Em 1907, o Estado de Indiana introduziu a primeira lei de esterilização compulsória do mundo. Entre 1907 e a década de 1960, mais de 64 milhões de americanos considerados “inaptos” foram evolutivamente castrados com anuência das autoridades. Eram alcoólatras, esquizofrênicos, epiléticos, criminosos, prostitutas… Essa modalidade de eugenia era chamada de negativa. Um relatório sobre o resultado da prática na Califórnia – recordista de esterilização entre os 32 Estados que a adotaram – serviu de inspiração para os oficiais nazistas que implantaram a prática do outro lado do Atlântico.
Também havia a eugenia positiva: educação a reprodução dos aptos. Tornaram-se comuns as Feiras da Família Fitter (“feiras de famílias mais aptas”, em português), em que casais com genes realizados bons eram sorteados em pódios e ganhavam medalhas.
Um dos símbolos da eugenia americana foi Charles Davenport, mandachuva do Eugenics Record Office (ERO) – o centro de pesquisa em Cold Spring Harbor, Nova York, que encabeçou os esforços de higienização genética. Ele era contra casamentos inter-raciais (comentaremos a relação da eugenia com o racismo nos próximos parágrafos) e via a entrada de imigrantes do sul da Europa e da Ásia como um risco à boa estirpe americana.
Davenport, de bobo, não tinha nada. Aplicando a lógica de transmissão de características hereditárias descobertas por Mendel em seus experimentos com ervilhas, acordos corretamente que a doença de Huntington era um traço dominante, e o albinismo, recessivo. O problema é que ele extrapolou a lógica: começou a inventar genes para tudo – até uma das famílias de construtores de barcos. Não havia espaço para o óbvio: que um filho tende a seguir o ofício do pai. Tudo era herdado.
No porto de Ellis Island, também em Nova York, imigrantes recém-chegados da Itália, da Grécia e dos países do bloco comunista foram submetidos a testes de QI. “O propósito de aplicar a escala de medição mental em Ellis Island é filtrar os imigrantes que podem (…) se tornar um fardo para o Estado ou produzir prole que vai exigir vagas em prisões ou asilos”, afirmou em 1915 o médico Howard Knox. Xingamentos como “idiota” e “imbecil” eram termos técnicos, aplicados na classificação de pessoas em relatórios oficiais.
No livro A Falsa Medida do Homem, publicado em 1980, o biólogo Stephen Jay Gould, de Harvard, cita o caso de Robert Bean – um médico que em 1906 publicou um longo artigo comparando as medidas de várias partes dos cérebros de negros e brancos. Uma das áreas comprovadas foi o corpo caloso – que conecta o hemisfério direito ao esquerdo. O corpo caloso é dividido em dois trechos, o joelho e o esplênio, e Bean percebeu algo, em sua opinião, fantástico: o joelho e o esplênio de negros eram muito menores que os dos brancos.
Era racista demais para ser verdade. Tanto que Franklin Mall, orientador de Bean na Universidade Johns Hopkins, suspeitou. Ele refez o estudo – dessa vez, medindo 106 cérebros sem saber, de antemão, a etnia dos indivíduos a que pertenceram. Resultado? Seus gráficos saíram neutros. O desejo de comprovar teses pré-concebidas era tão grande que os pesquisadores manipulavam os próprios dados deliberadamente.
No Brasil, eugenia e racismo andaram de mãos dadas – o ranço aparece disfarçado até hoje: “Meu neto é um cara bonito, viu? Branqueamento da raça”, disse o vice-presidente Hamilton Mourão em outubro de 2018.
Quem concordou foi Renato Kehl – o farmacêutico que, lá na década de 1920, liderou os esforços de limpeza genética no Brasil: “A nacionalidade brasileira só embranquecerá à custa de muito sabão de coco ariano”. Kehl se tornou o bode expiatório dos livros didáticos, mas não trabalhou sozinho: muito sujeito que hoje é nome de rua participou.
“Vital Brazil foi membro da Sociedade Eugênica de São Paulo, assim como Arnaldo Vieirade Carvalho – o da Avenida Dr. Arnaldo, em São Paulo, fundador da Faculdade de Medicina da USP”, diz a historiadora Pietra Diwan, autora do livro Raça Pura. Monteiro Lobato e Roquette-Pinto, também.
Ou seja: a eugenia foi uma invenção inglesa, aperfeiçoada nos EUA e divulgada por todo o Ocidente no entreguerras. O Holocausto foi apenas a sua manifestação mais conhecida, mas todas as atrocidades ordenadas por Hitler (e rechaçadas pelos Aliados após a 2ª Guerra Mundial) tiveram precursores entre os próprios Aliados. A descoberta dos campos de concentração desencadeou um surto de peso na consciência que culminou com a publicação, em 1950, de um documento da Unesco intitulado A Questão da Raça . A ciência pedia desculpas, e a palavra eugenia virava tabu.
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