A maioria dos historiadores e peritos bíblicos aponta que a narrativa de Daniel 4 (onde o rei Nabucodonosor fica louco e vive como um animal por sete anos) preserva, na verdade, memórias históricas que originalmente pertenciam a Nabonido, o último rei de fato da Babilônia. O Livro de Daniel, ao ser compilado em sua forma final, teria transferido a história para Nabucodonosor porque ele era uma figura muito mais famosa, imponente e emblemática na memória dos judeus (visto que foi ele quem destruiu Jerusalém e o Primeiro Templo).
Registros babilônicos oficiais (como as Crônicas de Nabonido) confirmam que Nabonido realmente abandonou a capital Babilônia por cerca de dez anos para viver no deserto de Temã. Durante esse período, seu filho Belsazar governou como corregente na capital (o que explica perfeitamente por que Belsazar aparece agindo como rei em Daniel 5). Nenhum documento babilônico cuneiforme relata loucura por parte de Nabucodonosor, o que reforça que os detalhes de Daniel 4 são uma adaptação teológica da real e misteriosa ausência de Nabonido.
Os registros babilônicos também sugerem que Nabonido sofria de uma condição física/psicológica e tinha forte conflito com os sacerdotes locais porque ele rejeitou o deus principal da Babilônia (Marduque) para adorar o deus da lua (Sin).
A Oração de Nabonido foi descoberta em 1956 na Caverna 4 de Qumran, entre os Manuscritos do Mar Morto. A Oração de Nabonido reteve o nome histórico correto (Nabonido) e a localização geográfica real (Temã).
Prestígio Literário e Teológico: O livro de Daniel foca muito na dinastia de Nabucodonosor (seus sonhos, a estátua de ouro, a fornalha ardente). Manter o mesmo rei centraliza a lição teológica do livro: o maior monarca da Terra precisou ser humilhado para reconhecer que o Deus dos judeus governa o reino dos homens.
Tradução de 4Q242 - A Oração de Nabonido
A Oração de Nabonido (catalogada oficialmente como 4Q242 é um texto em aramaico fragmentado encontrado na Caverna 4 de Qumran entre os Manuscritos do Mar Morto, baseada na célebre reconstrução paleográfica do professor Frank Moore Cross.
Linha 1:"As palavras da ora[çã]o que Nabonido, rei da [te]rra da Babilônia, o [grande] rei, oro[u quando foi afligido]
Linha 2:com uma inflamação maligna por decreto do D[eus Altís]simo, em Temã. [Eu, Nabonido] fui afligido [por uma inflamação maligna]
Linha 3:por sete anos, e fui banido para longe [dos homens, até que orei ao Deus Altíssimo]
Linha 4:e um exorcista perdoou o meu pecado. Ele era um ju[deu] do[s exilados, que me disse:]
Linha 5:«Faça uma proclamação por escrito, para que glória, exal[tação e hon]ra sejam dadas ao nome do [De]us [Altíssimo». E eu escrevi o seguinte: «Quando]
Linha 6:eu fui afligido por uma inflamação ma[ligna] [...] em Temã, [por decreto do Deus Altíssimo]
Linha 7:[eu] orei por sete anos [a todos] os deuses de prata e ouro, [de bronze e ferro]
Linha 8:de madeira, de pedra e de barro, porque [eu pensa]va que e[les eram] deuses [...]"
O restante do texto se perdeu devido à deterioração natural do pergaminho
Três detalhes cruciais que a tradução revela:
O "Exorcista" Judeu: No texto de Qumran, quem atende o rei não é chamado pelo nome (como Daniel). É descrito apenas como um judeu exilado. Na cultura antiga, termos como "exorcista" ou "adivinho" eram usados para sábios que decifravam males espirituais e físicos.
A Natureza da Doença: Enquanto na Bíblia o castigo é a loucura (licantropia/boantropia), o fragmento do Mar Morto fala explicitamente de uma "inflamação maligna" ou "úlcera maligna" (um grave problema de pele).
O Pecado da Idolatria: Na linha 7 e 8, Nabonido admite que passou os sete anos de sua doença orando para falsos deuses de ouro, prata e pedra. Essa lista exata de materiais aparece em Daniel 5:23, mostrando como esses dois textos compartilham a mesma tradição literária e vocabular babilônica.

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