pasto e os agricultores sedentários que precisavam de terra para cultivo. O mito valoriza a tecnologia agrícola (a enxada/arado) sobre a vida pastoral, no entanto, destaca a necessidade de ambos para o funcionamento da sociedade suméria. 

É nesse contexto que surge a versão mitológica oral do conto de Caim e Abel, que depois será escrito na Bíblia no período babilônico (não existiu império babilônico).


O Mito

A parte inteligível do poema começa com um discurso do deus-sol Utu para sua irmã Inanna:

"Ó minha irmã, o pastor tão rico,

ó donzela Inanna, por que não te favoreces?

Seu azeite é bom, seu vinho de tâmaras é bom,

o pastor, tudo o que sua mão toca é brilhante,

ó Inanna, a rica Dumuzi...,

cheia de joias e pedras preciosas, por que não te favoreces?

Ele comerá seu bom azeite contigo,

a protetora do rei, por que não te favoreces?"


Mas Inanna se recusa:

"Não me casarei com o pastor rico,

em seu novo... Não caminharei ,

em seu novo... Não proferirei louvor algum ,

eu, a donzela, me casarei com o agricultor, o

agricultor que faz as plantas crescerem em abundância,

o agricultor que faz o grão crescer em abundância."


Segue-se uma pausa de cerca de doze versos, na qual Inanna continua a apresentar as razões de sua preferência. Em seguida, o deus-pastor Dumuzi se aproxima de Inanna, protestando contra sua escolha — uma passagem particularmente notável por sua estrutura fraseológica intrincada e eficaz:

"O fazendeiro tem mais do que eu, o fazendeiro tem mais do que eu, o fazendeiro tem mais do que eu?

Se ele me der sua roupa preta, eu lhe dou, o fazendeiro, minha ovelha preta;

se ele me der sua roupa branca, eu lhe dou, o fazendeiro, minha ovelha branca;

se ele me servir seu primeiro vinho de tâmara, eu lhe servirei, o fazendeiro, meu leite amarelo

; se ele me servir seu bom vinho de tâmara, eu lhe servirei, o fazendeiro, meu leite de tâmara

; se ele me servir seu vinho de tâmara 'de tirar o fôlego', eu lhe servirei, o fazendeiro, meu leite borbulhante;

se ele me servir seu vinho de tâmara misturado com água , eu lhe servirei, o fazendeiro, meu leite vegetal

; se ele me der suas boas porções, eu lhe dou, o fazendeiro, meu leite de tâmara

; se ele me der seu bom pão, eu lhe dou, o fazendeiro, meu queijo com mel

; se ele me der seus feijões pequenos, eu lhe dou meus queijos pequenos;

mais do que ele pode" Ele come mais do que pode beber,

eu lhe derramo muito azeite, eu lhe derramo muito leite;

mais do que eu, o lavrador, o que há de mais do que eu?"


Seguem-se quatro linhas cujo significado não é claro; então começa a tentativa de apaziguamento de Enkimdu:

"Tu, ó pastor, por que inicias uma contenda?

Ó pastor, Dumuzi, por que inicias uma contenda?

Eu contigo, ó pastor, eu contigo, por que comparas?

Deixa as tuas ovelhas pastarem na erva da terra, pág. 103 Deixa as tuas ovelhas pastarem

nos meus prados , Deixa as tuas ovelhas comerem grãos nos campos de Zabalam, Deixa todos os teus currais beberem a água do meu rio Unun."


[O parágrafo continua] Mas o pastor permanece irredutível:


"Eu, o pastor, no meu casamento não entro, ó agricultor, como meu amigo,

ó agricultor, Enkimdu, como meu amigo, ó agricultor, como meu amigo, não entro."

[O parágrafo continua] Então o fazendeiro se oferece para trazer-lhe todo tipo de presentes:


"Trigo eu te trarei, feijão eu te trarei,

feijão de... eu te trarei,

a donzela Inanna ( e ) tudo o que te agradar ,

a donzela Inanna... eu te trarei."

E assim termina o poema, com a aparente vitória do deus-pastor Dumuzi sobre o deus-agricultor Enkimdu.


Nenhum comentário:

Postar um comentário