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segunda-feira, 11 de agosto de 2025

A SERPENTE DO ÉDEN NUNCA FOI SATANÁS





A Serpente que aparece no livro de Gênesis não é Satanás como se ensinam nas igrejas católicas e evangélicas, devemos entender que toda Bíblia é uma representação mitológica e não histórica, principalmente no Antigo Testamento. Devemos entender que uma mitologia é uma história mais fictícia que factual de uma nação. Isso vale para todos os povos antigos, e povos da atualidade, como a história do Brasil por exemplo, que temos figuras como Tiradentes e Airton Senna, por exemplo que contém exageros e eventos não reais em suas biografias. A própria construção da República brasileira, contém eventos e acontecimentos que são totalmente distorcidos da realidade. Se isso acontece nos dias atuais, que dirá no mundo antigo!

Os hebreus ao fazerem sua rica nação, como qualquer povo, precisava unir os diferentes tipos de culturas, pensamentos, costumes, estirpes e formas de viver, dentro de um guarda-chuva cultural, e nada nesse planeta é mais cultural que a religião.

Nunca devemos esquecer que o povo Hebreu pertencia a nação dos Cananeus, sim, o povo Hebreu é Cananeu na sua essência. Isso quer dizer que os Fenícios, Amonitas, Moabitas, Edomitas, Jebuseus, Gigarseus, Heteus, Perizeus, Heveus, Ai, Arameus, Cenezeus, Cadmoneus, Refains, Hamateus, Sodoma, Gomorra, Hurritas, Síria, Admá, Lasa, Zeboim e obviamente, os Cananeus, Árabes e Hebreus. Nunca existiu um povo Hebreu sangue puro, in natura. 

A construção mitoreligiosa do povo Hebreu foi baseada em nações e povos "cananeus" pois eles eram cananeus e nações da síria, como Ebla e Ugarit e também nações como a Caldéia, Pérsia, Egípcia, mas principalmente a nação Sumeriana.


SATANÁS NÃO EXISTE NO ANTIGO TESTAMENTO

A palavra "Satanás" vem do hebraico שָטָן Satãn, que significa "adversário, inimigo, oponente" e está certo, Satanás quer dizer isso mesmo, mas esse nome não é Hebraico e sim Sumeriano. Acontece que toda mitologia Hebraica não é bem Hebraica como se pensa, a mitologia Hebraica é um mix de mitologias Sumerianas, Egípcias, Persas, Caldeias, Assírias, Caananitas, etc.

O nome Satanás não existe no Antigo Testamento, isto porque, no  Antigo Testamento, a palavra "satanás" descreve uma função ou título, enquanto no Novo Testamento, ela se torna o nome de um ser maligno com um papel mais definido como adversário de Deus, de acordo com estudos bíblicos. 

Acontece que a palavra Satã ou Satanás não é nome do cramunhão, não é nome do tinhoso, ele nem existia nesse período. A figura de Satã vai nascer somente na Idade Média, quando a Igreja Católica fabrica essa figura que os crentes creem hoje. 

A palavra Satã ou Satanás neste contexto bíblico é usada como adversário, inimigo, opositor, não tendo nenhuma relação com a figura imaginativa, fabricada e inventada pela Igreja Católica Romana no período Medieval.

No Antigo Testamento não existem as palavras: Diabo, Satanás e Demônio, estes nomes não eram utilizados no Pentateuco e nos livros antigos testamentários, os hebreus não conheciam estas palavras.

No Antigo Testamento, quando se faz menção de algum agente do mal, o termo certamente será Sumeriano, usando nomes como Gallu, Galla, Udug, Utukku, Asag, Asakku, Ḫulbazizi, Alal, Edimmu, etc. Certamente um destes nomes eram usados no Antigo Testamento para se referir aos agentes da maldade do mundo espiritual, pois toda mitologia bíblica do Antigo Testamento é profundamente enraizada e influenciada na mitologia dos Sumérios.

Contudo, Satanás, como conhecemos nos dias atuais não aparece no Antigo Testamento, não existe nenhuma menção desse personagem da Religião Católica e Evangélica nos textos do Antigo Testamento, o povo do Levante do mundo antigo, nunca pensou neste personagem como pensamos atualmente. O que houve foi uma adulteração textual para os novos idiomas Gregos e Latinos, quando se traduziu a Bíblia para as versões da Septuaginta, Codex Alexandrinus, Codex Vaticanus, Textos Massoréticos, Vulgata, Bíblia de Jerusalém, etc.


LIVRO DE ENOCH

O livro de Enoch também foi uma das fontes ou causas por existir a figura do Diabo, Satanás, Satã ou Capeta como conhecemos nos dias atuais.

O livro de Enoch é muito conhecido de ouvir falar, igualmente a Bíblia, o livro de Enoch é notável mas pouco lido, é um livro muito famoso e comentado, mas infelizmente é pouco lido.

Mas o problema continua, pois o Livro de Enoch começou a ser escrito entre 300 a.C. a 200 a.C., e fazia parte do corpus bíblico hebraico, sendo removido por um rabino, por diversas razões, inclusive políticas. E não estamos falando de um livro e, sim de três livros! Temos três Livros de Encoh e não um, como se imagina. 


O Primeiro Livro de Enoch ou Enoque Etíope.

O Segundo Livro de Enoch ou Enoch Eslavônico.

O Terceiro Livro de Enoch ou Enoch hebraico.


É nesse período que temos a produção, fabricação e confecção do Diabo, Satã, Satanás, Capeta como conhecemos. Pois estes escritores Judeus começam a pegar as doutrinas do Antigo Testamento, mais precisamente o personagem citado nos livros de Samuel e Jó, que já estava esboçado no conceito de este ser um agente, funcionário, servidor de Deus que nos textos, se colocava contra Deus e fazia as pessoas sofrerem. No livro de Enoch este personagem é  Samyaza ou Shemihazah, ele era encarregado de guardar o conhecimento, junto com outros anjos, resolvem fazer sexo com mulheres humanas.


PATRIARCA ORIGENES

No século II d. C. temos as religiões gregas sendo introduzidas no cristianismo, e uma das muitas vertentes da mitologia grega que adentrou o cristianismo foi o culto de Dionísio ou Baco, o Deus do Vinho, onde a doutrina do sexo com os anjos se mistura com os dogmas da fé dionísicas.

O Patriarca Orígenes de Cesareia ou Orígenes de Alexandria 185  Alexandria até 253 Tiro, foi discípulo de Clemente de Alexandria, foi o primeiro a mudar isto, colocando o conceito do diabo, satanás como conhecemos nos dias atuais. Orígenes sabia da influência do mito entre os anjos e as mulheres humanas, também sabia da história do diabo da religião zoroastrista e babilônica (sumeriana), ele percebeu que mudar o conceito, para o diabo da forma como se conhece hoje, seria melhor para o dogma pré-católico, pois o gnosticismo já pregava conceitos doutrinários gnósticos como os do Caimístas por exemplo, e fazendo uma junção destes dogmas, o proveito seria melhor para a religião pré-católica.

Neste instante, Orígenes de Cesareia ou Orígenes de Alexandria passa a mudar a narrativa, mudando o conceito da tradição Enoquiana de anjos e as mulheres humanas e colocando o novo mito do diabo como conhecemos. Ele pegou Ezequiel 28 que é a profecia contra o Rei de Tiro e começou a dizer que na verdade era a briga entre Satanás e Deus.

O Gnosticismo nessa altura já estava comandando o mundo religioso da época, as doutrinas gnósticas como a doutrina Caimista se misturou com conceitos da religião zoroastriana que misturou com conceitos da religião grega que misturou com conceitos da religião judaica que misturou com conceitos do cristianismo, e por volta de 50 a 70 anos depois, será tudo oficializado com o nascimento formal da Igreja Católica Apostólica Romana a partir de 313. E hoje temos a errática doutrina Satanista no Cristianismo.


DEMÔNIO DA GRÉCIA ANTIGA

Do Grego Daemon ou Daímôn "divindade", "espírito" e do Latim Daemonium ou Daimônion. É um tipo de ser na mitologia grega que em muito se assemelha aos gênios da mitologia árabe.

São deuses de determinadas entidades da natureza humana, como a Loucura, a Ira, a Tristeza, seu temperamento liga-se ao elemento natural ou vontade divina que o origina. Não se fala em "bem" ou "mal". Um mesmo daemon pode apresentar-se "bom" ou "mau" conforme as circunstâncias do relacionamento que estabelece com aquele ou aquilo que está sujeito à sua influência.

O conceito original entre os gregos ainda os conecta, aos elementos da natureza, surgidos em seguida aos deuses primordiais. Assim, há daemones do fogo, da água, do mar, do céu, da terra, das florestas, etc. Há espíritos que regem ou protegem um lugar, como uma cidade, fonte, estrada, etc.

Às afetações humanas, de corpo e de espírito, tendo sido estes daemones criados depois. Entre eles estão: Sono, Amor, Alegria, Discórdia, Medo, Morte, Força, Velhice, Ciúmes etc.

O termo "daímôn", o gênio pessoal, foi usado por Sócrates quando, ao contrário de seus colegas sofistas, não abriu escola para transmitir seus ensinamentos, assim como não cobrou dinheiro por isso. Ele dizia que apenas falava em nome do seu "daímôn", do seu gênio pessoal. Marco Aurélio usou extensivamente o termo em suas meditações.

A palavra "daímôn", da qual se originou o termo demônio, não era, na Antiguidade, tomada à parte má, como nos tempos modernos. Não designava exclusivamente seres malfazejos, mas todos os Espíritos, em geral, incluindo os deuses e os demônios propriamente ditos. Na mitologia grega original seria um gênio, uma divindade menor, um ente espiritual que poderia ser bom ou mal. 

Para o poeta grego Hesíodo (século VIII a. C), os demônios eram as almas das pessoas mortas que tinham a missão de cuidar dos vivos.  Platão, consideravam o demônio como um ser que guiava e inculcava conhecimentos aos humanos, às vezes podendo incluir espíritos dos mortos.


CATOLICISMO ROMANO

O profeta persa Zoroastro descreveu um ser chamado Arimã, o "príncipe das trevas", que travava uma luta eterna contra Mazda, o "príncipe da luz".

Por volta do século II a.C., a figura do demônio aparece em alguns textos apócrifos da tradição religiosa judaica.

Nos textos do Novo Testamento, autores como João e Paulo descrevem batalhas intensas entre o diabo e Deus.

Na Idade Média, a demonologia surgiu como uma ferramenta política. A representação do diabo durante esta época levou a uma série de reflexões sobre o mundo e o homem. A partir do ano 1000, o diabo começou a ser representado com uma aparência grotesca e monstruosa, entre o humano e o animal.

Dentro da lógica dualista cristã, o demônio era considerado uma peça indispensável numa sociedade medieval profundamente impregnada pela fé, pois era necessário que existisse o antípoda de Deus para que este tivesse relevância na existência humana.

Na Idade Média, Judeus, Muçulmanos e Católicos reconheciam a existência do Diabo, que provinha da crença dualista Zoroastrista dos Persas, o Diabo era comumente descrito como uma figura bestial representando o pecado, a tentação e a personificação do mal, assim como nos mitos persas. Nos manuscritos medievais da Europa Ocidental, o Diabo era frequentemente atribuído as características de serpentes, como chifres ou orelhas pontiagudas e uma cauda longa e fina. Essas características provavelmente têm suas raízes na história da queda do homem no livro de Gênesis e na tentação de Eva por uma serpente.


QUEM É A SERPENTE DO ÉDEN?

A Serpente do Éden são personagens da mitologia sumeriana, chamadas de MUŠ. Na mitologia suméria, MUŠ não é uma divindade específica, mas sim um termo genérico para uma serpente ou dragão, frequentemente associado ao caos e ao submundo. Essas figuras serpentinas desempenhavam diversos papéis nos mitos, às vezes como adversários monstruosos, outras vezes como símbolos de poder ou proteção. 


Estes MUŠ são identificados como Serpentes ou Dragões, com suas variantes que veremos a seguir;

Mušmaḫḫū  = Seu nome quer dizer: "Serpente Exaltada/Distinta/Magnífica". Era uma mistura de serpente, leão e pássaro, às vezes identificado com a serpente de sete cabeças morta por Ninurta na mitologia do período sumério. Mas esse não pode ser o candidato a Serpente do Éden. Isso por causa de sua mistura, um tanto diferente do mito bíblico.

Saiba mais sobre:

https://adalbersantos.blogspot.com/2025/08/musmahhu.html


Ušumgallu = Seu nome quer dizer: "Grande Dragão". Geralmente descrito como um demônio leão - dragão, foi identificado de forma um tanto especulativa com o dragão alado de quatro patas. Este personagem mitológico também está fora da nossa lista, pela razão de ser assemelhado mais com um dragão alado, do que como uma serpente.

Saiba mais sobre: 

https://adalbersantos.blogspot.com/2025/08/usumgallu.html


Mušḫuššu = Seu nome quer dizer: "Serpente Avermelhada ou Serpente Feroz". MUŠ significa "serpente", e ḪUŠ pode ser interpretado como "avermelhado" ou "feroz". 

Mušḫuššu é, segundo os mitos Sumérios, um dragão com um corpo muito fino e escamoso. Possuía pescoço alongado, cauda longa, braços semelhantes aos de um leão e pernas de águia. Para tornar essa criatura ainda mais intimidadora, possuía chifres, orelhas e, eventualmente, asas. 

Esse também não poderia ser a nossa serpente da mitologia bíblica de gênesis.

Saiba mais sobre:

https://adalbersantos.blogspot.com/2025/08/mushussu.html


Bašmu = Seu nome quer dizer: "Cobra Venenosa". Era uma cobra com chifres, duas patas dianteiras e asas. Era também o nome da constelação de Hydra.

Os termos sumérios ušum (retratado com pés), e muš-šà-tùr ("deusa do nascimento, cobra", retratada sem pés) podem representar diferentes tipos iconográficos ou diferentes demônios.

Na rica paisagem mitológica da antiga Mesopotâmia, Bašmu surge como uma criatura significativa, cujas origens remontam a milhares de anos, esse ser é representado em cuneiforme como MUŠ.ŠÀ.TÙR ou MUŠ.ŠÀ.TUR. A tradução literal de seu nome é "Serpente Venenosa", o que oferece uma pista fundamental sobre sua natureza.

No entanto, existem termos diferentes em sumério, como ušum (visto no contexto do Dragão de Ninurta), representado com pés, e muš-šà-tùr, que significa deusa serpente do nascimento, representado sem pés. Esses termos sumérios podem representar diferentes tipos iconográficos ou até mesmo diferentes demônios. A existência de termos sumérios separados para serpentes com pés e sem pés indica uma compreensão mais sutil desses seres semelhantes a serpentes no pensamento mesopotâmico primitivo e provavelmente reflete diferentes papéis ou significados simbólicos.

Também é significativo que seja o nome acádio para a constelação babilônica (MUL.DINGIR.MUŠ) , equivalente à Hidra grega.

O fato de Bašmu ter dado seu nome a uma grande constelação demonstra o quão intimamente a mitologia mesopotâmica estava interligada com a compreensão do cosmos, sugerindo uma crença na interconexão dos reinos terrestre e celestial.

É certo que a Serpente do Éden é o Bašmu, pois todas estas características corroboram que os escritores do Gênesis, se inspiraram no Bašmu sumério para fazer a serpente Nāḥāsh do mito hebraico que está na bíblia.

Saiba mais sobre:

https://adalbersantos.blogspot.com/2025/08/basmu.html



quarta-feira, 6 de agosto de 2025

Niraḫ

 


Nirah era um deus mesopotâmico que servia como mensageiro (šipru) de Ištaran, o deus de Der. Ele era representado na forma de uma cobra.

O nome Nirah significa "pequena cobra" em sumério. Poderia ser escrito com o logograma d MUŠ (sumério: 𒀭𒈲), como já atestado em textos do terceiro milênio a.C. de Ebla. No entanto, este logograma também poderia designar Ištaran, Ninazu, o deus tutelar de Susa , Inshushinak, o deus tutelar de Eshnunna, Tishpak, e a divindade primordial do rio Irḫan. Com um determinativo diferente, mul MUŠ, referia-se à constelação de Hydra.  As grafias silábicas também são atestadas, por exemplo Ne-ra-aḫ, Ni-laḫ 5, Ni-ra-aḫ e Ni-ra-ḫu.

Nirah foi por vezes confundido com Irḫan, originalmente o nome do ramo ocidental do Eufrates, personificado como uma divindade. A história inicial destas duas divindades não é totalmente compreendida, e foi proposto que os seus nomes eram cognatos entre si, embora a visão de que partilhavam a mesma origem não seja universalmente aceite. 

Nirah poderia ser chamado de "senhor do submundo", embora ele compartilhasse esse epíteto com muitos outros deuses, incluindo Ninazu, Ningishzida, Nergal e a divindade primordial Enmesharra. 

Cordas ou intestinos podem ser comparados a Nirah na literatura mesopotâmica, por exemplo em uma inscrição de Gudea, em um hino a Shulgi e em encantamentos.

Nenhuma fonte conhecida indica que Nirah foi retratado em forma antropomórfica. As cobras retratadas em kudurru são frequentemente identificadas como representações dele em inscrições que as acompanham. Em muitos casos, a serpente Nirah circunda os símbolos de outras divindades. Uma cobra retratada em um tijolo com uma inscrição de um dos dois governantes cassitas com o nome Kurigalzu (Kurigalzu I ou Kurigalzu II) encontrada perto de Der provavelmente pode ser identificada como Nirah. No entanto, nem toda cobra presente na arte mesopotâmica é necessariamente Nirah, já que algumas delas podem representar outras divindades, como Šibbu, Dunnanu ou o deus verme Išqippu. Cobras com chifres são provavelmente representações de seres míticos como Bašmu, em vez de Nirah.

Às vezes, presume-se que um deus representado com a parte superior do corpo de um humano e a parte inferior de uma cobra, conhecido por selos cilíndricos do período Sargônico, pode ser Nirah. Frans Wiggermann argumenta que isso é implausível, pois Nirah era uma divindade serva, enquanto o deus cobra é representado como um "senhor independente" e, como tal, é mais provável que seja Ištaran.

Nirah era considerado o mensageiro (šipru) de Ištaran, embora não como seu suckal, já que esse papel pertencia ao deus Qudma. Ištaran também poderia ser considerado o pai de Nirah. Eles geralmente aparecem juntos em listas de deuses e, em um comentário posterior, são identificados um com o outro. Em um único caso, Nirah é listado como um membro da corte de Shamash em vez de Ištaran. Muito provavelmente, os teólogos do primeiro milênio aC de Sippar responsáveis pela composição da inscrição que o abordava como tal confiaram no fato de que seu mestre era bem conhecido como uma divindade juíza, de forma semelhante a Shamash.

Nirah também pode ser associado a vários deuses do submundo, por exemplo Ningishzida. Em uma única lista de deuses da Antiga Babilônia, Išḫara aparece logo depois dele, possivelmente devido à sua associação compartilhada com cobras.

No mito da Jornada de Enki a Nippur, Nirah atua como o mastro de punt do barco do deus homônimo. 

Nenhuma fonte conhecida indica que Nirah tinha esposa ou filhos.

As evidências de ofertas dedicadas a Nirah são relativamente escassas, embora se presuma que ele era adorado pelo menos em Der e Nippur. Uma inscrição de Esarhaddon listando deuses retornados a Der confirma que Nirah era adorado nesta cidade.Uma fórmula de um ano anterior de um rei não identificado da área de Diyala menciona um trono e uma cela de Nirah, possivelmente também localizados em Der. Em Nippur, Nirah poderia ser considerado um dos espíritos protetores (udug) ou porteiros (idu) do templo Ekur.

Nirah aparece em nomes teofóricos dos períodos Sargônico, Ur III, Isin-Larsa, Babilônico Antigo, Cassita e Babilônico Médio. Por exemplo, quatro nomes que invocam Nirah são conhecidos de Nippur Cassita. Também é possível que o quarto rei da dinastia de Akshak conhecido da Lista de Reis Sumérios tivesse o nome Puzur-Nirah, embora também tenha sido sugerido que deveria ser lido como Puzur-Irḫan. Um único nome do Ur aquemênida também pode invocar Nirah de acordo com Frans Wiggermann. No entanto, Paul-Alain Beaulieu não tem certeza se a divindade em menção, representada pela escrita logográfica d MUŠ, deve ser entendida como Nirah ou Irḫan. Ele transcreve provisoriamente o nome em menção como Niraḫ-dān, "Nirah é poderoso." 



O MITO DE LABBU




O Mito de Labbu é um antigo épico da criação da Mesopotâmia. Apenas uma cópia dele é conhecida da Biblioteca de Assurbanipal. É comumente datado não depois do período da Antiga Babilônia, embora trabalhos recentes sugiram uma composição posterior. É um conto popular possivelmente da região de Diyala, já que a versão posterior parece apresentar o deus Tišpak como seu protagonista e pode ser uma alegoria representando sua substituição do deus-serpente ctônico Ninazu no topo do panteão da cidade de Eshnunna. Este papel é desempenhado por Nergal na versão anterior. Foi possivelmente um precursor do Enûma Eliš, onde Labbu - que significa "O Enfurecido" ou "leão", era o protótipo de Tiamat  e do conto cananeu de Baal lutando contra Yamm. Outros textos semelhantes incluem o Mito de Anzu e KAR 6. 

Dependendo da leitura do primeiro caractere no nome do antagonista (sempre escrito como KAL e pode ser lido como: Lab, Kal, Rib ou Tan), o texto também pode ser chamado de "O Assassinato de Labbu" ou "O Mito de Kalbu". Essa polivalência de leituras cuneiformes permite uma possível conexão com o monstro bíblico Raabe – mais sobre isso abaixo.

A seguinte tradução do Mito Labbu vem de Ayali-Darshan 2020. 


As cidades ficaram dilapidadas, as terras [...]

O povo diminuiu em número [...]

Para sua lamentação [... não] ...

Ele não tem piedade do clamor deles.

'Quem [criou] a serpente (MUŠ)?'

'O mar [criou] a serpente,

Enlil no céu projetou [sua forma]:

Seu comprimento é 50 beru (medida), [sua largura] um beru,

Meia medida de nindanu (-medida) de sua boca, um ninandu [sua ...],

Um nindanu o tempo de [suas] orelhas.

Por cinco nindanu ele [...] pássaros,

Na água, nove amma (-medida de profundidade) ele arrasta [...]

Ele levanta o rabo [...]'.

Todos os deuses do céu [estavam com medo]

No céu, os deuses se curvaram diante [...]

E a [face] da lua estava escurecida em suas bordas.

'Quem irá e [matará] Labb[u]?

(Quem) salvará... a vasta terra

E exercer a realeza [...]?'

'Vá, Tišpak, mate Labbu!

Salve a vasta terra [...]!

E exercer a realeza [...]!'

Tu me enviaste, ó Senhor, para matar a descendência do Rio (nāri),

(Mas) eu não conheço o semblante de Labbu.

[...] Ele abriu a boca e [falou] para [...]:

'Faça surgir as nuvens (e) a terrível tempestade [...]

[Segure] na sua frente o selo (do) seu pescoço,

Atire e mate Labbu!

(Então) ele fez as nuvens (e) a terrível tempestade [...]

O selo (de) seu pescoço (ele segurava) na frente dele,

Ele atirou e matou Labbu.

Por três anos, três meses, dia e noite

o sangue de Labbu fluiu [...].


Sinopse

Existente em duas cópias muito fragmentárias; uma da antiga Babilônia e uma posterior Assíria da Biblioteca de Assurbanipal, que não possuem linhas sobreviventes completas – o Mito de Labbu relata a história de um monstro possivelmente leonino, mas certamente serpentino: um Bašmu (muš ba -aš-ma) de cinquenta léguas  de comprimento ou um Mušḫuššu (MUŠ-ḪUŠ) de sessenta léguas de comprimento, dependendo da versão e reconstrução do texto. A abertura da versão da antiga Babilônia lembra a da Epopeia de Gilgamesh :


As cidades suspiram, os povos...

Os povos diminuíram em número,...

Para sua lamentação não havia quem...


As vastas dimensões de Labbu são descritas. O mar (tāmtu)  deu à luz o dragão (linha 6). A linha fragmentária: "Ele levanta a cauda..." o identifica, segundo Neil Forsyth, como um precursor de um adversário posterior; o dragão de Apocalipse 12:4, cuja cauda varreu um terço das estrelas do céu e as lançou para a terra. 

Na versão posterior, Labbu é criado pelo deus Enlil, que "desenhou uma imagem de um dragão no céu" para exterminar a humanidade cujo barulho estridente perturbava seu sono, um tema recorrente nos épicos da criação babilônicos. Não está claro se isso se refere à Via Láctea (Heidel, 1963) ou a um cometa (Forsyth, 1989). Os deuses ficam aterrorizados com a aparição dessa criatura monstruosa e apelam ao deus da lua Sin ou à deusa Aruru, que se dirige a Tišpak/Nergal para conter a ameaça e "exercer a realeza", presumivelmente sobre Eshnunna, como recompensa. Tišpak/Nergal levanta objeções ao envolvimento com a serpente, mas – após uma lacuna na narrativa, um deus cujo nome não é preservado fornece orientações sobre estratégia militar. Uma tempestade irrompe e o vencedor, que pode ou não ser Tišpak ou Nergal, de acordo com o conselho dado, dispara uma flecha para matar a fera.

Os fragmentos do épico não fazem parte de uma cosmogonia, como observado por Forsyth; visto que as cidades dos homens já existem quando a narrativa se desenrola. Frans Wiggerman interpretou a função do mito como uma forma de justificar a ascensão de Tishpak ao status de rei, "como consequência de sua 'libertação' da nação, sancionada pela decisão de um conselho divino".

Rahab é um dos vários nomes para os primordiais "dragões do caos" mencionados na Bíblia (cf.Leviatã, Tiamat/Tehom e Tannin). Como o cuneiforme é um silabário complexo , com alguns sinais funcionando como logogramas, alguns sinais representando múltiplos valores fonéticos e alguns representando sumerogramas, múltiplas leituras são possíveis. A primeira sílaba de Rahab, escrita com o sinal KAL , também pode ser lida como /reb/. Assim, Labbu também poderia ter sido chamado de Rebbu (reb-bu), assemelhando-se muito ao monstro hebraico mencionado na Bíblia.



Mušḫuššu

 


Seu nome quer dizer, Serpente Avermelhada ou Serpente Feroz.

MUŠ significa "serpente", e ḪUŠ pode ser interpretado como "avermelhado" ou "feroz". 

Mušḫuššu é, segundo os mitos Sumérios, um dragão com um corpo muito fino e escamoso. Possuía pescoço alongado, cauda longa, braços semelhantes aos de um leão e pernas de águia. Para tornar essa criatura ainda mais intimidadora, possuía chifres, orelhas e, eventualmente, asas.

Mušḫuššu, também conhecido como dragão mesopotâmico, é um símbolo do antigo herói-divindade mesopotâmico Marduk. Tornou-se predominante, principalmente após as vitórias do reino sumério.

Marduk era filho de Enki e Damgalnunna, também conhecida como Damkina, as duas divindades primordiais da religião mesopotâmica. Eles criaram a Terra.

A primeira aparição na literatura e na arqueologia mostra Marduk no mito mesopotâmico "a lenda do Enuma Elish". Nesta história em particular, Marduk derrota o perigoso Mušḫuššu e o torna seu servo. É um triunfo icônico e definitivo para Marduk, com Mušḫuššu também se tornando conhecido como o Dragão Marduk.

Mušḫuššu, juntamente com outros animais sagrados, é uma iconografia favorável e prevalente na cultura mesopotâmica. Os animais eram vistos como proteção contra inimigos, proteção contra os deuses e para atrair boa sorte divina.

Portanto, não é surpresa que um dos lugares onde Mušḫuššu pode ser visto seja no Grande Portão de Ishtar. Alguns dos vestígios podem ser vistos hoje em Berlim, Alemanha, no Museu de Pérgamo.

O Portão de Ishtar é um dos portões que cercam uma estrutura urbana muito maior. Diz-se que foi construído em 575 pelo Rei Nabucodonosor II para cercar e proteger a cidade da Babilônia (Babel).

Isso não só aumentou a proteção da cidade, como também a magnificência e o status lendário da cidade. Parte do aspecto mais extraordinário do Portão de Ishtar pode ser encontrado em sua base. Ele é coberto por figuras de touros, leões, plantas e o Dragão Mušḫuššu.

É evidente que Mušḫuššu ocupava um lugar especial na cultura suméria e na mitologia da criação. Nos mitos sumérios, Tiamat, a deusa primordial da água, é a mãe dos monstros dragões, o que a torna a mãe de Mušḫuššu.

Três desses dragões ostentam títulos de alta dignidade: Musmahhu, Basmu e Usumgallu. As lendas afirmam que esses dragões, ou Mušḫuššus, tinham três chifres e foram mortos pela divindade suméria da agricultura, Ninturna. Assim, sugere-se que esses dragões tenham sido a inspiração para o antigo cão grego de três cabeças, Cérbero.

Muitos monstros da Mesopotâmia e da Babilônia também foram vistos em constelações. Uma das mais famosas, e a mais antiga, foi a constelação de Basmu. Na Grécia Antiga, essa constelação era interpretada como a Hidra. Quando vista, pode parecer que uma cobra, um peixe, um leão e uma águia estão todos juntos. 

Para o povo mesopotâmico, o dragão era um símbolo de um demônio-serpente ou de um deus-serpente, devido às suas características híbridas, misturadas a uma variedade de animais. Foi assim que os mitos foram propagados e desenvolvidos. Por exemplo, Tishpak (Deus guerreiro associado às cobras), o adversário e opositor de Mardoque, era frequentemente retratado como um esbelto dragão-serpente.

Acredita-se que o Mito Kalbu, ou Mito Labbu, seja um precursor da Lenda Enuma Elish. O Mito Kalbu é um mito da criação do cosmos e de toda a natureza.

Estudiosos acreditam que Kalbu seja a versão original de Tiamat, a mãe de Mušḫuššu. Em uma versão posterior do mesmo mito, Kalbu é criada por Enlil, o deus do vento. Enlil criou Labbu para destruir os humanos, pois eles perturbavam seu sono.

Os outros deuses ficaram tão aterrorizados com Labbu que imploraram ao Deus do Caos, Tishpak, para derrotá-lo. A lenda afirma que Labbu levou três anos para sangrar até a morte após ser atacado por Tishpak. Foi notado que Labbu e Marduk são muito semelhantes. Portanto, não é surpreendente que o Dragão Marduk, Mushussu, tenha se tornado um símbolo da divindade Tishpak, já que ele era o oposto de Labbu.


Mitos Semelhantes

Nos Vedas, uma coleção de poemas sânscritos, existe um monstro mitológico semelhante, conhecido como Vritra. Era um dragão-serpente que representava os períodos de seca. Pesquisadores frequentemente apontam para o fato de que Mushussu foi criado por um deus da água em Tiamat e, em uma cultura próxima, dragões semelhantes a serpentes representavam a seca.

Vritra é apresentado como um Asura. Trata-se de um tipo específico de semideus ou titã que está sempre faminto. É frequentemente registrado como sedento de poder, egoísta e cruel. Na lenda, Vritra é derrotado por Indra, o deus hindu do Céu e líder de todos os outros deuses. A história guarda uma semelhança notável com Tishpak derrotando Labbu.

Dragões são vistos em culturas do mundo todo. Um lugar onde eles têm sido significativos é a China. O símbolo mais conhecido do imperador era o dragão que cuspia fogo. Na China Antiga, acreditava-se que os dragões eram responsáveis por muitos desastres naturais, como condições climáticas adversas e terremotos. Mesmo na China atual, o dragão ainda aparece no calendário e aparece durante as festividades de Ano Novo.

O principal dragão da China foi batizado de Nien. Reza a lenda que, ao final de cada ano, Nien aterrorizava as aldeias locais. Para evitar isso, os aldeões faziam barulhos altos, usavam fantasias chamativas e usavam luzes brilhantes, além de fogos de artifício. Essa tradição perdura até hoje. 

Os dragões, no entanto, não se limitavam ao Oriente. Os vikings escandinavos utilizavam o símbolo do dragão. Muitos navios vikings eram decorados com uma cabeça de dragão na proa do casco. Os navios com este símbolo eram chamados de Drakkar (os Navios-Dragão). É provável que isso tenha se originado de seus próprios mitos de criação, que apresentavam a serpente de Midgard, Jormungandar, que cercava a Terra.



segunda-feira, 4 de agosto de 2025

Bašmu

 



Seu nome quer dizer: "Cobra Venenosa". Era uma cobra com chifres, duas patas dianteiras e asas. Era também o nome da constelação de Hydra.

Os termos sumérios ušum (retratado com pés), e muš-šà-tùr ("deusa do nascimento, cobra", retratada sem pés) podem representar diferentes tipos iconográficos ou diferentes demônios. É atestado pela primeira vez por uma inscrição cilíndrica do século 22 a.C. em Gudea.

No Angim, ou "retorno de Ninurta a Nippur", foi identificado como um dos onze"guerreiros" (ur-sag) derrotados por Ninurta. Bašmu foi criado no mar e tinha "96 kilômetros de comprimento", de acordo com um mito assírio fragmentário que relata que ele devorava peixes, pássaros, jumentos selvagens e homens, garantindo a desaprovação dos deuses que enviaram Nergal ou Palil ("encantador de serpentes") para vencê-lo. Foi um dos onze monstros criados por Tiamat no mito da criação Enuma Elish. 


Na rica paisagem mitológica da antiga Mesopotâmia, Bašmu surge como uma criatura significativa, cujas origens remontam a milhares de anos. Conhecido em acádio como bašmu (em sua forma romanizada), esse ser é representado em cuneiforme como MUŠ.ŠÀ.TÙR ou MUŠ.ŠÀ.TUR. A tradução literal de seu nome é "Serpente Venenosa", o que oferece uma pista fundamental sobre sua natureza.

No entanto, existem termos diferentes em sumério, como ušum (visto no contexto do Dragão de Ninurta), representado com pés, e muš-šà-tùr, que significa deusa serpente do nascimento, representado sem pés. Esses termos sumérios podem representar diferentes tipos iconográficos ou até mesmo diferentes demônios. A existência de termos sumérios separados para serpentes com pés e sem pés indica uma compreensão mais sutil desses seres semelhantes a serpentes no pensamento mesopotâmico primitivo e provavelmente reflete diferentes papéis ou significados simbólicos.

Um único termo em acádio pode representar uma fusão posterior ou o foco em uma qualidade fundamental (veneno). A conexão de Ušum com o Dragão de Ninurta sugere uma conotação potencialmente mais poderosa ou caótica dessa forma do que muš-šà-tùr, enquanto muš-šà-tùr, que significa "serpente da deusa do nascimento", sugere um aspecto mais nutritivo ou vivificante.

As principais características de Bašmu são ser uma serpente com chifres e ter duas patas dianteiras e asas; esses atributos são encontrados consistentemente em inúmeras fontes. A menção a "veneno poderoso" é notável, em consonância com seu nome acádio. Além disso, um mito assírio fragmentário o descreve como tendo "96 pares de kilometros" de comprimento, enfatizando sua natureza temível.

A recorrência de características como chifres, patas dianteiras e asas em vários textos cria uma imagem reconhecível e estável dessa criatura na mitologia mesopotâmica. O enorme tamanho mencionado no mito assírio ressalta a natureza formidável e potencialmente aterrorizante da criatura e condiz com seu papel como um ser monstruoso.

A evidência mais antiga conhecida de Bašmu é uma inscrição cilíndrica do século 22 a.C., datada do reinado de Gudea. Essa data relativamente antiga destaca a longa presença de Bašmu na cultura e nos sistemas de crenças mesopotâmicos. Também é significativo que seja o nome acádio para a constelação babilônica (MUL.DINGIR.MUŠ) , equivalente à Hidra grega.

O fato de Bašmu ter dado seu nome a uma grande constelação demonstra o quão intimamente a mitologia mesopotâmica estava interligada com a compreensão do cosmos, sugerindo uma crença na interconexão dos reinos terrestre e celestial.

Após reiterar as características básicas de Bašmu (serpente com chifres, asas e membros anteriores), o detalhe específico no "Enuma Eliş" de que ele possuía. Essa representação vívida enfatiza a natureza monstruosa, talvez aterrorizante, da criatura. O número sete frequentemente tinha significado simbólico na cultura mesopotâmica. Além disso, a possível representação visual da constelação de Hidra (MUL.DINGIR.MUŠ), identificada no Veda, sugere que ele pode ter tido corpo de peixe, cauda de cobra, patas dianteiras de leão, patas traseiras de águia, asas e uma cabeça semelhante à de Mušḫuššu.

Esta imagem composta, que difere da descrição padrão do próprio Bašmu, pode indicar que a constelação associada a Bašmu nem sempre foi visualizada como uma serpente com duas patas dianteiras e asas. A elaborada representação de seis bocas e sete línguas no "Enuma Elish" destaca a tendência mesopotâmica de dotar criaturas monstruosas de características exageradas e perturbadoras, provavelmente com a intenção de inspirar admiração e medo.

O uso do número sete reflete seu peso simbólico na cultura mesopotâmica. O fato de a constelação de Hidra compartilhar características com um ser mitológico diferente, Mušḫuššu, pode apontar para um conceito mesopotâmico mais amplo de seres poderosos, compostos e semelhantes a serpentes, associados ao cosmos. Isso pode indicar que a constelação nem sempre foi visualizada como um Bašmu claramente alado, com duas patas dianteiras.

Um selo cilíndrico neoassírio claramente representado, do século IX/VIII a.C., mencionado em vários textos, retrata o deus do Ar, armado com raios, lutando contra um dragão, Bašmu. Essa representação artística simboliza o papel de Bašmu como uma força poderosa e potencialmente destrutiva que pode ser combatida pela autoridade divina, reforçando o tema da ordem cósmica triunfando sobre as forças do caos. Embora a inscrição cilíndrica de Gudea, do século XXII a.C., seja a evidência textual mais antiga de Bašmu, sua representação visual neste artefato específico carece de informações detalhadas nas fontes existentes.

No entanto, a iconografia mais ampla de serpentes com chifres sugere sua associação com divindades como Ningishzida, que às vezes é retratada como uma serpente com chifres ou mostrada ao lado de Bašmu, Mušḫuššu e Ušumgallu, indicando ainda mais a conexão de Bašmu com Ningishzida e às vezes retratada enrolada em um cajado; os frequentes relevos de cobras em kudurrus (pedras de limite) provavelmente representam Niraḫ [O nome Nirah significa "pequena cobra" em sumério. Poderia ser escrito com o logograma d MUŠ (cobra ou serpente). 

Nirah era um deus mesopotâmico que servia como mensageiro (šipru) de Ištaran, o deus de Der. Ele era representado na forma de uma cobra].

Essa evidência artística sugere que criaturas semelhantes a cobras, e particularmente as com chifres, podem ter tido significado protetor ou divino na Mesopotâmia, além de papéis meramente malévolos.

Embora o termo "serpente com chifres" abranja várias criaturas mitológicas da Mesopotâmia, a distinta iconografia composta de Mušḫuššu, frequentemente retratado no famoso Portão de Ishtar da Babilônia do século VI a.C., com suas patas dianteiras de leão, patas traseiras de pássaro, pescoço longo, cabeça com chifres e feições de serpente, claramente o distingue da forma descrita de Bašmu.

Da mesma forma, Ušumgallu é frequentemente descrito como um demônio leão-dragão, às vezes alado e geralmente com uma só cabeça, o que o distingue da representação típica de Bašmu, com duas patas dianteiras. Assim, embora o termo "serpente com chifres" abranja uma variedade de criaturas mitológicas mesopotâmicas, suas diversas representações artísticas e mitos associados sugerem que elas ocupam lugares únicos no cenário cultural e religioso e provavelmente servem a propósitos simbólicos distintos.

A combinação particular de chifres, asas e patas dianteiras provavelmente identificou Bašmu visual e conceitualmente.

A combinação particular de chifres, asas e patas dianteiras provavelmente identificou Bašmu visual e conceitualmente.

Esta narrativa reforça o tema da mitologia mesopotâmica de que o poder divino supera ameaças monstruosas.

O mito assírio detalha que Bašmu foi criado no mar e atingiu um comprimento impressionante de "sessenta pares de milhas". Ele se alimentava de peixes, pássaros, jumentos selvagens e humanos, o que desagradou os deuses. Por isso, os deuses enviaram Nergal ou Palil ("encantador de serpentes") para derrotar essa enorme serpente. A criação de Bašmu no mar e seu tamanho imenso enfatizam sua natureza primordial e avassaladora, alinhando-se à associação comum do mar com o caos e o desconhecido na mitologia.

Seus hábitos alimentares destrutivos reforçam ainda mais seu caráter monstruoso. O desgosto dos deuses e o subsequente envio de Nergal ou Palil para derrotar Bašmu demonstram a responsabilidade divina de manter o equilíbrio cósmico e proteger a humanidade de tais criaturas destrutivas. Esta narrativa reforça o poder e a autoridade do panteão mesopotâmico .

No épico da criação "Enuma Elish", Bašmu é destacado como um dos onze monstros nascidos da deusa primordial Tiamat. Tiamat é a personificação do caos primordial e do abismo aquático. Outras criaturas temíveis, como Mušmaḫḫū, também descendem de Tiamat.

A descendência de Basmu de Tiamat estabelece claramente sua conexão com as forças primordiais do caos que existiam antes do cosmos ordenado da criação. Isso explica seu papel antagônico nos mitos, colocando-o em oposição à geração posterior de deuses que estabeleceram a ordem.

Bašmu é classificada como uma das três serpentes chifrudas mais proeminentes da mitologia acádia, sendo as outras duas Mušmaḫḫū e Ušumgallu. O agrupamento de Bašmu com Mušmaḫḫū e Ušumgallu sugere uma categoria específica de seres poderosos, semelhantes a serpentes, reconhecidos na mitologia mesopotâmica. A característica comum do chifre provavelmente indica uma associação simbólica comum com poder, autoridade ou até mesmo perigo.


A descrição física de Bašmu (serpente com chifres, alada e com membros dianteiros) difere claramente daquela de Mušḫuššu, que é consistentemente retratado como uma criatura composta com membros dianteiros semelhantes aos de um leão, membros traseiros semelhantes aos de um pássaro, pescoço longo, cabeça com chifres, língua semelhante à de uma cobra e crista.


Além disso, a associação significativa de Mušḫuššu com divindades importantes como Marduk e seu filho Nabu não é explicitamente declarada para Bašmu nos textos existentes, sugerindo papéis e significados simbólicos diferentes. Assim, embora o termo "serpente com chifres" abranja ambas as criaturas , seus atributos físicos distintos e afiliações divinas sugerem que eram entidades separadas e distintas dentro do cenário mitológico e religioso mesopotâmico, e provavelmente serviam a propósitos simbólicos diferentes.

Já foi sugerido anteriormente que os termos sumérios ušum (representado com pés, associado ao Dragão de Ninurta) e muš-šà-tùr ("deusa serpente do nascimento", representada sem pés) podem representar diferentes tipos iconográficos ou até mesmo diferentes demônios. A possível conexão de Ušum com o Dragão de Ninurta sugere uma forma mais terrestre ou poderosa, semelhante a um dragão, enquanto muš-šà-tùr, que significa "deusa serpente do nascimento", sugere uma possível associação com a fertilidade e o feminino divino.

A terminologia suméria sugere uma classificação mais detalhada e potencialmente mais antiga de seres semelhantes a serpentes com base em características físicas (presença de pés) e papéis associados (guerreira vs. deusa do parto), sugerindo uma compreensão complexa dessas criaturas dentro da visão de mundo suméria.

O termo acadiano posterior, Bašmu, pode ter servido como um termo mais geral, abrangendo aspectos tanto de ušum quanto de muš-šà-tùr, levando a um grau de sobreposição conceitual ou ambiguidade na mitologia mesopotâmica posterior. O foco no aspecto da "serpente venenosa" em acadiano pode ter ofuscado as distinções anteriores.

É crucial que Bašmu seja o nome acádio para a constelação babilônica MUL.DINGIR.MUŠ, equivalente à constelação grega de Hidra ( a Serpente D'água). Catálogos estelares babilônicos indicam que esta constelação também contém a estrela β Cancri. O fato de uma constelação tão proeminente levar o nome Bašmu enfatiza a posição significativa da criatura dentro da estrutura cultural e cosmológica babilônica.

Isso sugere que os atributos e mitos associados a Bašmu eram considerados importantes o suficiente para serem projetados na esfera celeste, refletindo uma crença na interconexão dos reinos terrestre e celestial.

Vale ressaltar que a constelação de Hidra fica no hemisfério celeste sul, ao sul da constelação de Câncer. No entanto, a astronomia babilônica observa que havia duas constelações de "serpentes": Mušḫuššu (posteriormente a Hidra grega) e Bašmu (posteriormente a Serpens grega).

Isso representa uma contradição à equivalência previamente estabelecida entre Bašmu e a Hidra. A existência de duas constelações distintas de serpentes na astronomia babilônica e as diferenças em suas descrições gregas posteriores sugerem uma compreensão mais complexa do que uma simples correspondência biunívoca. Isso implica que tanto Bašmu quanto Mušḫuššu desempenharam papéis celestes importantes, embora talvez diferentes.

Pode-se especular sobre as razões da associação de Basmu com a constelação de Hidra. Sua forma serpentina é uma clara conexão. Talvez certos mitos babilônicos ou interpretações de eventos celestes associados a essa constelação apresentassem a figura de uma serpente venenosa. Dada a conexão estabelecida entre a constelação e a Hidra de Lerna, de múltiplas cabeças, na mitologia grega, morta por Hércules , a potencial influência da mitologia mesopotâmica nesse mito grego também deve ser considerada.

O ato de projetar uma criatura mitológica nas estrelas pode ter servido a vários propósitos, incluindo fornecer uma estrutura narrativa para entender a ordem celestial, reforçar a importância da criatura dentro da cultura e potencialmente vincular eventos terrestres a forças cósmicas.

Bašmu é claramente comparável à Hidra grega; ambos compartilham naturezas semelhantes a serpentes e status monstruoso. O aspecto multicéfalo da Hidra grega e a possibilidade de que Bašmu também pudesse ter tido multicéfalos, como mencionado no Enuma Elish, são dignos de nota. A serpente de sete cabeças na mitologia suméria e sua potencial conexão com Bašmu ou Mušmaḫḫū sugerem que serpentes multicéfalas eram um motivo recorrente na mitologia mesopotâmica. Semelhanças entre Bašmu e monstros semelhantes a cobras em outras culturas , particularmente a Hidra grega e a serpente suméria de sete cabeças, sugerem arquétipos mitológicos potencialmente compartilhados ou trocas culturais no mundo antigo. O motivo prevalente da serpente com chifres sugere um fascínio humano profundamente enraizado ou associação simbólica com tais criaturas.

O simbolismo geral das cobras no Oriente Próximo, como enfatizado, inclui associações com proteção, perigo, cura, renovação e, às vezes, até mesmo divindade. O fato de os chifres representarem poder, força e fertilidade na arte mesopotâmica potencialmente aumenta a importância do Bašmu com chifres.

Em consonância com seu nome acádio, o significado simbólico da natureza venenosa de Bašmu também deve ser considerado, sugerindo uma capacidade tanto para a vida quanto para a morte. A combinação da forma de serpente com chifres provavelmente reforçava o poder simbólico de Bašmu, sugerindo uma criatura que incorporava poderes imensos e potencialmente divinos, capaz tanto de destruição (veneno) quanto, talvez, em alguns contextos (por exemplo, o aspecto "deusa serpente do nascimento" de muš-šà-tùr), de criação ou proteção.

Bašmu, conhecido por nomes acádios e sumérios , pode ser resumido por suas características básicas: uma serpente chifruda, alada e venenosa, e desempenha papéis importantes na mitologia mesopotâmica. Seus papéis mitológicos fundamentais como guerreiro derrotado de Ninurta, descendente de Tiamat e monstruosa criatura marinha derrotada pelos deuses devem ser reiterados. Sua significativa conexão com a constelação de Hidra também deve ser reenfatizada.

A imagem e o conceito de Bašmu, mesmo em contextos modernos, destacam o poder duradouro dos mitos antigos e sua capacidade de repercutir através do tempo e das culturas. A figura do monstro poderoso, muitas vezes semelhante a uma serpente, permanece um arquétipo duradouro no imaginário humano.






Mušmaḫḫū

 


Mušmaḫḫū, inscrito em sumério como 𒈲𒈤 MUŠ.MAḪ, em acádio como muš-ma-ḫu, que significa "Serpente Exaltada/Distinta/Magnífica", foi um antigo híbrido mitológico mesopotâmico de serpente, leão e pássaro, às vezes identificado com a serpente de sete cabeças morta por Ninurta na mitologia do período sumério. Ele é uma das três cobras com chifres, com seus companheiros, Bašmu e Ušumgallu , com quem pode ter compartilhado uma origem mitológica comum.
Em Angim , ou "O retorno de Ninurta a Nippur", o deus da tempestade descreve uma de suas armas como "a serpente muš-mah de sete bocas", uma reminiscência do mito grego de Hércules e da Hidra de Lerna de sete cabeças que ele matou no segundo de seus Doze Trabalhos. Uma concha gravada do período dinástico inicial mostra Ninğirsu matando a mušmaḫḫū de sete cabeças. 
No Épico da Criação, Enûma Eliš, Tiāmat dá à luz (alādu) serpentes míticas, descritas como mušmaḫḫū, "com dentes afiados, presas implacáveis, em vez de sangue ela encheu seus corpos com veneno".
O termo sumério , quando traduzido como MUŠ.MAḪ, significa literalmente "grande/magnífica serpente". Isso enfatiza imediatamente a associação primária da criatura com cobras , um símbolo frequentemente imbuído de admiração e medo em culturas antigas. Sua contraparte acádia  , muš-ma-ḫu  , corrobora essa interpretação. Mušmaḫḫū aparece ao lado de Bašmu e Ušumgallu na tradição mesopotâmica como uma das serpentes de três chifres , sugerindo uma origem mitológica comum e um simbolismo interconectado.
Musmahhu aparece com frequência em vários textos mesopotâmicos, frequentemente associado a um poder impressionante e ao caos. Uma conexão notável é sua possível identificação com a serpente de sete cabeças morta pelo deus sumério Ninurta.
Esta citação de Angim associa Mušmaḫḫū a uma criatura de imenso potencial destrutivo, capaz de causar estragos em uma escala que só um deus poderoso como Ninurta poderia superar. Isso ecoa o mito grego da Hidra de Lerna , uma serpente de sete cabeças que Hércules teve que derrotar como parte de seus doze trabalhos.
Essa comparação destaca o motivo comum de um herói lutando contra uma serpente de muitas cabeças , tema comum em diversas mitologias antigas. Uma escultura do período dinástico inicial consolida ainda mais essa conexão ao representar Ningirsu (outro nome para Ninurta) matando um mušmaḫḫū de sete cabeças.
No entanto, Mušmaḫḫū não é apresentado apenas como um inimigo formidável. No épico babilônico da criação ,  Enûma Eliš , a deusa  primordial Tiāmat dá à luz serpentes aterrorizantes, incluindo Mušmaḫḫū, para guerrear contra os deuses mais jovens.
Esta passagem retrata os Mušmaḫḫū como criaturas de imenso poder e natureza venenosa, empunhadas como armas por Tiāmat em sua guerra cósmica. Seus dentes afiados, presas brutais e corpos cheios de veneno enfatizam sua presença perigosa e assustadora.



Ušumgallu




Ušumgallu, Ushumgallu ou Ušum.gal, "Grande Dragão" foi uma das três cobras com chifres na mitologia suméria e acádia, junto com o Bašmu e o Mušmaḫḫū. Geralmente descrito como um demônio leão - dragão, foi identificado de forma um tanto especulativa com o dragão alado de quatro patas do final do terceiro milênio a.C.

Diz-se que Tiamat "vestiu o furioso dragão-leão com temor" no Épico da Criação, Enuma Elish. O deus Nabû foi descrito como "aquele que pisoteia o dragão-leão" no hino a Nabû. O texto neoassírio tardio "Mito dos Sete Sábios" lembra: "O quarto (dos sete apkallu's, "sábios", é) Lu-Nanna, (apenas) dois terços Apkallu, que expulsou o dragão ušumgallu de É-ninkarnunna, o templo de Ištar de Šulgi." 

Aššur-nāṣir-apli II colocou ícones dourados de ušumgallu no pedestal de Ninurta. Seu nome se tornou um epíteto real e divino, por exemplo: ušumgal kališ parakkī, "governante incomparável de todos os santuários". Marduk é chamado de "ušumgallu - dragão dos grandes céus".

Na lista de deuses, An = Anum Ušumgal é listado como o sukkal (vizir) de Ninkilim 


As antigas culturas mesopotâmicas, o berço da civilização, tinham seus próprios dragões, e Ušumgallu se destaca entre eles. O próprio nome deriva do sumério e significa literalmente " Grande Dragão ".

Ušumgallu não era apenas um dragão solitário; ele fazia parte de um grupo de três poderosas criaturas semelhantes a serpentes com chifres na mitologia acádia. Imagine este grupo temível: Ušumgallu, Bašmu e Mušmaḫḫū . Essas não eram serpentes comuns; eram seres lendários profundamente entrelaçados na trama de suas crenças e histórias. Embora os três sejam fascinantes, hoje vamos nos concentrar especificamente em Ušumgallu, que é descrito como um demônio dragão-leão.

Curiosamente, estudiosos levantaram a hipótese de uma conexão entre Ušumgallu e representações de um dragão alado de quatro patas que datam do final do terceiro milênio a.C. Imagine só: esculturas e imagens que datam de milhares de anos provavelmente nos oferecem um vislumbre da representação visual dessa fera lendária . É como voltar no tempo e testemunhar o nascimento da mitologia dos dragões!

No Enuma Elish  , vemos Ušumgallu desempenhar um papel proeminente, detalhando a batalha cósmica entre a antiga deusa Tiamat e os deuses mais jovens. Representando o caos e as águas ancestrais, Tiamat enfureceu-se e criou um exército de monstros para guerrear contra os deuses, que ela acreditava estarem perturbando a ordem natural. Adivinhe quem fazia parte desse exército monstruoso?

 Tiamat não cria apenas um dragão; ela cria um ser que irradia puro terror, medo e admiração. Nesse contexto, Ušumgallu é uma arma de destruição em massa, um símbolo do caos primordial desencadeado contra as forças da ordem e da criação. É uma imagem poderosa que enfatiza a natureza inerentemente aterrorizante do dragão.

Além da epopeia da criação, encontramos o dragão mencionado em outros textos religiosos e reais. Considere Nabu, o deus da sabedoria, da escrita e da vegetação. Em um hino dedicado a Nabu, ele é descrito como "pisoteando o leão-dragão". Esta é uma mudança de perspectiva fascinante.  Enquanto no Enuma Elish,  Ušumgallu é uma força do caos , aqui ele é algo a ser superado, um símbolo do mal ou da desordem que um deus poderoso como Nabu pode conquistar.

Isso sugere uma compreensão mais sutil de Ušumgallu, de que talvez ele nem sempre seja apenas um monstro, mas um símbolo que pode ser interpretado de maneiras diferentes dependendo do contexto.

Enriquecendo ainda mais o perfil lendário de Ušumgallu está sua aparição no texto neoassírio tardio conhecido como a "Lenda dos Sete Sábios". Este texto narra os feitos dos Apkallu, sábios semidivinos que trouxeram a civilização à humanidade. Nessa lenda, encontramos um desses sábios, Lu-Nanna, que é descrito como tendo "expulsado o dragão ušumgallu de É-ninkarnunna, o templo de Ištar de Šulgi".

Esta história apresenta Ušumgallu como uma força destrutiva que deve ser expulsa dos espaços sagrados. Ele é uma figura guardiã, mas talvez em um sentido negativo, simbolizando as forças caóticas que constantemente ameaçam invadir a ordem e a santidade. Como sábio, Lu-Nanna representa a sabedoria e a ordem triunfando sobre esse dragão caótico.

A importância de Ušumgallu estendeu-se além das narrativas mitológicas. Permeou até mesmo os reinos real e divino. O rei Assur-nāṣir-apli II, um poderoso governante assírio, é registrado como tendo colocado ícones de ouro de Ušumgallu no pedestal do deus Ninurta. Este ato não era meramente decorativo; era também profundamente simbólico. Ao associar Ušumgallu a Ninurta , o deus da guerra, da caça e da agricultura, o rei provavelmente estava se referindo ao poder do dragão e talvez implicando uma conexão entre a autoridade real e o controle dessas forças primordiais.

Imagine ícones de dragões dourados adornando o pedestal de uma estátua de um deus poderoso – isso diz muito sobre a importância percebida de Ušumgallu.

Ainda mais significativo é como o nome "Ušumgallu" se tornou um epíteto real e divino. Expressões como "Ušumgal kališ parakkī", que significa "governante inigualável de todos os domínios sagrados", começaram a aparecer. Não se tratava apenas de um termo descritivo; era um título de poder e autoridade diretamente ligado ao nome do dragão. Imagine só: associar um governante ao "Grande Dragão" implica poder, soberania e talvez até um toque de medo incomparáveis.

Mesmo Marduk , o deus principal da Babilônia, não estava imune a essa associação. Ele é chamado de "ušumgallu, o dragão dos grandes céus". Isso eleva Ušumgallu a um nível cósmico, conectando-o aos mais altos escalões do reino divino. Ele não é mais simplesmente um monstro ou uma criatura mítica; é um símbolo do poder supremo e da autoridade celestial representados pelo próprio Marduk.

E nas listas de divindades, encontramos "Ušumgal"  listado como o sukkal  (vizir ou servo) da divindade menos conhecida Ninkilim. Mesmo nesse papel aparentemente insignificante, ele consolida o lugar de Ušumgallu na hierarquia divina. Servir como vizir, mesmo para uma divindade menor, ainda é uma posição significativa, destacando a presença consistente do dragão em todo o pensamento religioso e mitológico mesopotâmico.

Para realmente apreciar Ušumgallu, é útil situá-lo no contexto mais amplo da mitologia mesopotâmica. Lembre-se de que mencionamos outras criaturas como Anzu, Bašmu e Mušmaḫḫū. Frequentemente retratado como um leão-pássaro gigante , Anzu compartilha algumas características monstruosas com Ušumgallu e também é associado a conflitos e lutas por poder divino.

Os mitos que cercam a matança de dragões por Ninurta e a criação de uma serpente de sete cabeças ilustram ainda mais a prevalência de criaturas semelhantes a dragões e de temas heroicos de matança de dragões nas narrativas mesopotâmicas. Em conjunto, essas histórias pintam o quadro de um mundo repleto de bestas míticas, no qual os dragões desempenhavam papéis complexos e multifacetados, que variavam de forças caóticas a símbolos de poder divino.

À medida que viajamos por mitos e textos, fica claro que Ušumgallu era muito mais do que apenas um monstro. Ele era um símbolo poderoso, capaz de personificar o caos e o terror, mas também era associado à realeza, à divindade e ao poder supremo. Dos campos de batalha da criação cósmica aos pedestais dos deuses e aos títulos dos reis, Ušumgallu deixou sua marca no imaginário mesopotâmico.

Explorar esses mitos antigos oferece um vislumbre da rica tapeçaria de crenças e linguagens simbólicas que moldaram as primeiras civilizações. O Grande Dragão Ušumgallu nos lembra que os dragões, em suas inúmeras formas, cativam a imaginação humana há milênios, servindo como metáforas poderosas para os aspectos aterrorizantes e inspiradores do mundo ao nosso redor. E quem sabe, talvez da próxima vez que você vir um dragão em uma história de fantasia, se lembre de Ušumgallu, o antigo dragão mesopotâmico que rugiu através dos tempos.





quinta-feira, 31 de julho de 2025

UNIVERSO 25

 


Entre as décadas de 1940 e 1970 o pesquisador John Calhoun realizou vários experimentos com ratos para ver como as sociedades se comportariam diante da superpopulação. O mais famoso deles, o Universo 25, criou um paraíso de abundância para uma comunidade de ratos que, bem antes de atingir a superpopulação, sucumbiu e foi extinta por seus próprios atos. De forma bastante violenta e surpreendente.

Ao final do artigo conto essa história, que é assustadora, pois se parece muito com nossa sociedade ocidental pós-moderna, mas antes disso, preciso fazer uma introdução para explicar o que considero ser, realmente, a principal contribuição do experimento de Calhoun para o debate sobre as sociedades atuais.


Não, o problema não é a superpopulação.

Esse experimento precisa ser revivido e recontado, 50 anos depois de sua conclusão, mas com enfoque diferente.

Calhoun era um “martelo que só via prego”, ou seja, como ele estudava os efeitos da superpopulação, tentava explicar todo o ocorrido, e foram fatos realmente assustadores, através desse único prisma. O problema é que, como o experimento criou um paraíso de abundância, muitos dos verdadeiros problemas que enfrentaríamos com a superpopulação, como escassez de água, alimento, recursos, assistência médica e espaço, não ocorreram, e mesmo assim a população de ratos se extinguiu. O que nos leva a buscar explicações alternativas.


O problema da abundância

O experimento de Calhoun traz luz para uma questão que abordo no meu livro “Tudo é Impossível, Portanto Deus Existe”. O Ocidente rico tem criado situações de abundância para parte de sua população, e o efeito da falta de escassez sobre a organização das sociedades é completamente desconhecido.

Nós conhecemos o efeito potencialmente nocivo da abundância em grupos pequenos, como cortes de monarquias absolutistas, bilionários, ditadores e outros indivíduos com recursos ilimitados e sem riscos relevantes aos seus desejos. Sabemos que podem, com facilidade, perder o contato com a realidade de quem vive na escassez da luta diária, gerando tensões que acabaram, no passado, em revoluções sangrentas e quedas de regimes totalitários.

A história de todos os seres vivos que se organizam em sociedades complexas tem um fio em comum, que é a necessidade incessante de troca de energia e de proteção. Ambas as demandas estão associadas diretamente à manutenção da vida, que é um objetivo natural para todas as espécies. Essas afirmações são inequívocas e facilmente comprovadas por mera observação da história da evolução.

Escassez foi, e é, o problema mais relevante de todas as sociedades e de todos os indivíduos. Nisso Marx e os Libertários tinham contato. Enquanto um achava que a economia era tudo (economia é a ciência que estuda o problema da escassez), os outros chamavam o que unia essas relações humanas de Lei Natural, que nada mais é do que a organização natural para o enfrentamento cada vez mais eficaz da escassez (proteção à vida e à propriedade, energia e abrigo).

Em resumo, somos seres sociais forjados no risco, nossos valores mais básicos foram construídos com fundamento no enfrentamento do problema que assolou, e assola, todos os seres vivos: luta pela energia e pelo abrigo, luta pela vida e pela espécie.

Levanto a hipótese, no livro, de que grande parte da confusão da sociedade ocidental pós-moderna deriva da abundância, ou mais precisamente, da crescente falta de percepção de escassez material básica, por uma elite desconectada das necessidades primazes.


Como o colapso da sociedade utópica dos ratos nos ajuda a demonstrar essa hipótese?

De forma resumida, John B. Calhoun criou um ambiente paradisíaco para os ratos. A ração de comida e água era ilimitada. Os indivíduos foram selecionados a dedo entre os mais fortes e saudáveis (4 casais de início). O ambiente era limpo constantemente. Ao menor sinal de doença que poderia se espalhar, o risco era retirado do convívio. Havia 256 ninhos que abrigariam confortavelmente 15 ratos cada um, num total de 3.840 ratos que poderiam conviver no Universo 25 sem desconforto espacial.

O objetivo do pesquisador era, dadas as condições perfeitas criadas, atingir a superpopulação e estudar a influência nos indivíduos. Mas nem chegou perto disso.


Segue um breve relato dos principais fatos:

Durante os primeiros 300 dias as coisas transcorreram bem e a população de ratos foi dos 8 iniciais para 620.

A partir do dia 315 do experimento, algumas coisas pareciam mudar. No início, a população de ratos dobrava a cada 55 dias, após um ano, passou a dobrar a cada 145 dias, o que era estranho, pois havia ainda muito espaço, para abrigar uma população 6 vezes maior.

Houve mudanças bastante perceptíveis no comportamento dos machos e fêmeas. Os machos, sem desafios territoriais ou de busca por comida (abrigo e energia), começaram a atacar uns aos outros sem nenhuma razão aparente. Além disso, passaram a não proteger as crias, e até a atacá-las, o que levou a um rompimento na relação parental, culminando, eventualmente, em uma redução drástica na procriação.

As fêmeas também se tornaram agressivas e acabaram, eventualmente, atacando a própria prole, o que reduziu praticamente a zero a procriação.

Alguns grupos de ratos machos passaram a acasalar, de forma violenta, com qualquer outro rato que aparecia, macho ou fêmea.

Outros grupos passaram a matar e a comer outros ratos (canibalismo), mesmo havendo abundância de comida e água.

Ratos passaram a se agrupar em números elevados, 40 a 50, em ninhos apropriados para 15, enquanto ninhos vazios e limpos, a apenas centímetros de distância, permaneciam vazios.

O que mais chamou a atenção do pesquisador, foram ratos que decidiram se afastar completamente da sociedade, para viverem sozinhos nas áreas mais altas do Universo 25, aos quais o pesquisador chamou de “os bonitos” (the beautiful ones).

Esses ratos não faziam nada, exceto comer, dormir e cuidar da aparência, se limpando com frequência e alisando o pelo. Eram chamados de bonitos, pois como não se envolviam em nenhuma briga, tinham a pele e o pelo intactos. O resto da população tinha marcas de sangue no pelo, cicatrizes e rabos mastigados.

Os bonitos, em um primeiro momento, pareciam ser interessados, focados e talvez os mais inteligentes do Universo 25, mas, testados, não conseguiam responder a estímulos evolutivos básicos, o que levou o pesquisador a concluir que seu afastamento da sociedade não foi por inteligência superior, de se manter afastado do caos e tentar sobreviver, mas por estupidez.

A partir do dia 600 a população atingiu 2.200 indivíduos e começou a declinar até que o último rato morreu alguns meses depois.

Similaridades com nossa sociedade ocidental pós-moderna


Minha interpretação do apocalipse dos ratos é que foi causado por forçar uma estrutura social forjada sem o risco de escassez. Essa sociedade não conseguiu se organizar em novos interesses artificiais que poderiam se tornar relevantes, uma vez que a base de todos os interesses naturais relevantes estava completamente satisfeita.

No subcapítulo “A Ilusão da Riqueza” do livro supracitado, discuto essa relação da satisfação que um pacote de consumo nos traz, com o risco envolvido na operação que nos leva a esse consumo.

O significado de uma conquista depende da sua vizinhança de riscos. O que tem 100% de chance de acontecer não terá influência na expectativa de ninguém, portanto não será base para avaliação de sucesso ou fracasso. Se o resultado de qualquer campeonato fosse conhecido antecipadamente, com 100% de segurança, não haveria interessados em torcer.

Nossa sociedade humana é bem mais complexa do que a dos ratos e nós depositamos significado em muitas outras formas de consumo, de relevância natural (subsistência) ou artificial (sociedade de consumo). Com a Pandemia, passamos a direcionar muito desses interesses e significados para o consumo online, para suprir um pouco do que os lockdowns e o afastamento social nos tirou.

A questão é que não sabemos se o tipo de consumo que estamos sendo forçados a assumir e desejar, não só de bens materiais, mas também de informação, de entretenimento, de educação, de cultura, de ciência etc., que são questões que poderiam ficar 100% online, guarda alguma relação com a nossa natureza fundamental, aquela que os ratos perderam e acabaram se matando e sucumbindo como sociedade.

Hoje vivemos um mundo cada vez mais segregado, em que pessoas de vida mais modesta continuam a procurar significado nas coisas simples, como trabalhar, ter família, cumprir a lei moral e natural, ser aceito em sua comunidade próxima, prover à família, etc., enquanto outro grupo está desconectado dessa realidade, buscando ressignificar os conceitos básicos sobre a vida, a história, a biologia, a sexualidade, o trabalho, o dever, a moral etc.

Nós sabemos lidar com os problemas objetivos da escassez material, nossa história evolutiva nos ensinou, mas não sabemos lidar com problemas que foram criados exclusivamente por essas reinterpretações e ressignificações. A rigor, se formos desconstruir as tradições, o idioma e a lógica aristotélica, podemos criar um número infinito de problemas que geram necessidades artificiais, oferecendo motivos ilimitados para as pessoas se sentirem incompletas, insatisfeitas e deprimidas.


O risco do vácuo existencial e da falta de conexão com princípios da ordem natural.

O experimento de Calhoun levanta uma questão relevante: sem desafios de ordem natural, as sociedades sucumbirão?

Nós logramos êxito, com o capitalismo industrial e financeiro, em reduzir significativamente as necessidades básicas das populações ocidentais, principalmente em países ricos.

Mesmo com esse sucesso, muitas pessoas ainda mantêm uma relação de necessidade com a regra moral, a ética, o dever, o respeito, a tradição, a religião etc., coisas que, mesmo para quem é muito rico, continuam sendo desafiadoras. Para quem acredita em Deus, a salvação é construída diariamente, com esforço incessante, não é algo garantido a quem tem poder de compra.

E mesmo para o iluminista, para aquele que passou a viver exclusivamente da fé na razão e na ciência, há as demandas filosóficas e científicas, as regras de ouro, os princípios lógicos e ontológicos, o desenvolvimento tecnológico, que o mantém interessado em conhecer mais para viver uma vida cada vez mais consciente.

Entretanto, para quem não reconhece nenhum princípio fundamental, que não se identifica com o desafio da vida religiosa/tradicional, ou com o desafio iluminista e positivista do conhecimento crescente e do autoconhecimento, uma vida de abundância material pode acabar extremamente vazia, o que leva essa pessoa ao risco, real, de buscar preenchimento com problemas artificiais criados exclusivamente por esse vácuo, por essa falta de significação e de propósito.

O temor é que essa crescente reformulação dos significados de coisas que sempre foram razoavelmente pacificadas, e que não clamavam por mudanças drásticas revolucionárias, apenas melhorias pontuais, crie problemas que não sabemos resolver. Que nosso trabalho, nosso esforço, nossa capacidade intelectual, nosso empreendimento social não sejam ferramentas úteis para prover a solução.


Para concluir, essa característica de “problematização” de tudo na sociedade ocidental, fruto de um pós-modernismo que nega qualquer princípio natural ou fundamental como válido e desejável para a estruturação das sociedades (relativismo), está enfraquecendo a sociedade ocidental. Perdemos o contato com princípios evolutivos básicos, pois nossas elites vivem como os nobres da corte de Luís XVI.

Em verdade é pior do que a situação de miséria da plebe, em contraste com a riqueza injustificada da monarquia, que levou à Revolução Francesa, pois Maria Antonieta era apenas ignorante, realmente não sabia que quem não tem pão, também não teria brioche (ou bolo), mas hoje a elite vai além da falta de empatia com a vida dos comuns, ela quer forçá-los a comportamentos que só fazem sentido num mundo desconectado da realidade de quem tem problemas básicos para lidar. E essa elite acaba adicionando problemas artificiais à vida já extremamente difícil do povo trabalhador, exigindo que ele cumpra regras arbitrárias de comportamento social que não fazem sentido para quem não vive revisitando certezas para fluidificar valores e semear confusão.

E nossa gente humilde até reconhece que madame enlouqueceu, mas em sua simplicidade se resigna e faz o que cantou João Gilberto, diante da patroa que queria acabar com o samba: pra que discutir com madame?


Fonte: https://www.civitas.org.br/13/06/2022/universo-25-o-que-o-apocalipse-zumbi-dos-ratos-tem-a-nos-ensinar/