Um dos maiores equívocos dos debates modernos, sem dúvida, é a questão do anacronismo. Tentar analisar sociedades antigas sob as lentes de conceitos modernos, como igualdade de gênero, liberdade e direitos civis, é um erro grave. O homem antigo não discutia, e nem imaginava pensar, nessas coisas. Ele discutia como não morrer de fome, da peste, de guerra ou até de frio. A mulher não lutava por empoderamento; ela tentava sobreviver no parto, alimentar seus filhos e não ser escravizada por invasores.
As sociedades antigas, isso eu falo no sentido amplo mesmo, gregos, árabes, romanos, hebreus, até lá a questão feudal, sempre estiveram organizadas em torno da herança e da propriedade da terra. Era a propriedade que definia quem vivia e quem perecia. Preservar a linhagem, a linhagem que eu falo é a linhagem legítima, era a única forma de garantir estabilidade sucessória e política.
Se uma mulher engravidasse de outro homem, dentro do casamento ou fora de um casamento, o caos sucessório poderia destruir famílias inteiras. Não existia, naquela época, teste de paternidade. Não tinha como ser feito o exame de DNA. Por isso, a sexualidade feminina era tão valiosa. Ela garantia a certeza da paternidade e da transmissão legítima dos bens e até do nome da família.
O feminismo tenta pregar que isso era ódio ao feminino, mas não, não era. Era uma defesa da propriedade e da herança, dentro da lógica daquela época. Por isso que era muito comum o casamento, dentro daquela época, ser feito de forma estratégica, visando não o sentimento, mas a parte política e até a ascensão familiar.
O escritor Eduard Gibbon, em seu livro Declínio e Queda do Império Romano, descreve com muita precisão isso. Roma via o casamento, por exemplo, como um contrato econômico e político. O amor era irrelevante. Homens e mulheres eram inseridos como peças de alianças familiares desde cedo, cada um cumprindo seu papel de forma estratégica.
E, para reforçar o que eu falei anteriormente, também tem o autor Friedrich Engels, que, no livro A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado, explica como a formação da propriedade privada reorganizou profundamente as estruturas familiares. Nesse caso, foi estabelecido o casamento como ferramenta de preservação patrimonial, garantindo que os bens fossem transferidos, de forma legítima e controlada, às futuras gerações.
Entendem? Isso valia para os dois sexos, tanto para a mulher quanto para o homem também. Não era uma coisa exclusiva da mulher.
As feministas amam falar que as mulheres sempre foram totalmente desprovidas de qualquer benefício e que elas são vítimas absolutas. Só que não é assim. As mulheres das elites eram tuteladas, mas também cercadas de regalias inalcançáveis para a maioria: vestidos finos, servos, joias, músicos, festas e estabilidade alimentar, que isso era extremamente importante na época.
Uma coisa também que elas amam falar é que os homens sempre viviam com privilégios e que o homem era totalmente livre e intocável. Mas não, não era assim. As mulheres eram tuteladas, mas, ao mesmo tempo, os homens dessas famílias carregavam o peso da responsabilidade, tanto legal quanto financeira. E isso ninguém fala.
Eles arcavam com as dívidas contraídas pela esposa, pelas dívidas que as filhas fizessem, e respondiam até por crimes cometidos por elas. O patriarca da família era juridicamente responsável por tudo sob seu teto. A autoridade e o risco caminhavam juntas.
O fato que desmonta essa questão que elas gostam de falar, como eu disse anteriormente, de que homens viviam de privilégios e eram totalmente livres e intocáveis, é que o homem do povo, camponês, o servo, o plebeu, não tinha propriedade, não tinha herança ou, pelo menos, participação política; não tinha nada disso. Ele trabalhava de sol a sol em terras dos outros, morria jovem, era consumido por doenças, guerras e fome, sem direito à escolha. Ele era arrancado da sua casa para morrer em campos de batalha que pouco ou nada tinham a ver com a sua vida. Isso é muito sério.
Eram cruzadas, guerras de expansão, conflitos religiosos, disputas territoriais, milhões de homens enviados como peças substituíveis. É como no filme Coração de Ferro, onde se diz: “Os ideais são pacíficos, a história é violenta”. Essa é a verdade nua e crua da história humana.
E é importante também saber que, mesmo os homens do topo, eles pagavam alto por sua posição. Reis eram envenenados, imperadores assassinados constantemente, nobres decapitados, generais também; era muito comum serem traídos. Nicolau Maquiavel, em O Príncipe, descreve como o poder jamais é estável. Todo governante vive cercado de intrigas, traições e ameaças que transformam o trono num campo minado, onde um passo em falso significa a queda ou a morte.
Perceba que as feministas têm muita, muita dificuldade em entender que o conceito de cidadania, desde Roma, não foi fundado sobre o gênero, mas sobre a propriedade. Nem todos os homens, por exemplo, votavam. Apenas os proprietários tinham voz política. A maioria dos homens estava, tanto quanto as mulheres, excluída do poder decisório.
Uma coisa que elas parecem ignorar, e que é um fato constantemente ignorado, é a força física. Num mundo sem polícia, sem estado de direito consolidado, sem exércitos profissionais, era a capacidade de lutar que determinava quem defendia e quem era protegido. Os homens assumiam a linha de frente da guerra, da caça e da defesa da comunidade, não como um privilégio, mas como fardo biológico.
Eu vou trazer aqui também uma coleção chamada História da Civilização, de Will Durant. Ele tem 17 volumes, mas eu vou sintetizar aqui o que ele fala: que a história da humanidade não foi movida por debates de justiça social, mas por instintos de preservação, que é o que eu estou falando nesse texto, a questão da família, da propriedade e da linhagem.
Uma coisa que é interessante e que, para mim, as feministas sempre deixam de forma muito confortavelmente de lado, é que as mulheres nunca foram obrigadas a irem à guerra, certo? Até hoje, na verdade. Antes que alguém se diga: “Mas Israel é um único país, o único no mundo, então não vale de exemplo”.
E a razão é lógica. Se as mulheres morressem nas guerras na mesma proporção que os homens, não haveria povoamento, não haveria sucessão, não haveria reinos. A lógica da sobrevivência sempre preservou o útero, porque dele dependia a continuidade de tudo. Ou seja, as mulheres eram, sim, extremamente protegidas.
Tanto é que era muito mais interessante, para os governantes, enviar milhões de homens para morrer do que uma mulher. Eles poderiam enviar em proporções menores, por exemplo, mas não. As mulheres sempre foram protegidas.
Eu não entendo qual é a dificuldade de compreender algo tão básico. Essa simplificação feminista de opressora e oprimida não existe. A verdadeira batalha sempre foi por linhagem e propriedade. Toda a estrutura social, pelo menos uma boa parte dela, os códigos de conduta, os papéis atribuídos entre homens e mulheres, tudo orbitava na necessidade de proteger o sangue, o nome e o patrimônio familiar.
Essa é a parte que poucos querem ouvir, porque não cabe em slogans, não gera curtidas, não alimenta movimentos e identidades modernos, deploráveis, destrutivos e corrosivos. Agora, você conhece essa parte da história que muitos ignoram, e, da próxima vez que alguém tentar reduzir tudo a uma luta de sexo, se lembre disso. Nunca foi o homem contra a mulher; foi a civilização tentando não ruir sobre o peso do próprio caos.
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