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domingo, 1 de março de 2026

O PROFETA JONAS NUNCA EXISTIU

 


A etimologia de Nínive em Sumério 𒀏 e depois em Acádio: Ninua ou Ninâ está profundamente ligada à sua história como centro religioso da Mesopotâmia, com origens que remetem a símbolos de peixes e divindades femininas. 

O nome da cidade em cuneiforme era representado por um peixe dentro de uma casa, o ideograma NI.NU.A ou Ninâ 𒀏, sugerindo a tradução literal como "casa de peixe" ou "lugar de peixes".

Acredita-se que o nome esteja relacionado à deusa Ishtar (frequentemente associada a peixes/águas na região), significando talvez "Casa da Deusa" ou "Casa do Peixe", com origens possivelmente Hurritas antes de ser adotada pelos Assírios.

A principal divindade associada à cidade de Nínive, com raízes na antiga tradição suméria, era a deusa Inanna, em Sumério ou Ishtar em Acádio e Assírio. Inanna/Ishtar era uma divindade complexa, representando tanto o amor sensual e a fertilidade quanto a guerra, o combate e o poder político.

Embora seu centro de culto original fosse Uruk, o templo de Ishtar em Nínive tornou-se um dos mais importantes da Mesopotâmia. Ela era a deusa tutelar da cidade, protegendo-a e abençoando os reis Assírios. 

Embora outros deuses assírios (como Assur) tivessem grande destaque na capital, o templo de Ishtar em Nínive era um dos centros religiosos mais antigos e influentes daquela região. 

O principal templo dedicado à deusa Ishtar em Nínive era conhecido como Emašmaš ou E-mash-mash ("Casa das Oferendas"  "Casa dos Oráculos" ou "Templo Supremo".

►E ou É: Significa "casa""templo" ou "domicílio".

►Mašmaš: (derivado de maš-maš): Frequentemente associado a oráculos, adivinhação, ou ao culto de deuses estelares/Ištar.

O Emašmaš de Nínive foi um dos santuários mais importantes da Mesopotâmia. Foi fundado ou restaurado por vários reis, sendo famoso por ter sido reconstruído por Maništušu (rei de Akkad) e, mais tarde, restaurado pelo rei assírio Samsî-Addu (ou Shamshi-Adad), que se orgulhava de tê-lo recuperado da ruína. 

Curiosamente, o nome da cidade de Nínive (Ninua) é escrito com um ideograma que representa um peixe dentro de uma casa, sugerindo que o simbolismo do peixe já era central para a identidade da cidade antes da chegada de Jonas.


Abgal ou Apkallu

Abgal em sumério ou Apkallu em acádio são sete sábios antediluvianos.

Uanna ou Oannes: O primeiro e mais famoso, que ensinou os mitos da criação e os fundamentos da vida urbana.

Uannedugga: Dotado de inteligência abrangente.

Enmedugga: Responsável por decretar bons destinos.

Enmegalamma: Nascido em uma casa (simbolizando o ambiente doméstico).

Enmebulugga: Associado às pastagens e criação de animais.

An-Enlilda: O conjurador da cidade de Eridu.

Utuabzu: O último sábio, que teria ascendido ao céu

Na arte mesopotâmica, especialmente nos relevos palacianos neo-assírios, os Apkallu são representados em três formas principais:

Homem-Peixe: Vestindo uma capa de pele de peixe com a cabeça do peixe sobre a sua própria, simbolizando sua origem aquática.

Homem-Pássaro: Figuras com asas e, frequentemente, cabeça de águia.

Forma Humana: Seres alados em forma humana total.

Eles são frequentemente vistos segurando um balde (banduddū) e uma pinha (mullilu), objetos usados em rituais de purificação e proteção para afastar demônios e doenças.

Após o dilúvio, os novos sábios foram descritos como humanos (chamados de Ummanu), marcando a transição da sabedoria divina para a humana.

Pequenas estatuetas desses sábios eram enterradas sob os pisos das casas e templos para servirem como guardiões espirituais contra o mal.

Muitos estudiosos ligam os Apkallu aos Nephilim do Gênesis ou à figura de Enoque, o sétimo patriarca que também "caminhou com Deus" e subiu aos céus.


Berossus

Beroso foi um alto sacerdote da cidade de Babel. A data exata é desconhecida, mas sabe-se que viveu pelo menos até o reinado de Antíoco I (281–261 a.C.) ou 350 a.C. a 340 a.C. durante o final do domínio persa ou início da era de Alexandre, o Grande.. Ficou famoso por escrever a Babyloniaca (História da Babilônia) em grego, dedicada a Antíoco I Soter, governante do Império Selêucida. Sua obra foi provavelmente publicada por volta de 280-278 a.C..  Ele foi ativo na Babilônia e, segundo relatos posteriores (como os de Vitrúvio), posteriormente viveu na ilha de Kos, na Grécia, onde ensinou astrologia. 

A obra Babyloniaca ou História da Babilônia, escrita pelo sacerdote babilônico Beroso por volta de 281 a.C., relata a história de Oannes. Oannes é descrito como uma criatura anfíbia, com forma de peixe e homem, que saiu do Golfo Pérsico para ensinar sabedoria, escrita, ciências, leis e artes à humanidade. Beroso situou essa aparição nos tempos pré-históricos, logo após o início do mundo, com Oannes aparecendo durante o reinado de Aloros.

O relato ocorre no primeiro livro da Babyloniaca, narrando um tempo em que os seres humanos viviam como animais antes de receberem a civilização.


Conexão com o Livro de Jonas

A Babyloniaca ou História da Babilônia, escrita pelo sacerdote babilônico Berosso no século III a.C., e o Livro de Jonas, parte da Bíblia Hebraica (Antigo Testamento), apresentam interessantes paralelos, particularmente no que diz respeito ao contexto assírio/babilônico, temas de arrependimento e a simbologia de criaturas marinhas.

Embora os Apkallu pertençam à mitologia mesopotâmica e Jonas à tradição bíblica, existem paralelos fascinantes que estudiosos utilizam para explicar por que a mensagem de Jonas foi aceita tão rapidamente pelos ninivitas Assírios.

A conexão mais forte reside na aparência de Jonas ao chegar em Nínive. De acordo com o relato bíblico, Jonas foi "vomitado" por um grande peixe após três dias.

Os assírios eram familiarizados com os Apkallu, seres semidivinos que emergiam do mar com mantos de pele de peixe para trazer mensagens e sabedoria dos deuses.

Um homem saindo das águas (ou das entranhas de um peixe) teria uma semelhança visual direta com um Apkallu, o que daria a Jonas uma autoridade divina instantânea aos olhos dos ninivitas, facilitando o arrependimento em massa descrito no livro de Jonas.

O nome Oannes é foneticamente muito próximo de Ioannes (João) e Ionas - Jonas - Yonah. Do hebraico Yonā, que significa "pomba" nomes usados na Septuaginta (tradução grega da Bíblia) para se referir ao profeta. 

O nome Jonas é uma adaptação ou um trocadilho fonético deliberado feito pelos redatores bíblicos para ligar o profeta à figura de Oannes/Uanna.

Nessa visão, o nome original do profeta em contextos assírios poderia estar ligado ao termo para "sábio do mar", e apenas mais tarde foi associado à palavra hebraica para pomba.

Já Oannes é uma Helenização ou Gregarização do Sumério Uanna ou Uanna-Adapa, o primeiro dos sete sábios Apkallu que emergiu do mar para civilizar a humanidade.

Oannes é descrito como um ser que tem o corpo de um peixe, mas com cabeça, pés e voz de homem por baixo da "capa" de peixe. Jonas, por sua vez, é o homem que "emerge" de dentro de um peixe.

Jonas foi enviado para pregar em Nínive, a capital da Assíria (Mesopotâmia). Alguns autores, como Gerald Everett Jones, sugerem que o povo de Nínive aceitou a mensagem de Jonas tão rapidamente porque sua história de "vir do mar/peixe" ecoava o mito de Oannes, que eles já veneravam como um portador de sabedoria divina, o tema do herói engolido por um monstro marinho e "renascido" é um arquétipo comum, e Oannes personifica a versão babilônica do mestre que traz conhecimento das profundezas.


Jonas Nunca Existiu

Não existem registros arqueológicos ou fontes extrabíblicas da época (século VIII a.C.) que confirmem a existência de um profeta chamado Jonas. A maioria dos estudiosos modernos considera o Livro de Jonas uma obra de ficção didática ou uma sátira, escrita séculos após o período em que a história se passa (período pós-exílio).

Jonas é mencionado em 2 Reis 14:25 como Jonas, filho de Amitaié ou Amitai, um profeta real que viveu durante o reinado de Jeroboão II (790–749 a.C.). Isso sugere que o personagem da famosa história do "grande peixe" pode ter sido baseado em uma figura histórica real que serviu como profeta em Israel. No Novo Testamento, Jesus faz referência a Jonas, tratando a experiência do profeta no ventre do peixe como um evento real e comparando-o à sua própria morte e ressurreição (Mateus 12:40). Para muitos cristãos, essa menção de Jesus valida a historicidade do profeta.

Não existem evidências arqueológicas ou registros históricos na Assíria onde ficava Nínive que mencionem um profeta estrangeiro que tenha causado um arrependimento em massa de toda a cidade. Historiadores apontam que a Nínive descrita no livro é anacrônica, assemelhando-se mais à cidade em seu auge posterior do que à Nínive do século VIII a.C.. 

Muitos acadêmicos classificam o Livro de Jonas não como um relato histórico, mas como uma ficção didática, uma parábola ou até uma sátira. 

O  livro de Jonas é uma novela ou parábola, escrita no período pós-exílico (aprox. 400 a.C.), muito tempo depois de Jonas ter vivido.  O objetivo da história seria comunicar mensagens teológicas sobre a soberania de Deus, a misericórdia para com todas as nações (incluindo inimigos como Nínive) e uma crítica à falta de obediência do próprio profeta.


O NASCIMENTO DO POVO HEBREU



O consenso acadêmico predominante no início do século XXI sustenta que não há uma equivalência direta entre os ʿApiru e os hebreus bíblicos. Os ʿApiru representam uma ampla classe social pan-regional de forasteiros marginalizados, trabalhadores ou mercenários que se estendiam pelo Oriente Próximo entre os séculos XVIII e XII a.C., enquanto "hebreus" denota um grupo étnico ou tribal específico ligado ao surgimento do antigo Israel no Levante meridional. O arqueólogo Israel Finkelstein, em sua análise das transições da Idade do Bronze Final, enfatiza que as atividades dos ʿApiru em textos como as Cartas de Amarna refletem rupturas internas cananeias, e não uma invasão externa por proto-israelitas, o que está em consonância com as evidências arqueológicas de um assentamento gradual nas terras altas por volta de 1200 a.C., sem sinais de conquista. Esta visão sublinha a natureza não étnica do termo, uma vez que ʿApiru aparece em diversos contextos na Mesopotâmia, Anatólia e Egito, sem estar ligado a nenhum povo específico.

Os argumentos a favor de uma conexão, destacam paralelos socioeconômicos e alinhamento cronológico entre a marginalidade dos ʿApiru no período de Amarna, no século XIV a.C., e a ascensão de Israel no final do século XIII a.C. 1200 a. C., argumentando que grupos ʿApiru deslocados contrubuíram para a sociedade israelita primitiva. Nadav Na'aman, por exemplo, postula que o uso bíblico de "hebreus" (ʿibrîm) deriva da designação ʿApiru como um rótulo social, transferido para as tradições literárias judaítas durante a Idade do Ferro para evocar o status de forasteiro, sem implicar uma sobreposição completa de identidade. Tais visões baseiam-se em descrições textuais de hebreus como seminômades ou servis em Gênesis e Êxodo, assim, os Hebreus do livro de Gênesis, na verdade eram os ʿApiru como sendo trabalhadores assalariados ou rebeldes.

Estudos recentes na década de 2020 têm explorado cada vez mais as dinâmicas interseccionais, enfatizando como as rupturas da era de Amarna envolvendo os ʿApiru podem ter influenciado indiretamente o vácuo sociopolítico que possibilitou a formação de Israel como uma comunidade montanhosa anti-imperial, embora a linhagem direta permaneça não comprovada. Análises recentes, até 2025, continuam a enfatizar as distinções etimológicas, evitando a identificação excessiva dos ʿApiru com os hebreus com base apenas em semelhanças fonéticas. Norman K. Gottwald, revisitando seu modelo de confederação tribal, observa potenciais elementos habiru entre os primeiros israelitas como camponeses livres que resistiam ao domínio cananeu e egípcio, mas adverte contra a identificação excessiva devido à fluidez do termo. 


É seguro afirmar que os Hebreus vieram da formação de vários povos diversos, isso acontece com qualquer nação. A formação do povo Hebreu foi feito como sempre foi feito no planeta, através de aglutinação e união de múltiplos povos e etnias variadas, nenhum povo na Terra nasceu de apenas uma nação, e temos vários exemplos na história.

▼Gregos ou Helenos: A formação do povo grego ocorreu a partir de 2000 a.C. através da mistura de povos indo-europeus Minoicos, Pelasgos, Aqueus, Jônios, Eólios e Dórios que migraram para a península Balcânica, na região do mar Egeu, com os povos nativos cretenses (civilização minoica). Esse processo, ocorrido no período Pré-Homérico, resultou na cultura helênica e no desenvolvimento de cidades-estados.

▼Romanos: A formação do povo romano resultou da mistura de povos itálicos, Latinos, Sabinos, etruscos, Samnitas, Úmbrios e gregos na península Itálica, por volta do século VIII a.C.. Iniciou-se como aldeias no rio Tibre, evoluindo sob forte influência etrusca e grega até se tornar uma cidade-estado. A sociedade era estratificada, com patrícios (nobreza), plebeus e escravos.

▼Turcos ou Túrquicos são um vasto grupo etnolinguístico que compartilha origens na Ásia Central e na Sibéria. Eles são unidos principalmente pelas línguas turcas e por uma história de migrações que se estendeu da Mongólia até a Europa Oriental e o Oriente Médio.

▼Turcos (da Turquia): O maior grupo, concentrado na Anatólia e nos Bálcãs.

Azeris (Azerbaijanos): Principalmente no Azerbaijão e no noroeste do Irã.

Uzbeques: O grupo mais numeroso da Ásia Central, vivendo no Uzbequistão e países vizinhos.

Cazaques: Habitam o vasto território do Cazaquistão e partes da China e Mongólia.

Turcomenos: População majoritária do Turcomenistão, com comunidades no Irã e Afeganistão.

Quirguizes: Principalmente no Quirguistão e nas montanhas Pamir.

Uigures: Povo de maioria muçulmana que habita a região de Xinjiang, na China.

Tártaros: Diversos grupos (do Volga, da Crimeia, da Sibéria) espalhados pela Rússia e Europa Oriental.

Iacutos (Sakha): Localizados no extremo leste da Sibéria (Rússia); são um dos poucos grupos turcos não muçulmanos (praticam o cristianismo ortodoxo e xamanismo). 

Bashkires: Vivem na região do Volga e Montes Urais, na Rússia.

Chuvaches: Povo turco da Rússia que fala uma língua distinta (ramo Oghur) e é majoritariamente cristão.

Gagauzes: Cristãos ortodoxos que habitam principalmente a Moldávia e a Ucrânia.

Carachais e Balcares: Povos do Cáucaso Norte.

Tuvinianos: Habitam a República de Tuva, na fronteira com a Mongólia.

Nogais: Descendentes de hordas nômades, espalhados pelo Cáucaso e região do Cáspio. 

Göktürks: Fundadores do primeiro grande império turco na Ásia Central (séculos VI-VIII).

Seljúcidas: Tribos que migraram para a Pérsia e Anatólia, preparando o caminho para o Império Otomano.

Otomanos: A dinastia que expandiu o domínio turco por três continentes.

Cumanos e Pechenegues: Tribos nômades que dominaram as estepes da Europa Oriental na Idade Média.

Cazares: Famosos por terem uma elite que se converteu ao judaísmo no Cáucaso.

Búlgaros Antigos: Diferentes dos búlgaros eslavos modernos, eram originalmente um povo turco.

Isto são quatro exemplos da totalidade da realidade antropológica da formação de todos os povos ou nações de nosso planeta, isso aconteceu com o povo Cananeu.

E é nesse contexto que nascem os Hebreus, pois eles vieram dos Cananeus (pois parte deles eram Cananeus), vieram dos Habiru (pois parte deles eram 'Apiru).


Estela de Merneptah

A primeira menção histórica da palavra "Israel" fora da Bíblia data do século XIII a.C. (c. 1208 a.C.), na Estela de Merneptá, filho de Ramsés II, ascendeu ao trono já em idade avançada (por volta dos 60 ou 70 anos) porque todos os seus irmãos mais velhos faleceram antes de seu pai, relata ter derrotado um povo chamado Israel já estabelecido na região. 

Este é o seu legado mais famoso. Trata-se de uma placa de granito negro. O texto celebra as vitórias militares do faraó e menciona que "Israel está desolado, sua semente não existe mais", indicando que os israelitas já eram um grupo estabelecido na região de Canaã naquela época.


Transcrição

"Os chefes inimigos prostram-se dizendo: "Salom!" [expressão que significa "haja paz"; significa mais do que mera ausência de conflitos] Nenhum levanta a cabeça entre os Nove Arcos: Tjeneu [os líbios] está derrotado, Hati [provavelmente os hititas residentes na Palestina] está em paz, Canaã está despojada de toda a maldade, Ascalão foi conquistada, Gezer foi tomada, Ienoão [ou Ianoão, sua identificação é incerta] ficou como não tivesse existido, Israel está destruído [ou devastado], a sua semente [ou descendência] não existe mais, a Síria tornou-se uma viúva para o Egito. Todos os que vagavam sem destino no deserto [os Beduínos] foram submetidos pelo Rei do Alto e Baixo Egito, Baenré-Meriamon [filho de Merneptá], filho de Ré [ou Rá, abreviatura de Amon-Rá], Merneptá-Hetephermaet, dotado de Vida, como Ré, todos os dias.

Notas: Ienoão é mencionado junto com as cidades conquistadas por Tutemés III. A tabuinha de Tell-Amarna n.º 197 faz referência a uma cidade de nome Ianuamu. Mais tarde, Seti I (1294 a.C. a 1279 a.C.) conquista Ienoão no seu 1.º ano de reinado. Ienoão ou Ianoão, em hebraico, pode ser vertido por "YHVH fala". "a região de Canaã / Hurru".


O Nascimento de Israel

O nascimento de Israel foi um processo onde a terra de Canaã deixou de ser um conjunto de cidades-estados cananeias para se tornar a base territorial de um povo monolatrista no início, com sua identidade formada tanto pela tradição de um "retorno" (Êxodo) quanto pela evolução interna de grupos já presentes na região. 

O nascimento de Israel é uma transição social e política, onde povos cananeus do interior, nômades e grupos marginalizados ('apiru ou hapiru) se uniram para formar uma nova identidade, abandonando gradualmente a cultura cananeia urbana.

Inicialmente, formaram uma confederação de tribos sem governo centralizado (12 tribos?), que se assentaram nas terras altas (região montanhosa) de Canaã antes de se tornarem uma monarquia.

Durante o cativeiro babilônico, eles escreveram o Livro de Gênesis e partes do Antigo Testamento, relatando as aventuras e eventos que aconteceram enquanto ainda não eram uma nação, e sim, uma confederação de povos diversos sem uma liderança ou nacionalidade ('Apirus) que mitificaram, dando uma nacionalidade (embora ainda não existia na época) unindo assim, aspectos culturais em comum. Ou seja, eles contaram as histórias (modificadas) de quando Israel ou Hebreus eram parte do gigantesco povo sem pátria dos 'Apirus.

Os Hebreus nasceram de um amontoado de colchas de retalhos regionais, culturais e étnicos. 

O nascimento de Israel na região de Canaã é um processo histórico e religioso complexo, que mistura a narrativa mítica bíblica da "Terra Prometida" com evidências arqueológicas que há uma emergência gradual dos israelitas no local. A região, situada no Levante, era conhecida como Canaã antes de ser ocupada e se tornar o território de Israel e Judá.

A arqueologia moderna confirma que o povo de Israel surgiu, em grande parte, da própria terra de Canaã. A maioria dos "israelitas" era provavelmente de origem cananeia, um grupo semita indígena, que se diferenciou culturalmente e religiosamente ao longo do tempo.

O povo Cananeu não era um povo único, mas sim uma confederação de cidades-estados e grupos étnicos diversos que habitavam a região do Levante (atual Israel, Palestina, Líbano e partes da Síria e Jordânia). Eles eram Fenícios, Amorreus, Hititas, Hivitas, Jebuseus, Gigarseus, Heteus, Heveus, Arqueus, Sineus, Perizeus, Amalequitas, Arvadeus, Zemareus, Hamateus, Amonitas, Moabitas, Sidom, Fenicios, Sodoma, Gomorra, Hurritas, Síria, Admá, Lasa, Zeboim, Filisteus, Hebreus ou Israelitas, etc., são todos povos Cananeus ou Cananitas, e tem povos que esqueci de colocar nesse mosaico multicultural.



A HISTÓRIA DOS 'APIRU NA BÍBLIA

 




A semelhança fonética entre o termo do antigo Oriente Próximo Habiru ou ʿApiru e o bíblico ʿIbri "hebraico" ambos potencialmente derivados da raiz semítica ocidental ʿbr, que conota "atravessar", "passar por cima" ou "ir além". 

A palavra hebreu tem origem no termo hebraico 'Ivri (plural 'Ibrim), derivado do verbo laavor, que significa "atravessar" ou "passar". Significa, portanto, "povo do outro lado do rio" (Eufrates ou Jordão), aludindo à travessia de Abraão da Mesopotâmia para Canaã. Também está ligada ao ancestral Éber (Gênesis 10 - Gênesis 11). Essa raiz aparece em várias línguas semíticas, incluindo o acádio Abāru ("atravessar") e o árabe ʿAbara ("passar"), sugerindo uma herança linguística compartilhada que poderia implicar migrantes ou pessoas que cruzavam fronteiras. No entanto, a conexão permanece especulativa, já que nenhum empréstimo etimológico direto foi demonstrado conclusivamente, e os termos podem representar uma sobreposição coincidente no vocabulário semítico ocidental em vez de uma origem unificada.

Em Sumério este termo é grafado como SA. GAZ 𒊓𒄤  "saqueador", "salteador" ou "vagabundo" "trabalhadores vinculados ou tropas irregulares" O logograma é composto pelos sinais SA (corda/rede) e GAZ (esmagar/matar).

Na Bíblia Hebraica, ʿibri aparece pela primeira vez em Gênesis 14:13, onde Abrão é designado "Abrão, o Hebreu" 'abrām hāʿibrî' por um fugitivo que relata a captura de Ló, marcando uma das primeiras autoidentificações étnicas ou de forasteiros entre os aliados cananeus. Deriva do verbo avar (עָבַר), que significa "passar" ou "atravessar", como aquele que veio do "outro lado" (ever) do rio Eufrates. 

O termo reaparece com destaque em Êxodo 1:15–19 e 2:6–13, onde os egípcios se referem aos israelitas como ʿibrîm ("hebreus") durante seu cativeiro, enfatizando seu status de estrangeiros em um contexto de opressão e autodesignação pelo próprio grupo. 

Obs: não existem fontes que possam afirmar com precisão ou exatidão, a existência destes personagens bíblicos aparecidos aqui neste artigo. Todos os nomes e personagens descritos, são relatados apenas no universo bíblico.

Esses usos retratam ʿibri como um rótulo étnico ligado à comunidade proto-israelita, distinto de nomes tribais posteriores como "israelita", e frequentemente invocado em narrativas de migração e servidão. 

Linguisticamente, tanto Habiru quanto ʿibri exibem características semíticas ocidentais, como a consoante inicial ʿ-ayn e a sequência br, mas as diferenças na vocalização Habiru com uma vogal -a após o b, versus a vogal -i de ʿibri — e na forma morfológica dificultam qualquer ligação direta. Habiru funciona principalmente como um adjetivo descritivo para forasteiros sociais, rebeldes ou trabalhadores em diversos textos, carecendo da conotação étnica específica de ʿibri , que denota um povo em particular em contextos bíblicos. Os estudiosos argumentam que essas distinções indicam Habiru como um termo socioeconômico aplicável a vários grupos de diversas etinias e nação, enquanto ʿibri evoluiu para um etnônimo propriamente dito, possivelmente sem derivação direta. O etnônimo designa o nome de um grupo étnico, raça, tribo ou comunidade, o nome de batismo de um povo, o etnônimo te define como parte de uma coletividade cultural ou ancestral. 

Embora o termo seja frequentemente debatido em relação aos Hebreus bíblicos, os Apiru nas cartas de Amarna são uma categoria sociológica de marginalizados fora da lei, sem pátria em vez de um grupo étnico único.

Os 'Apiru não são Hebreus propriamente dito, embora  Habiru pareça filologicamente similar a "Hebreu" ‘Ibri, o termo Habiru é uma designação de classe social, e não de etnia. No entanto os Hebreus bíblicos tenham sido, em um dado momento histórico, parte desse grupo social mais amplo de nômades marginalizados, os Hebreus no sentido de origem étnica única, não vieram estritamente e exclusivamente dos Apiru como povo. Os Hebreus, como todos os povos, nasceram de um ajuntamento de vários povos diversificados na quele período específico, da grande massa de Cananeus, povos nômades diversos e povos vizinhos e também da grande e numerosa massa dos 'Apiru.

Os Habiru surgiram da desagregação social da Idade do Bronze, formando grupos diversos sem identidade étnica única, conhecidos por sua vida nômade e, muitas vezes, por serem trabalhadores braçais ou mercenários no Egito e Canaã e, desse contigente diversificado, surgiram também os Hebreus, Árabes, etc. 


Paralelos Narrativos e Históricos Bíblicos

Os ʿApiru, ativos principalmente entre os séculos XVIII e XII a.C., coincidem cronologicamente com eventos bíblicos importantes durante o colapso da Idade do Bronze Final, por volta de 1200 a.C., um período de ampla desestruturação social no Mediterrâneo oriental que facilitou migrações, incursões e novos assentamentos, paralelamente ao surgimento de grupos israelitas em Canaã. Essa era de instabilidade, marcada pela queda de importantes cidades-estados e vácuos de poder, alinha-se com a cronologia bíblica da entrada dos israelitas em Canaã, conforme descrito nos livros de Êxodo, Josué e Juízes.

Paralelos entre as atividades dos ʿApiru e a narrativa do Êxodo são evidentes em alguns textos egípcios onde os ʿApiru são retratados como trabalhadores, e em outros registros da XIX Dinastia que descrevem fugitivos asiáticos perseguidos. Por exemplo, sob Ramsés II, os ʿApiru serviram como trabalhadores forçados arrastando pedras para a construção de templos, como observado no Papiro de Leiden 348, enquanto textos como os Papiros de Anastasi mencionam trabalhadores e mercenários asiáticos desertando e sendo perseguidos, semelhante à perseguição bíblica dos hebreus em fuga em Êxodo 14. As Cartas de Amarna, do final do século XV ao início do século XIV a.C., retratam ainda os grupos ʿApiru como forasteiros nômades no Egito e em Canaã, potencialmente incluindo elementos que contribuíram para a tradição bíblica de um povo fugitivo em busca de libertação. A Estela de Merneptá de 1207 a.C., que menciona "Israel" como uma entidade derrotada em Canaã, apoia um contexto do século XIII para essas migrações, reforçando o alinhamento temporal com a história do Êxodo. Nas narrativas de conquista, os ataques dos bandos de Habiru documentados nas Cartas de Amarna do século XIV a.C. assemelham-se bastante às campanhas atribuídas a Josué contra as cidades cananeias, com as forças de Habiru capturando territórios e aliando-se a governantes locais de uma maneira que ecoa os relatos bíblicos de incursões rápidas. Cartas de governantes como Abdi-Heba de Jerusalém (EA 288–289) descrevem Habiru assumindo o controle de cidades como Jerusalém e Siquém, fazendo um paralelo com os cercos de Josué a Betel, Ai e Hazor, com insurgentes não urbanos perturbando centros urbanos. Da mesma forma, EA 148 relata o rei de Hazor colaborando com Habiru, semelhante à destruição bíblica de Hazor em Josué 11, onde uma coalizão do norte cai diante de invasores durante um período de fraqueza egípcia. Essas representações dos Habiru como grupos subversivos que exploram o caos regional fornecem um contexto histórico para a representação bíblica das conquistas israelitas em meio ao declínio das cidades-estado cananeias.

As histórias tribais em Juízes ecoam ainda mais a dinâmica dos ʿApiru por meio de figuras como Abimeleque e Jefté, retratados como líderes mercenários comandando bandos marginais em busca de poder, refletindo o papel dos Habiru como guerreiros socialmente à margem da sociedade. Em Juízes 9, Abimeleque contrata "homens inúteis e imprudentes" (v. 4) de Siquém para tomar o trono, espelhando os mercenários Habiru da era de Amarna, que serviam como lutadores contratados ou rebeldes contra as autoridades estabelecidas. Da mesma forma, Jefté, em Juízes 11, reúne "homens vazios" (v. 3) de Tob como párias para liderar Gileade contra Amom, semelhante aos bandos Habiru que operavam como oportunistas sociais em regiões fronteiriças instáveis. Essas narrativas criticam essa liderança como egoísta, contrastando com os ideais yahwistas idealizados, mas preservam ecos de estruturas sociais semelhantes às de Habiru nos primeiros conflitos tribais israelitas.

Os padrões de assentamento dos ʿApiru nas terras altas cananeias estão arqueologicamente ligados à proliferação das primeiras aldeias israelitas durante a Idade do Ferro I (1200–1000 a.C.), com o surgimento de novos povoados rurais em áreas como as terras altas centrais, onde os grupos Habiru são atestados em textos da Idade do Bronze Final. Escavações em sítios como Ai e Khirbet Raddana revelam pequenos assentamentos agrícolas com casas de pilares e jarros com borda em forma de colarinho, uma continuidade das tradições da Idade do Bronze Final, mas que marca uma mudança para o pastoralismo nas terras altas, o que se alinha com as descrições bíblicas dos acampamentos israelitas. A ausência do consumo de carne de porco nesses sítios das terras altas, por exemplo, menos de 1% em Siló, os distingue das áreas costeiras filisteias, apoiando uma continuidade étnica com grupos como os ʿApiru, que fizeram a transição de um estilo de vida nômade com incursões para uma vida sedentária em meio ao colapso da Idade do Bronze. Este padrão de colonização das terras altas, datado dos séculos XII-XI a.C., corresponde à referência da Estela de Merneptá a Israel, sugerindo que elementos ʿApiru contribuíram para a formação de comunidades proto-israelitas.

OS HABIRU

 


O surgimento dos Habiru ou 'Apiru, remonta o final de três mil anos a. C. no Crescente Fértil, abrangendo Mesopotâmia, Síria, Canaã e Egito. Não eram um grupo unificado, como dizem ser os Hebreus, mas sim, um fenômeno social e econômico, caracterizando pessoas marginalizadas que operavam fora da estrutura formal das cidades-estados da época.


Definição do Termo

O termo ʿApiru aparece em várias formas ortográficas em línguas antigas do Oriente Próximo, refletindo adaptações fonéticas e convenções específicas de escrita em diferentes contextos culturais.

Habiru ou 'Apiru  encontrado em documentos Acádios, Assírios, Amoritas ḫa-bi-ru/ḫa-pi-ru.

Em Egípcio (Khemet)  ʿPr.w ou ʿApiru, nas cartas de Amarna  1360–1332 a.C.

Hititas e Hurritas de contextos anatólios empregam variantes como Hapiri.

Em Ugarítico e Cananeu Aprm ou Habiri encontradas na escrita cuneiforme alfabética

Em Sumério SA. GAZ 𒊓𒄤  "saqueador", "salteador" ou "vagabundo" "trabalhadores vinculados ou tropas irregulares" O logograma é composto pelos sinais SA (corda/rede) e GAZ (esmagar/matar).

Os primeiros atestados dessas formas datam do século XVIII a.C. em textos Mari, onde Habiru surge pela primeira vez, seguido por ʿApiru em fontes egípcias por volta do século XIV a.C.


Fontes Históricas

Os primeiros atestados dos ʿApiru, grafados como ḫabiru em textos cuneiformes acádios, aparecem em documentos do século XVIII a.C. dos sítios de Mari e Alalakh, no norte da Mesopotâmia, onde são descritos como grupos organizados que atuavam como mercenários ou trabalhadores. Nos arquivos de Mari, que compreendem mais de 20.000 tabletes.

◄Mari foi uma antiga cidade-estado semita e um importante reino localizado no leste da atual Síria (Tell Hariri), na margem oeste do rio Eufrates. É particularmente famosa por seu último período de florescimento sob uma dinastia amorita, antes de ser destruída por Hamurabi da Babilônia por volta de 1759 a.C.

◄Alalakh é atual Tell Atchana, foi uma importante cidade-estado da Idade do Bronze, localizada no vale do rio Orontes, na atual província de Hatay, no sudeste da Turquia. Embora situada na periferia da Mesopotâmia propriamente dita, ela manteve laços culturais, políticos e econômicos profundos com as civilizações mesopotâmicas ao longo de milênios. 

Os ʿApiru são frequentemente mencionados em correspondências reais como guerreiros estrangeiros ou trabalhadores migrantes integrados às forças locais, como um contingente relatado de aproximadamente 2.000 soldados ʿApiru envolvidos em um ataque à cidade de Yahmumun. Esses textos os retratam como forasteiros móveis que podiam ser recrutados para campanhas militares ou obrigados a servir, muitas vezes sob a supervisão de governantes locais.

A cidade de Yahmumun os 'Apiru foi brevemente perdida, mas os registros indicam que ela retornou rapidamente ao controle de Hāya-sūmû, um governante local aliado ou vassalo na esfera de influência de Mari.

Fontes babilônicas antigas do início do segundo milênio a.C. ilustram ainda mais o envolvimento dos ʿApiru nas esferas jurídica e econômica, particularmente por meio de contratos que documentavam a escravidão por dívida ou o serviço militar obrigatório. Nos arquivos de Larsa, registros administrativos detalham transações em que indivíduos ou famílias ʿApiru eram dados como garantia para empréstimos ou contratados para tarefas que exigiam muito trabalho braçal, refletindo sua posição social precária como dependentes em busca de patrocínio. O logograma sumério SA. GAZ 𒊓𒄤, amplamente interpretado como denotando ʿApiru nesses contextos, aparece em tais documentos para significar esses trabalhadores vinculados ou tropas irregulares.

Durante o período assírio médio (séculos XIV a XII a.C.), textos cuneiformes de Assur e regiões vizinhas descrevem os ʿApiru como saqueadores e ladrões seminômades ou pessoas deslocadas atuando em zonas fronteiriças, frequentemente entrando em conflito com comunidades sedentárias ou servindo como forças auxiliares (mercenários). Listas administrativas dessa época catalogam os ʿApiru como cativos capturados em escaramuças de fronteira ou como grupos aliados em listas militares, ressaltando seu papel como elementos transitórios na expansão assíria. O termo  𒊓𒄤 SA.GAZ reaparece em inscrições reais, como as de Samsi-Adad I c. 1808–1776 a.C., para rotular agitadores estrangeiros ou disruptores foras da leis e forasteiros nômades que ameaçavam o controle territorial. Nos registros mesopotâmicos, os ʿApiru recebem mais de 210 menções no total, com aparições particularmente frequentes — na casa das dezenas — apenas em cartas de Mari, onde aparecem em inventários de cativos, recrutas ou aliados temporários.


Quem eram os 'Apiru?

Os Habiru ou 'Apiru eram a ralé e a gentalha da sociedade. Eles surgiram da instabilidade social. Eram frequentemente camponeses que fugiam de dívidas, servidão, altos impostos ou conflitos nas cidades-estados cananeias e mesopotâmicas. Refere-se a nômades, mercenários, ladrões, bandidos, escravos, prostitutas(os), criminosos ou pessoas que abandonaram a sociedade urbana. Literalmente, a raiz pode estar ligada a "poeira" "sujeira" "chiqueiro" "impuro" "excremento", indicando status de despossuídos, empobrecidos, miseráveis, desvalidos, indigentes.

Carol Redmount que escreveu Bitter Lives: Israel in and out of Egypt (Vidas Amargas: Israel dentro e fora do Egito), em The Oxford History of the Biblical World (A História de Oxford do Mundo Bíblico) concluiu que o termo "Habiru" não teria nenhuma afiliação étnica comum, que não falam uma língua comum, e que geralmente tinham uma existência marginal e às vezes ilegal nas margens da sociedade. Ela define os vários Apiru/Habiru como uma "classe social mais baixa, mal definida, composta por elementos de mudança e a pessoas sem vínculos seguros para as comunidades assentadas" em que se refere como "foras da lei, mercenários e escravos" nos textos antigos. Nesse sentido, Habirus são mais uma designação social que étnica ou tribal.


Cartas de Amarna

As cartas de Amarna c. 1360–1332 a.C., correspondência diplomática Egípcia em Acádico, descrevem os Apiru/Habiru como grupos renegados, nômades ou mercenários que causavam instabilidade, tomavam cidades-estados e atacavam vassalos egípcios em Canaã, gerando pedidos desesperados de socorro por governadores locais.

As Cartas de Amarna são tabuletas cuneiformes que relatam a crise no Levante sob domínio egípcio, frequentemente mencionando os Apiru/Habiru (ou Habiru) como grupos rebeldes, saqueadores ou mercenários que desestabilizavam as cidades-estado cananeias. Governadores vassalos imploravam ao Faraó Amenófis III e IV por tropas para conter a ameaça Apiru.

Cartas como (EA 286-290) de Abdi-Heba de Jerusalém descrevem os Apiru atacando cidades, tomando terras e alinhando-se com governantes locais rebeldes, como Labaya de Siquém.

O período demonstra instabilidade, com os Apiru agindo como um elemento de disrupção, forçando os governantes leais ao Egito a pedir ajuda desesperadamente contra a "terra de Jerusalém" e outras regiões dominadas por eles. 

As cartas de Amarna, cerca de 300, numeradas até EA 382, ​​são uma correspondência de meados do século XIV a.C., aproximadamente de 1350 a.C. a 1375 a. C. 

O conjunto inicial de cartas foi encontrado na cidade de Akhenaton , no piso do Escritório de Correspondência do Faraó; outras foram encontradas posteriormente, ampliando o acervo.


Eram Hebreus?

Embora o termo seja frequentemente debatido em relação aos Hebreus bíblicos, os Apiru nas cartas de Amarna são uma categoria sociológica de marginalizados fora da lei, sem pátria em vez de um grupo étnico único.

Os 'Apiru não são Hebreus, embora  Habiru pareça filologicamente similar a "Hebreu" ‘Ibri, o termo Habiru é uma designação de classe social, e não de etnia. No entanto os Hebreus bíblicos tenham sido, em um dado momento histórico, parte desse grupo social mais amplo de nômades marginalizados, os Hebreus no sentido de origem étnica única, não vieram estritamente dos Apiru como povo. Os Hebreus, como todos os povos, nasceram de um ajuntamento de vários povos, na quele período específico, da grande massa de Cananeus, povos nômades diversos e povos vizinhos e também da grande massa dos 'Apiru.

Sua presença é mais fortemente registrada entre 1800 a.C. e 1200 a.C..

Em suma, os Habiru surgiram da desagregação social da Idade do Bronze, formando grupos diversos sem identidade étnica única, conhecidos por sua vida nômade e, muitas vezes, por serem trabalhadores braçais ou mercenários no Egito e Canaã.


Eram Cananeus?

Os Apiru ou Habiru/Hapiru não eram um grupo étnico, como os Cananeus, mas sim um termo descritivo usado no antigo Oriente Próximo para um grupo social ou classe de pessoas marginalizadas, sem pátria fixa. 

Embora muitos Apiru vivessem na região de Canaã durante o período das Cartas de Amarna (século XIV a.C.) e atuassem na área, eles não eram etnicamente cananeus, mas um grupo diverso de nômades de várias etnias, mercenários, escravos e rebeldes que operavam à margem da sociedade sedentária, vindos de várias nacionalidades.

Nas cartas de Amarna, reis Cananeus reclamavam ao Faraó que os Apiru estavam atacando suas cidades e desestabilizando o controle egípcio na região. No entanto, os registros mostram que os Apiru eram uma mistura de pessoas, incluindo Semitas de toda sorte, Indo-Europeus, Hurritas, Cassitas, Mitanos, etc.

Portanto, os Apiru na Canaã bíblica eram um fenômeno social de marginalização, e não uma tribo cananeia específica. 


DOMÍNIO EGÍPCIO NA REGIÃO DE CANAÃ

 


A palavra "Egito" deriva do grego antigo Aígyptos (Αίγυπτος), que por sua vez tem origem no termo egípcio Hwt-ka-Ptah (Casa do Espírito de Ptah). A palavra Hwt-ka-Ptah quer dizer "Templo/Mansão da alma de Ptah", nome de um importante templo em Mênfis. Esta expressão evoluiu para Hikuptah (babilônico), Aigyptos (grego) e, finalmente, Aegyptus (latim). 

Os antigos egípcios chamavam sua terra de Kemet ("Terra Negra"), uma referência ao solo fértil e rico do Vale do Nilo, oposto ao Deshret ("Terra Vermelha" do deserto).

Atualmente, o país é chamado de Misr (em árabe) ou Mizraim (em hebraico), termos que podem significar "país", "fortaleza" ou "lugares confinados".

Antigo Egito dominou a região de Canaã durante grande parte da Idade do Bronze Final aprox. 1550–1130 a.C. totalizando 420 anos. Esse período foi caracterizado por uma presença militar e administrativa egípcia que transformou as cidades-estados cananeias em vassalas do Faraó, durante o Novo Império c. 1550–1070 a.C. 480 anos, das Dinastias XVIII a XX. Nesse auge imperialista, faraós como Tutmes III e Ramsés II expandiram as fronteiras egípcias até a Síria moderna, estabelecendo um sistema de estados vassalos.

Foi a era de maior expansão. O Egito controlava cidades-estado estrategicamente importantes como Gaza  (que servia como capital administrativa na região) além de Israel, Palestina, Líbano, Jordânia e Síria.

Após expulsar os Hicsos (povos asiáticos que governaram o Baixo Egito)  Tutemés III e Ramsés II, expandiram o território egípcio para o norte, estabelecendo controle até a Síria e a área do rio Eufrates.

Gaza foi um centro administrativo e fortaleza crucial para o Egito na região. O Egito utilizava um sistema de estados vassalos, onde cidades cananeias (como Megido, Jerusalém e Laquis) mantinham certa autonomia local, mas prestavam tributos e lealdade ao faraó.

Os egípcios consolidaram uma rede de fortalezas e postos de observação, conhecida como "Caminhos de Hórus", que ligava o Delta do Nilo à Síria. A região era um "amortecedor" de segurança, protegendo o Egito de invasões de potências como os Hitas, além de controlar rotas comerciais importantes.

O controle era mantido também culturalmente, com elites locais educadas no Egito, espalhando costumes, arte e a língua egípcia pelo Levante. Filhos de elites locais eram levados para serem educados no Egito, retornando ao Levante com cultura e valores egípcios para garantir fidelidade futura.

O domínio não era absoluto e enfrentava resistência de outras potências, como o Império Hitita (culminando na famosa Batalha de Kadesh) e o Império de Mitanni. Ocorreram períodos de declínio, como relatado nas Cartas de Amarna (período de Akhenaten), onde algumas cidades se rebelaram.

O controle egípcio enfraqueceu durante o Colapso da Idade do Bronze (c. 1200 a.C.), devido a invasões dos "Povos do Mar" e crises internas, resultando na perda gradual de influência sobre o Levante Sul. 

A presença egípcia começou a enfraquecer após o reinado de Ramessés III e terminou por volta de 1130 a.C., quando a região passou a sofrer com invasões de outros povos e a ascensão de novas identidades locais.

Em períodos posteriores, como na Época Baixa (Dinastia Saíta), o Egito tentou recuperar essa influência, mas acabou sendo suplantado por impérios maiores como os Assírios, Persas e, eventualmente, pelos Gregos e Romanos.

Embora o domínio tenha sido forte, as áreas montanhosas (onde os israelitas se estabeleceram posteriormente) eram menos controladas do que as cidades costeiras e de planície