Groenlândia (no inglês, Greenland) quer dizer “terra verde”. É um nome estranho para um lugar em que mais de 80% do território está coberto por gelo permanente.
Mas a alcunha não nasceu de um erro de tradução nem de um mapa malfeito. Foi uma tentativa proposital para convencer pessoas a se mudarem para uma colônia distante, arriscada e difícil de sustentar.
O marqueteiro que espalhou esse nome foi Erik, o Vermelho, um viking do fim do século 10 que virou líder de colonos no sudoeste da ilha. A história dele aparece nas sagas islandesas – textos medievais escritos a partir de tradições orais e preservados como parte da memória histórica da Islândia.
Erik nasceu por volta de 950 d.C., na Noruega, durante o reinado de Haakon, o Bom, numa época em que o norte da Europa passava por transformações profundas. A Era Viking, que costuma ser situada entre os séculos 8 e 11, foi um ciclo de expansão marítima, comércio e colonização.
Enquanto reinos europeus se reorganizavam após séculos de instabilidade e fragmentação, escandinavos dominavam rotas no Atlântico Norte, conectando Noruega, ilhas britânicas, Islândia e, depois, Groenlândia.
O próprio Erik cresceu dentro desse movimento de migração. Seu pai, Thorvald Asvaldson, foi banido da Noruega por assassinato, e a família atravessou o mar até a Islândia. A ilha havia começado a ser povoada por nórdicos em 874, e, em poucas décadas, deixou de ser um “novo mundo” vazio para virar uma sociedade com competição por terra, disputas por prestígio e regras próprias.
A Islândia não era um reino, mas uma comunidade de chefes locais que resolvia conflitos em assembleias chamadas Thing, que funcionavam ao mesmo tempo como parlamento e tribunal.
Viking ruivo e barbudo (daí o “Vermelho”), Erik tentou se firmar ali. Casou-se com Thjodhild Jorundardottir e teve filhos, entre eles Leif Erikson (que, anos depois, viria a morar no atual Canadá). Só que a vida islandesa, para ele, foi marcada por discórdias.
As sagas descrevem um primeiro conflito após um deslizamento de terra destruir a fazenda de um vizinho chamado Valthjof. Os escravos de Erik foram acusados de provocar o desastre. Eyjolf, parente do fazendeiro, matou os escravos. Erik matou Eyjolf em retaliação.
O segundo conflito foi ainda mais sério e envolveu os chamados setstokkr, que são pilares ornamentais com valor religioso e simbólico. Erik pediu que um homem chamado Thorgest os guardasse enquanto ele se mudava.
Quando Erik tentou recuperá-los, Thorgest se recusou a devolver. O Vermelho tomou os itens à força. Houve perseguição, confronto e mortes. Ele matou os filhos de Thorgest e outros homens.
O caso chegou ao Thing e, em 982, Erik foi condenado ao exílio por três anos. Naquele contexto, isso era uma pena pesada, uma vez que significava perder rede de apoio, acesso à terra e proteção política.
Por outro lado, também podia ser uma chance de recomeço, se o condenado conseguisse encontrar outro lugar onde sobreviver e reconstruir prestígio. Foi isso que Erik fez.
Ele navegou para oeste com alguns companheiros. Não partiu completamente no escuro. Um viking chamado Gunnbjorn Ulfsson teria avistado terras naquela direção quase um século antes, após se desviar da rota. E, na década de 970, outro fora da lei, Snaebjorn Galti Holmsteinsson, teria tentado fundar um assentamento ali, que acabou em violência interna e colapso.
Esse detalhe é importante porque mostra que a Groenlândia já circulava como possibilidade no imaginário escandinavo: um lugar distante e difícil, mas real.
Em 985, Erik chegou ao sudoeste da ilha, a região mais “mansa” dentro do padrão groenlandês, com fiordes (braços de mar com paredões no entorno) protegidos, alguma água doce e faixas de terra que permitiam pasto no verão.
Tratava-se da parte mais ao sul da Groenlândia, em latitude mais baixa do que a Islândia. Isso ajuda a entender por que os primeiros colonos se concentraram ali. A ilha é enorme, mas a maior parte é impraticável para agricultura ou criação de animais. Menos de um quarto da área é habitável, e mesmo essa fração é fragmentada e sazonal.
Há um segundo fator que pode ter facilitado a ocupação: o clima. Evidências extraídas de núcleos de gelo e de conchas de moluscos sugerem que, entre 800 e 1300, o sul da Groenlândia foi mais quente do que é hoje. Não se tratava de um paraíso verde, mas de um cenário menos hostil, com verões capazes de sustentar gramíneas e alguma produção em fazendas.
Ou seja, ainda que Erik tenha exagerado ao batizar ali de “terra verde”, esse nome não era algo totalmente desconectado do que se via no melhor momento do ano, num dos poucos trechos possíveis de ocupar.
Durante esse período, Erik percorreu a costa, nomeou regiões e marcou presença. Um dos lugares associados a ele é o Eriksfjord, hoje chamado Tunulliarfik Fjord. Ali ele teria montado sua fazenda, conhecida nas sagas como Brattahlið (“encosta íngreme”), perto do atual povoado de Qassiarsuk.
O local virou centro político do assentamento. Em colônias desse tipo, a fazenda do líder funcionava como ponto de reunião, distribuição de recursos e articulação de alianças.
Quando o exílio terminou, Erik voltou à Islândia e reuniu colonos para atravessar o Atlântico. As sagas falam em cerca de 300 pessoas. A viagem foi arriscada. Em um relato, 25 navios partiram e 11 se perderam no caminho.
Em outro, fala-se em 35 embarcações, com apenas 14 chegando. A discrepância é típica de tradições narrativas que circulam em versões diferentes, mas o padrão é o mesmo: o mar eliminou uma parte significativa da expedição.
Os sobreviventes fundaram dois núcleos principais: o Assentamento Oriental e o Assentamento Ocidental, ambos na costa sul. Erik se instalou no Oriental e virou a principal liderança local. Foi nesse momento que o nome “Groenlândia” virou peça central do projeto.
O termo vem do nórdico antigo Grœnland, que depois aparece em versões modernas como Grænland (islandês), Grønland (dinamarquês e norueguês) e Greenland em inglês.
As sagas atribuem a ele a justificativa de que um nome agradável atrairia mais gente. Uma colônia precisava de população suficiente para produzir comida, manter gado, construir estruturas e sobreviver a invernos longos. Sem fluxo de pessoas e recursos, o assentamento morria.
Essa escolha também conversa com um costume nórdico mais amplo: batizar lugares a partir do que se observava. Reykjavik, por exemplo, significa “baía fumegante”, referência às fumarolas (aberturas na crosta, geralmente em áreas vulcânicas, que exalam vapor d’água e gases).
E Leif Erikson, filho de Erik, teria chamado uma região de “Vinland” ao encontrar uvas silvestres ou frutos parecidos na costa do que hoje é o Canadá. Só que, no caso da Groenlândia, o nome não era apenas descritivo, mas também persuasivo.
A vida na colônia foi um exercício de adaptação. Os nórdicos construíram fazendas perto de água doce e criaram gado, ovelhas e cabras. Produziam laticínios e lã, e tentavam cultivar o que fosse possível.
Depósitos encontrados em sítios arqueológicos nórdicos na Groenlândia, os sambaquis, guardam ossos de focas em grande quantidade. Há também vestígios de caça a caribus (da família dos cervos).
Análises químicas indicam que, conforme os anos passaram, os colonos dependeram cada vez mais de proteína marinha. Isso sugere que quando a criação de animais e a agricultura ficavam mais instáveis, o mar virava o suporte principal.
Outro eixo de sobrevivência foi o comércio. Morsas eram abundantes em certas áreas, e o marfim de morsa tinha valor na Europa medieval. Isso deu aos assentamentos uma mercadoria de exportação.
Pesquisadores discutem se esse foi um objetivo desde o início ou se virou um mercado lucrativo depois, quando os colonos perceberam a oportunidade. De qualquer forma, a economia groenlandesa dependia de ligação com o resto do mundo nórdico e com a Europa – assim como hoje em dia.
Erik morreu em 1003, segundo relatos, durante uma epidemia que teria atingido a colônia com a chegada de novos imigrantes. O local de sepultamento dele permanece incerto. Mas a história da família continuou com Leif, que navegou ainda mais para oeste e chegou ao atual Canadá.
Os assentamentos que ele montou foram breves, mas a viagem ficou como um marco: os vikings alcançaram a América do Norte quase 500 anos antes de Cristóvão Colombo.

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