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segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

OS HICSOS

 


Hicsos do egípcio Hekau-khasut, "Soberanos de Terras Estrangeiras" foram um povo asiático, provavelmente de origem semita ou hurrita (nunca saberemos), que dominou o Baixo Egito (Delta do Nilo) durante o Segundo Período Intermediário (c. 1638-1530 a.C.), introduzindo avanços militares como cavalos, carruagens e o arco composto, antes de serem expulsos por faraós tebanos, evento que marcou o início do Novo Reino.  

Ao contrário do que antes se pensava, novos estudos indicam que os hicsos não invadiram a região oriental do Delta do Nilo durante a décima segunda dinastia do Egito, mas que tomaram poder como dinastia dominante em 1638 a.C. numa revolta após várias ondas de migrações anteriores.

São mostrados na arte local vestindo os mantos multicoloridos associados com os arqueiros e cavaleiros mercenários de Mitani (ha ibrw) de Canaã, Aram, Cadexe, Sidom e Tiro. Eram arqueiros cavaleiros vizinhos a Mitani, sua origem iraniana ou cítica é bem mais provável que a semítica. Acontece que os hicsos não eram um único grupo étnico, mas sim uma confederação ou um grupo misto de povos de origem asiática e semita provenientes do Oriente Próximo, principalmente do corredor Sírio-Palestino e desertos limítrofes.

Quando dominaram o Egito, a capital dos Hicsos era a cidade de Ávaris ou Avaris, localizada no sítio arqueológico de Tell el-Dab'a, no Delta do Nilo, no nordeste do Egito, identificada por escavações que revelaram sua importância como centro comercial e militar com traços culturais cananeus/levantinos, sendo posteriormente abandonada após sua expulsão pelos egípcios. Em 1885, os arqueólogos descobriram ruínas da capital hicsa, a cidade de Aváris, cerca de 120 quilômetros ao norte do Cairo.


Identificados por Maneto

O sacerdote, escriba e historiador greco-egípcio Maneto, do século III a. C., é quem relata os Hicsos em seus documentos, em sua obra, intitulada: Aegyptiaca ou "História do Egito". Ele é uma das principais fontes antigas para a história dos Hicsos. Seu relato, preservado em fragmentos por escritores posteriores como Flávio Josefo, retrata os hicsos como invasores brutais que conquistaram o Egito, embora as evidências arqueológicas modernas sugiram uma história mais complexa de migração gradual e mudanças internas de poder.

Maneto descreve os Hicsos como uma "raça obscura" do Oriente que invadiu inesperadamente e "facilmente conquistou" o Egito "sem desferir um único golpe". Ele afirma que eles "incendiaram nossas cidades impiedosamente, arrasaram os templos dos deuses e trataram todos os nativos com cruel hostilidade, massacrando alguns e escravizando as esposas e os filhos de outros".

Ele afirma que eles estabeleceram a Décima Quinta Dinastia, com sua capital em Avaris, no Delta do Nilo, e governaram por um longo período. Ele relata que, eventualmente, reis egípcios nativos de Tebas se revoltaram, levando a uma longa guerra. Os hicsos foram finalmente sitiados e autorizados a deixar o Egito por tratado, após o qual vagaram pela Síria e construíram a cidade de Jerusalém.


Flávio Josefo

O historiador Flávio Josefo, do século I d.C., utilizou e parafraseou a obra de Maneto, ligando explicitamente a expulsão dos Hicsos à história bíblica do Êxodo, uma conexão não feita explicitamente pelo próprio Maneto. Flávio Josefo fala extensivamente dos Hicsos, principalmente em sua obra apologética chamada Contra Apião ou Contra Apionem.

Nesta obra, Josefo discute a história judaica em resposta a escritores egípcios helenizados, como Manetão e Apião, que apresentavam os judeus de forma negativa. Josefo utiliza e cita os escritos do historiador egípcio Maneto para argumentar que os Hicsos eram, na verdade, os antigos hebreus. 


Apião de Alexandria

Apião de Alexandria, um gramático e historiador do século I d.C., é conhecido por seus relatos polêmicos e hostis sobre os judeus, que incluíam menções aos Hicsos. Suas obras originais foram perdidas, mas suas visões são conhecidas principalmente através da refutação feita por Flávio Josefo em sua obra Contra Apionem ("Contra Apião"). 


Não houve invasão, e sim, assimilação.

Os Hicsos não invadiram o Egito e tomaram de vez o poder, eles foram chegando aos poucos, e a conquista foi feita devagar. Quem comprova isso é a escritora Margaret Bunson, que em 1985 escreveu o livro The Encyclopedia of Ancient Egypt (A Enciclopédia do Antigo Egito).

É comprovado em seu livro que evidências arqueológicas da capital dos Hicsos em Tell el-Dab'a (antiga Avaris) sugerem que a ascensão dos Hicsos ao poder foi provavelmente um processo mais gradual, envolvendo ondas de imigrantes cananeus que se estabeleceram na região do Delta ao longo de muitos anos, conquistando eventualmente o controle político durante um período de instabilidade interna egípcia.

Pesquisas com análise de isótopos em dentes indicam que muitos habitantes de Avaris eram migrantes de diversas origens no Oriente Próximo, sugerindo que os Hicsos não foram uma invasão repentina, mas um processo mais gradual de assimilação e poder.

Os Hicsos adotaram muitos costumes egípcios, incluindo títulos reais e o culto aos deuses egípcios (assimilando seu próprio deus da tempestade, Baal, ao deus egípcio Seth), ao mesmo tempo que mantiveram suas próprias práticas arquitetônicas e culturais do Levante.

Os hicsos foram de fato expulsos pelos faraós tebanos Kamose e Ahmose I, o que marcou o fim do Segundo Período Intermediário e o início da era imperial do Novo Reino. Essa ação militar foi posteriormente celebrada nos registros egípcios como uma libertação, o que provavelmente contribuiu para a representação histórica negativa encontrada nos escritos de Maneto. 


Eram Hebreus?

Os Hebreus não eram Hicsos, nem faziam parte do povo Hicso, pelo menos, por enquanto, não há provas históricas ou arqueológicas que confirmem que os Hebreus faziam parte dos Hicsos. Embora existam teorias e narrativas que tentam conectar os dois grupos, elas são consideradas fracas pela maioria dos historiadores e egiptólogos. Eles tinham conexões culturais ligando os dois povos.

Esse erro vem do historiador Flávio Josefo, a ideia de que hebreus e hicsos seriam o mesmo povo foi popularizada pelo historiador. Ele citou o historiador egípcio Mâneto para argumentar que a expulsão dos hicsos era, na verdade, o relato egípcio do Êxodo bíblico. Josefo identificou os hicsos como "reis pastores", conectando-os aos ancestrais dos judeus. Ambos os grupos têm raízes em povos semitas vindos da região de Canaã e do Levante. Os Hebreus pertencem ao povo Cananeu.

A expulsão dos hicsos por volta de 1550 a.C. pode ter gerado um clima de hostilidade contra outros povos semitas remanescentes, levando à perseguição e escravidão dos hebreus. 

Contudo, arqueólogos como Israel Finkelstein sugerem que a narrativa bíblica do Êxodo pode ter sido influenciada por memórias distantes da expulsão traumática dos hicsos do Egito.

 

Conclusão

Embora a história tradicional os descreva como invasores, há evidências crescentes de que os Hicsos foram um grupo complexo de migrantes asiáticos que se estabeleceram, se assimilaram e eventualmente tomaram o poder, mais por uma ascensão gradual e aproveitamento de instabilidade interna do que por uma conquista militar avassaladora. 


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