A palavra arrebatamento não existe na Bíblia original, nem em hebraico, nem em grego, nem em nenhum dos quatro evangelhos. Foi inventada em 1830 por um homem que tu nunca ouviste nomear, John Nelson Darby, o texto que te diz em ser o arrebatamento. 1 Tessalonicenses capítulo 4, versículo 17, usa uma única palavra grega, arpazo, que significa apenas apanhar.
Foi traduzida para latim como rapere, daí raptur, em inglês, arrebatamento, em português. Os pais da igreja primitiva, Ireneu, Justino, Tertuliano, leram este versículo como um único evento no fim dos tempos, nunca como rapto secreto pré-tribulação. Essa ideia tem 200 anos, não 2.000. E por que é que ninguém te ensinou isto? Porque em 1830, numa pequena seita irlandesa chamada Plymouth Brethren, Darby criou uma doutrina nova chamada dispensacionalismo.
Foi popularizada pela Bíblia de Schofield em 1909. Darby explodiu nos anos 70 com Hal Lindsey e tornou-se cultura pop nos anos 90 com a série Left Behind. Hoje vai ver as quatro camadas que ninguém te explica.
Primeira, como Darby inventou. Segunda, o que o texto grego realmente diz. Terceira, como os primeiros cristãos liam.
E quarta, o que místicos como Paulo experienciavam quando eram arrebatados. Cada camada mais reveladora que a anterior. Começamos pela primeira, 1830.
Plymouth, Inglaterra. Uma pequena seita protestante chamada Plymouth Brethren acabava de se formar. Um dos seus líderes era John Nelson Darby, ex-padre anglicano, brilhante, obcecado com profecias bíblicas.
Darby leu 1 Tessalonicenses 4. E leu Daniel 9. E leu Apocalipse. E uniu os três num esquema que nunca tinha existido antes na história do cristianismo. O dispensacionalismo.
A ideia central era esta. A história divide-se em sete eras. Antes do fim, Jesus voltaria duas vezes.
Primeiro em segredo, para arrebatar os fiéis para o céu. E outra vez, sete anos depois, em público para julgar o mundo. No meio das duas, haveria a grande tribulação sob o anticristo.
Esta ideia era completamente nova. Nem o Antigo Testamento, nem os Evangelhos, nem os padres da igreja, nem 1.800 anos de tradição cristã, alguma vez tinham ensinado isto. E há uma história ainda mais inquietante.
Em 1830, mesmo ano, uma jovem escocesa de 15 anos, chamada Margaret MacDonald, teve uma visão durante um surto religioso. Descreveu uma vinda secreta antes da tribulação. Darby foi visitá-la.
Pouco depois, começou a pregar a mesma doutrina. Os críticos dizem que ele copiou. Os defensores dizem que foi convergência.
A verdade é que ninguém antes deles tinha lido a Bíblia assim. Em 1909, um pastor americano chamado Cyrus Schofield publicou a Bíblia de Schofield. Era uma Bíblia comum, mas com notas de Schofield ao lado de cada versículo.
As notas ensinavam o dispensacionalismo de Darby. Esta Bíblia tornou-se a mais vendida nos Estados Unidos nos 50 anos seguintes. Milhões cresceram a ler as notas de Schofield ao lado dos versículos e a tomar as notas como palavra de Deus.
Em 1970, Hal Lindsey publicou o livro The Late Great Planet Earth, 28 milhões de cópias vendidas na década. Em 1995, Tim LaRey lançou a série Left Behind, 65 milhões de cópias. Filmes.
Cultura pop apocalíptica completa. Foi assim que uma doutrina inventada em 1830 por um irlandês obscuro se tornou, em 200 anos, a interpretação dominante do fim dos tempos nos evangélicos modernos. Não na igreja católica, não na igreja ortodoxa, não nas reformadas tradicionais, apenas em cerca de 20% do cristianismo evangélico mundial.
Um fenômeno do século XIX. Voltemos ao texto. 1ª Thessalonicenses, capítulo 4, versículos 16 e 17.
Carta de Paulo, escrita por volta do ano 50. Versículo 16. Porque o próprio Senhor descerá do céu com voz de arcanjo e com a trombeta de Deus, e os que morreram em Cristo ressuscitarão primeiro.
Versículo 17. Depois nós, os que ficarmos vivos, seremos arrebatados juntamente com eles nas nuvens a encontrar o Senhor nos ares. A palavra chave é arrebatados.
No grego original, arpagesometa, do verbo arpazo, significa literalmente apanhar com força, agarrar, levantar de surpresa. Os tradutores latinos da Vulgata, no século IV, traduziram arpazo como rapiemur, mesma raiz que rapere, daí veio rapture em inglês, arrebatamento em português. Mas atenção, repara no que o texto diz e no que não diz.
O texto diz que haverá uma trombeta, uma voz de arcanjo. Os mortos vão ressuscitar primeiro. Os vivos serão apanhados depois.
Todos juntos encontram-se com o Senhor nos ares. O texto não diz que isto será em segredo. Não diz que será sete anos antes do fim.
Não diz que haverá uma segunda vinda depois. Não diz que os arrebatados desaparecem da terra deixando as roupas para trás. Tudo isso são camadas que Darby adicionou em 1830. Não estão no texto.
E repara no que Paulo está mesmo a dizer. Ele está a consolar os tessalonicenses.
Eles tinham medo de que os seus mortos não vissem o regresso de Jesus. Paulo responde, não tenham medo, os mortos vão ressuscitar primeiro. Depois vocês serão apanhados juntamente com eles.
Um único evento, público, para todos. E há um detalhe técnico que destrói a ideia de rapto secreto. O texto fala de uma trombeta.
Trombetas não são silenciosas. Fala de uma voz de arcanjo. Vozes de arcanjos não passam despercebidas.
O oposto exato do que Darby ensinou. Como é que os primeiros cristãos liam estes versos? Temos textos. Temos os pais da igreja.
Temos comentários escritos entre o ano 100 e o ano 400. E todos concordam. Ireneu de Leon, no segundo século, no livro V do Contra as Heresias, escreveu sobre um único regresso de Cristo.
Em glória, visível, sem rapto secreto, sem sete anos no meio. Justino Mártir, no segundo século, no diálogo com Trifão, descreveu o regresso como um único evento no qual os justos seriam reunidos. Tertuliano, no terceiro século.
Cipriano. Agostinho. Todos os grandes comentadores antes do século XVI.
Único regresso. Único evento. A igreja católica, durante 1.500 anos, ensinou esta visão.
A igreja ortodoxa do Oriente ainda hoje a ensina. As reformadas tradicionais, calvinistas, presbiterianas, luteranas, todas a ensinam assim. O dispensacionalismo é a exceção histórica, não a regra.
Por que o sucesso nos Estados Unidos? Porque o dispensacionalismo encaixou numa cultura específica, o evangelicalismo americano do século XX, otimista, individualista, focada em ser salvo individualmente, com sistemas simples para entender a Bíblia, calendários, dispensações e um final claro. A doutrina serviu, tornou-se best-seller, mas é uma leitura de 200 anos, um documento de 2.000, uma fração da história cristã, mas há outra camada, e esta é a mais importante. A palavra arpazo aparece outras vezes no Novo Testamento, em particular, num lugar que poucos cristãos leem com atenção.
2 Coríntios, capítulo 12, versículos 2 a 4. Paulo está a falar de si próprio, em terceira pessoa, diz, abre aspas, conheço um homem em Cristo que há 14 anos foi arrebatado até o terceiro céu, e ouviu palavras inefáveis que ao homem não é lícito falar, fecha aspas. A palavra usada é exatamente a mesma, arpazo, mas Paulo não desapareceu, não foi levado fisicamente, está a descrever uma experiência mística que aconteceu enquanto continuava no corpo. Os místicos judaicos chamavam a esta experiência o Mazé Merkavá, a obra do carro celestial.
Era a tradição mística baseada em Ezequiel 1, na qual o praticante entrava em êxtase e era levado em consciência através dos sete céus até a presença divina. Paulo conhecia esta prática, era fariseu treinado, conhecia a tradição Merkavá, e quando descreve o seu arrebatamento, usa a linguagem desta tradição. E aqui está o ponto, os místicos cristãos primitivos, gnósticos, padres do deserto, exicastas ortodoxos, místicos medievais, concordam todos.
O verdadeiro arrebatamento não é um evento futuro coletivo, é uma experiência interior, possível agora, a qual entras quando entras no silêncio profundo. Não é desaparecer da terra, é ser levado em consciência, atravessar os céus interiores, ver o que Paulo viu, e voltar transformado. O verdadeiro arrebatamento é interior, não cosmológico, não no futuro, aqui, agora, dentro de ti.
Resumo do que vimos, o arrebatamento como hoje é ensinado, rapto secreto, sete anos, dois regressos, não existe na Bíblia original, foi inventado em 1830 por John Nelson Darby, popularizado pela Bíblia de Schofield, e tornou-se cultura pop com Hal Lindsey e Left Behind. O texto grego, 1 Tessalonicenses 4, 17, fala de harpazo, um único evento público no fim dos tempos, não em segredo, não em duas fases. Os pais da igreja, durante 1.800 anos, leram o texto como um único regresso, católicos, ortodoxos e reformados tradicionais, ainda o leem assim hoje, e os místicos cristãos, incluindo Paulo em 2 Coríntios 12, usaram a mesma palavra, harpazo, para descrever uma experiência interior, mística, acessível, agora.
Na Era Apostólica, o conceito que hoje chamamos de "arrebatamento" era visto não como um evento secreto ou isolado, mas como um momento integral e culminante da Segunda Vinda de Jesus e da ressurreição final.
Com base nos textos-chave do Novo Testamento, como 1 Tessalonicenses 4:17 e 1 Coríntios 15:51-54, os primeiros cristãos aguardavam:
Uma Reunião Visível e Audível: Eles não esperavam um desaparecimento misterioso. A descrição bíblica envolve o "calar da trombeta de Deus," "uma voz de arcanjo" e o próprio Senhor "descendo do céu" com alarido. O arrebatamento seria a reunião física e visível de todos os crentes — os que já haviam morrido e ressuscitado primeiro, e os que estivessem vivos — "nas nuvens, a encontrar o Senhor nos ares".
Uma Transformação Instantânea: Aqueles que estivessem vivos no momento do retorno de Cristo não experimentariam a morte, mas seriam "arrebatados" (capturados, levados à força) ao mesmo tempo que os mortos ressuscitados, e seus corpos seriam instantaneamente transformados de mortais para imortais.
Um Evento de Consolação e Esperança: A mensagem apostólica sobre esse evento tinha como objetivo principal consolar os crentes que sofriam perseguição ou que lamentavam a morte de seus entes queridos, assegurando-lhes que "assim estaremos sempre com o Senhor." Não era uma mensagem de medo ou de fuga secreta de uma tribulação estendida, como se popularizou em algumas teologias modernas.
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