Primeiro devemos lembrar que nunca existiu uma Torre de Babel.
Se uma torre de tijolos era capaz de ameaçar os céus, por que Deus não destruiu os aviões, os foguetes e as estações espaciais ?
Essa é, provavelmente, uma das histórias mais curiosas e menos convincentes da Bíblia.
Segundo o texto de Génesis 11:1-9, toda a humanidade falava a mesma língua, vivia unida e decidiu construir uma cidade e uma torre cujo topo alcançasse os céus.
A reação do sujeito Deus foi muito preocupante: decidiu confundir as línguas dos seres humanos e espalhá-los pela Terra.
O que mais me chamou a atenção nem é a torre em si, mas a justificativa apresentada pelo próprio Deus:
“Agora, não haverá restrição para tudo o que planejarem fazer.”
Essa declaração levanta algumas perguntas interessantes e profundas.
Se Deus é omnipotente, por que se preocupar com uma torre construída por seres humanos?
Como um projeto arquitetônico humano poderia representar uma ameaça para um ser infinito e todo-poderoso?
Será que a humanidade unida e cooperando era um problema?
Outra questão que me intriga é a seguinte: como é que um Deus que criou o universo inteiro, bilhões de estrelas, galáxias e planetas, resolveu descer do céu justamente para confundir as línguas das pessoas?
Quer dizer, com todo o cosmos para administrar, a sua grande preocupação naquele momento era fazer uns falarem chinês, outros português, francês, hebraico e por aí vai?
Mais curioso ainda é perceber que, ao longo da narrativa bíblica, Deus parece dedicar quase toda a sua atenção a uma pequena região do planeta e a um único povo durante séculos.
Até um presidente de um país moderno possui mais assuntos internacionais para resolver do que o Deus do universo aparenta ter nas páginas da Bíblia.
Há também um detalhe que considero fascinante.
Se o objetivo era impedir que os homens alcançassem os céus, por que esse mesmo Deus não destruiu os aviões?
Hoje construímos arranha-céus com centenas de metros de altura, aviões comerciais voam a mais de 10 mil metros de altitude, foguetes atravessam a atmosfera terrestre e já colocámos seres humanos na Lua. Afinal, onde ficam os céus que uma torre de tijolos poderia alcançar há milhares de anos?
Por fim, existe uma grande ironia nessa história.
A humanidade estava unida, falava uma só língua e cooperava num grande projeto comum. Em vez de se orgulhar por essa unidade, sobretudo quando muitos religiosos afirmam que o objetivo de Deus sempre foi unir a humanidade, o sujeito decidiu destruir a comunicação humana e espalhar as pessoas pelo planeta.
O mais engraçado é que aquilo que hoje consideramos alguns dos maiores avanços civilizacionais, como a cooperação internacional, as línguas comuns utilizadas pela ciência, a partilha global do conhecimento e os projetos científicos desenvolvidos entre dezenas de países…
É precisamente aquilo que o sujo do Deus combateu em Babel.