O mito bíblico de Caim e Abel não é um conto original como se pensa, na verdade, é uma compilação do conto original sumeriano. Esse conto original da Suméria se chama "Bēl Iki U Palgi" um poema (conto) que fala da história de dois deuses, Dumuzi e Enkimdu, que disputam o amor da deusa Inanna. O texto foi originalmente publicado sob o título "Inanna prefere o agricultor" por Samuel Noah Kramer em 1944.
O significado do nome Bēl Iki U Palgi é o seguinte:
Bēl ou Bêl: A palavra Suméria Bēlu, significa "Senhor", "Mestre" ou "Dono". É um título de honra aplicado a divindades principais, como Marduk na Babilônia e Enlil em períodos anteriores.
Iki - Ikki - Asku ou Iku: Refere-se a um dique, fosso ou barreira de terra usada para controle de águas, é uma unidade de área (um campo, aproximadamente 3.600 metros quadrados).
O termo "AŠ-IKU" era usado para descrever o Quadrado de Pégaso na astronomia babilônica, que era associado ao deus Enki (o deus da sabedoria, da água doce e da magia).
U: É a conjunção coordenativa acadiana para "e".
Palgi ou Palgu: Significa "canal" ou riacho artificial, essencial para os sistemas de irrigação mesopotâmicos.
O conto "Bēl Iki U Palgi", também é conhecido como "A Disputa entre o Pastor e o Agricultor" ou "A Corte de Inanna", não é o termo original da época sumeriana e, sim, um termo moderno.
Estes textos foram escritos em tabletes de argila (barro) por volta de 4 mil a.C. (data imprecisa, provavelmente é bem mais antigo), pois estes textos refletem as tensões sociais e econômicas na antiga Mesopotâmia entre os criadores de gado seminômades e os agricultores sedentários.
No mito, Dumuzi, o pastor, sente-se superior, mas Enkimdu, o agricultor, defende a importância dos seus diques e canais de irrigação. O agricultor propõe amizade e cooperação, oferecendo recursos (trigo, grãos) ao pastor. Inanna escolhe o agricultor, preferindo a estabilidade que ele oferece.
Inanna prefere inicialmente o agricultor, elogiando sua capacidade de fornecer grãos e linho. Dumuzi a desafia, argumentando que cada presente do agricultor pode ser superado por um produto pastoril (ex: leite em vez de cerveja, lã em vez de linho).
Após uma troca de "insultos" e demonstrações de valor, Inanna é convencida (muitas vezes com a ajuda de seu irmão Utu) a escolher o pastor Dumuzi. Ao final, os rivais se reconciliam e Enkimdu oferece presentes para o banquete de casamento.
Influência Bíblica de Caim e Abel
Os debates refletem os conflitos reais por recursos (terra, água) entre a população nômade que precisava de pasto e os agricultores sedentários que precisavam de terra para cultivo. O mito valoriza a tecnologia agrícola (a enxada/arado) sobre a vida pastoral, no entanto, destaca a necessidade de ambos para o funcionamento da sociedade suméria.
É nesse contexto que surge a versão mitológica oral do conto de Caim e Abel, que depois será escrito na Bíblia no período babilônico (não existiu império babilônico).
O Mito
A parte inteligível do poema começa com um discurso do deus-sol Utu para sua irmã Inanna:
"Ó minha irmã, o pastor tão rico,
ó donzela Inanna, por que não te favoreces?
Seu azeite é bom, seu vinho de tâmaras é bom,
o pastor, tudo o que sua mão toca é brilhante,
ó Inanna, a rica Dumuzi...,
cheia de joias e pedras preciosas, por que não te favoreces?
Ele comerá seu bom azeite contigo,
a protetora do rei, por que não te favoreces?"
Mas Inanna se recusa:
"Não me casarei com o pastor rico,
em seu novo... Não caminharei ,
em seu novo... Não proferirei louvor algum ,
eu, a donzela, me casarei com o agricultor, o
agricultor que faz as plantas crescerem em abundância,
o agricultor que faz o grão crescer em abundância."
Segue-se uma pausa de cerca de doze versos, na qual Inanna continua a apresentar as razões de sua preferência. Em seguida, o deus-pastor Dumuzi se aproxima de Inanna, protestando contra sua escolha — uma passagem particularmente notável por sua estrutura fraseológica intrincada e eficaz:
"O fazendeiro tem mais do que eu, o fazendeiro tem mais do que eu, o fazendeiro tem mais do que eu?
Se ele me der sua roupa preta, eu lhe dou, o fazendeiro, minha ovelha preta;
se ele me der sua roupa branca, eu lhe dou, o fazendeiro, minha ovelha branca;
se ele me servir seu primeiro vinho de tâmara, eu lhe servirei, o fazendeiro, meu leite amarelo
; se ele me servir seu bom vinho de tâmara, eu lhe servirei, o fazendeiro, meu leite de tâmara
; se ele me servir seu vinho de tâmara 'de tirar o fôlego', eu lhe servirei, o fazendeiro, meu leite borbulhante;
se ele me servir seu vinho de tâmara misturado com água , eu lhe servirei, o fazendeiro, meu leite vegetal
; se ele me der suas boas porções, eu lhe dou, o fazendeiro, meu leite de tâmara
; se ele me der seu bom pão, eu lhe dou, o fazendeiro, meu queijo com mel
; se ele me der seus feijões pequenos, eu lhe dou meus queijos pequenos;
mais do que ele pode" Ele come mais do que pode beber,
eu lhe derramo muito azeite, eu lhe derramo muito leite;
mais do que eu, o lavrador, o que há de mais do que eu?"
Seguem-se quatro linhas cujo significado não é claro; então começa a tentativa de apaziguamento de Enkimdu:
"Tu, ó pastor, por que inicias uma contenda?
Ó pastor, Dumuzi, por que inicias uma contenda?
Eu contigo, ó pastor, eu contigo, por que comparas?
Deixa as tuas ovelhas pastarem na erva da terra, pág. 103 Deixa as tuas ovelhas pastarem
nos meus prados , Deixa as tuas ovelhas comerem grãos nos campos de Zabalam, Deixa todos os teus currais beberem a água do meu rio Unun."
[O parágrafo continua] Mas o pastor permanece irredutível:
"Eu, o pastor, no meu casamento não entro, ó agricultor, como meu amigo,
ó agricultor, Enkimdu, como meu amigo, ó agricultor, como meu amigo, não entro."
[O parágrafo continua] Então o fazendeiro se oferece para trazer-lhe todo tipo de presentes:
"Trigo eu te trarei, feijão eu te trarei,
feijão de... eu te trarei,
a donzela Inanna ( e ) tudo o que te agradar ,
a donzela Inanna... eu te trarei."
E assim termina o poema, com a aparente vitória do deus-pastor Dumuzi sobre o deus-agricultor Enkimdu.

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